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| As jornalistas Nara Carolina, Marcela Machado e Kety Marinho |
Muitos projetos experimentais falam sobre adolescentes que vivem nas ruas, porém nada é dito sobre as suas mães. Com a intenção de desvendar o que pensam essas mulheres e os motivos que as levam a abandonar os seus filhos, as jornalistas Kety Marinho, Marcela Machado e Nara Carolina produziram o documentário Cabo de Guerra, que recebeu a nota máxima da banca julgadora da Universidade Católica de Pernambuco, em dezembro de 2007. O vídeo experimental traz revelações das mães de meninos e meninas em situação de rua e também das mães de crianças em liberdade assistida.
Segundo Kety, para criar Cabo de Guerra, foi necessário conviver e compartilhar o sentimento dessas famílias, as diferenças entre elas e a realidade existente por trás de cada adolescente. “Através dos questionamentos feitos às mães e aos seus filhos, pudemos perceber o lado humano e sentimental que existe na miséria, no abandono, na dificuldade, na fuga, e até mesmo, na agressão. Queremos que a sociedade veja esses jovens com um outro olhar, sem julgamentos. Queremos entender o problema e provocar reflexões, talvez esse seja o primeiro passo para resolvê-los”, diz a jornalista, que é editora de imagens da Rede Globo NE e da ONG Auçuba.
A maior preocupação do orientador Cláudio Bezerra era saber onde o trio iria encontrar as mães que pretendiam mostrar. Uma grande quantidade de ofícios foi enviada a várias Instituições que trabalham com as mães, no sentido de identificar o perfil para o projeto. “Tivemos duas longas reuniões com o Instituto de Assistência Social e Cidadania - IASC, da Prefeitura do Recife, mas eles não conseguiram identificar as pessoas que procurávamos”, revela Marcela. Por esse motivo, uma das integrantes saiu às ruas com o desejo de conversar com os filhos, e talvez, com sorte, chegar às mães. E foi exatamente o que aconteceu. “No entanto, outro tipo de mãe nos foi apresentada, diferente da que queríamos trabalhar no início. E, com a ajuda de amigos, chegamos, em Jaboatão dos Guararapes, à sede da Associação dos Moradores do Loreto - Asmoreto. Uma entidade que trabalha na ressocialização de adolescentes em liberdade assistida. E através de Joana D´Arc – responsável pela associação, encontramos o apoio e a certeza de que conseguiríamos concluir o nosso trabalho”, recorda Marcela.
O nome “Cabo de Guerra” foi citado em um dos depoimentos de Joana D’Arc. “Para ela sempre existe alguém que puxa os ‘meninos’, mesmo não tendo como avaliar quem é que puxa ou quem é que empurra o cabo. E esse nome se mostrou apropriado diante da realidade que os adolescentes vivem. A interpretação desse “Cabo” como um cordão umbilical, presente na identidade visual do projeto, foi uma interpretação da designer Jaíne Cintra, do Jornal do Commercio, e entendida por nós como a ligação e até mesmo o princípio de tudo”, explica Nara.
O trio contou também com a ajuda de um amigo, que as conduziu pelas ruas na madrugada do Recife. “Não são ruas quaisquer. São lugares onde os meninos e meninas fazem moradas e dormem juntos para se proteger da realidade em que vivem. Nas ruas ‘dormir só’ pode significar um acordar sem pertences, mesmo que o objeto tirado seja um tubo de cola de sapateiro”, diz Kety. O que o documentário experimental mostra não são as respostas, nem os motivos da falta de sentimento, muito mais que isso, ele abre nossos olhos para uma realidade cruel. A de não saber do filho. A da dor que já não incomoda. A da dor de não sentir. |