Criação X Resultados:
Um velho dilema
Talvez nada incomode mais um profissional de criação
do que aquele discurso, não incomum, de muitos clientes,
que determinada campanha criativa não é vendedora
e só faz gerar prêmios, mas cabe aqui, a nós
criativos, boa parte da culpa.
Não tenho dúvidas de que a criatividade
em propaganda é a melhor ferramenta para tornar uma
marca percebida, para conquistar a simpatia de um consumidor
constantemente bombardeado por milhares de mensa-gens todos
os dias. A questão é, também estou
certo, de nada adianta se tornar percebido se o conteúdo
da mensagem não estiver corretamente posicionado.
Durante muito tempo e ainda hoje vemos peças com
apelos criativos pouco ou nada efetivos, sem conseguir agregar
à marca o valor que deveria. Puxe pela memória
e não será difícil lembrar de alguém
comentando determinado filme, supostamente criativo, brilhante,
mas, por algum motivo obscuro, sem conseguir lembrar a marca
anunciada.
Esse é o ponto, o tal motivo obscuro. Precisamos
ter a clareza de que propaganda é negócio
e não arte, como alguns fazem parecer. Usamos, sim,
atributos artísticos, mas com o objetivo de atingirmos
resultados concretos para nossos clientes. Antes de procurar
grandes sacadas é preciso ter uma base sólida.
Isto significa colocar a velha teoria realmente na prática,
saber com quem estamos falando, entender seus desejos, descobrir
o melhor caminho para posicionar uma marca de maneira que
o consumidor veja-se ali representado.
Isso é planejamento. Acredito que todo publicitário
(inclua aí nós, criativos) deve ser, por princípio,
um caçador de soluções, e por conse-qüência,
um planejador. O foco deve estar não na obra, mas
sim, nos resultados que ela tem que gerar.
É bem verdade que alguns criativos, há muito,
já pensam assim. É maravilhoso ver grandes
anunciantes se valerem do poder da criação
com extremo sucesso. Estão aí, Brahma, que
praticamente há um ano se mantém como comercial
preferido e mais lembrado*; Brastemp, há mais de
dez anos com o Não é assim uma Brastemp, surpreendendo
a cada filme; Havaianas, que conseguiu transformar um produto
já desgastado em sucesso fashion. Além de
Ipiranga, Sukita, entre outros. É isso, criação
consistente, que dá certo e acaba virando ícone
junto ao consumidor.
Quanto aos prêmios, tema tão vinculado a
nossa área, talvez não exista publicitário,
e até mesmo não-publicitário, que não
goste de ver seu trabalho reconhecido. Porém, a importância
do prêmio está associada à dificuldade
de conquistá-lo, e nada é mais difícil
do que fazer propaganda que funcione, não apenas
nos festivais ou na opinião dos clientes, mas principalmente
na cabeça dos consumidores.
Fábio Carvalho,
criativo da Dois.A Publicidade
* Pesquisa Lembrança de marcas na
propaganda de TV, realizada
mensalmente pelo Datafolha.