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   Ano IX | Agosto de 2008 | n° 102 | Capa: Link (BA)

     
BRINCANDO DE FAZER MASCOTES
 
Paulo Azevedo
 

Quem não se lembra do homenzinho azul da campanha do Cotonete? Ou então de um pato que livrava assentos sanitários de todos os germes? E quem não cansou de ver o solzinho "Cauê", mascote dos jogos Pan-Americanos em panfletos, sites e reportagens de televisão e revista? Esses são exemplos de personagens que apareceram na mídia e fizeram parte do nosso cotidiano. Mais que isso, são exemplos de aplicações da ilustração na comunicação.

São inúmeros os exemplos de campanhas publicitárias nas quais ilustrações foram utilizadas. O artifício de criar um personagem gera certa intimidade entre o consumidor e o produto, sem contar que um personagem facilita muito a identificação e reconhecimento do mesmo por parte dos consumidores. Segundo o diretor de criação e ilustrador Ducca Rios, da agência Origem (BA), a ilustração serve como ferramenta para expressar imagens que não podem ser compostas por fotografias ou jogos de palavras. "Através dela [ilustração] se expõe um universo particular, que não pertence ao mundo comum a todos nós, algo que vem da poética do artista que realizou o trabalho, seu modo de processar esteticamente a mensagem que lhe foi incumbida", completa o publicitário.

Fica fácil entender porque campanhas infantis se utilizam do recurso, já que essa ferramenta é uma forma útil de expressar o universo lúdico e fantasioso das crianças. Além de campanhas infantis, a ilustração é muito utilizada em produtos de limpeza, sobretudo na televisão, em que a sujeira é totalmente eliminada; e ambos são personificados com o uso de animações. Há também os filmes de sabão em pó, nos quais várias flores voando representam o perfume.

Os personagens produzidos para as campanhas muitas vezes são o ponto principal da propaganda. Às vezes, um produto consegue visibilidade maior do que a esperada, justamente por causa de personagens interessantes. É o caso dos siris debochados da propaganda da Brahma, bem como a animação da Assolan, dançando paródias de músicas da moda, que foi determinante na competição com a Bombril.

Na década de 70 os três aparecem em comercial para a Rádio Record

MASCOTES - Uma das áreas com maior receptividade no campo da ilustração é a criação de mascotes, e a que dá mais retorno financeiro também. Não é simplesmente desenhar um personagem, mas sim criar, junto com a empresa, uma outra forma de representá-la para a sociedade. A mascote vai estar diretamente ligada à imagem do produto, o contato visual com um, faz o consumidor lembrar-se do outro e vice-versa.

Os personagens servem tanto para a comunicação com o público consumidor quanto para a comunicação interna de uma empresa. Exemplo disso foi a mascote desenvolvida na Usina Salgado, que fica na cidade de Ipojuca, em Pernambuco. O personagem ficou sendo o porta-voz da empresa, e usado desde o jornal interno até no layout do site. "A maior aplicação da mascote foi em cartazes desenvolvidos para que os operários da usina usassem sempre os equipamentos de proteção individual, tornando assim a comunicação mais amigável", diz a criadora Paula Queiroz, que contou com os desenhos de Rivaldo Barboza.

Por causa do forte apelo das ilustrações, as empresas de comunicação parecem estar cada vez mais abertas para o trabalho de profissionais dessa área, como comenta o ilustrador Ricardo Jaime (PB). "Os veículos e editoras estão mais suscetíveis pela facilidade de comunicação que a ferramenta oferece. O mercado está expandindo e a diversidade de demandas também". Além dos trabalhos de ilustração publicitária, Ricardo, que tem seu estúdio em João Pessoa, trabalha como quadrinhista e divulga seus trabalhos na internet.

No entanto, nem todos parecem estar tão satisfeitos com o mercado de trabalho pra quem faz ilustração. "No Nordeste, em 99% dos casos, ela é usada como solução para a falta de verba. Dificilmente é descrito um estilo quando encomendam uma. Quase sempre mandam uma foto como referência e nunca descrevem um traço", contesta o ilustrador baiano Samuka Marinho. Ainda segundo ele - que resolveu abrir sua própria empresa no segmento, a Desconstrutora - esses profissionais são marginalizados e não recebem o devido valor.

Uma alternativa para a instabilidade nesse mercado é trabalhar como free-lancer. É assim que trabalha atualmente Dorival Lima, ilustrador-colaborador da ProNews, que já trabalhou com diversas agências publicitárias em Recife, Nordeste e São Paulo. Ele saiu da dependência das grandes agências e foi estabelecendo seu nome no mercado regional. Para quem pretende entrar nessa área, Dorival aconselha que os aspirantes sejam muito dedicados, além de achar imprescindível constante exercício de observação. "Você tem que ficar ligado em tudo, como a luz reflete nos objetos, a importância das cores - um bom ilustrador é também um bom observador", comenta.

Dorival é o "pai" de personagens como a oncinha do Colégio Atual, o pingüim da Borborema, o Netuno da Netuno Pescados, entre tantos outros. Fora as mascotes, ele trabalha com ilustrações hiper realistas e modelagens em 3D, e ressalta que a maioria das embalagens de biscoito, iogurtes e sucos produzidos do Nordeste levam assinatura dele. "Às vezes o cliente me pede pra fazer apenas um morango caindo no leite, ou mesmo a ilustração do biscoito. Ao invés de usar fotografia, eles priorizam elementos de ilustração, porque podemos dar um melhor destaque e fazer algo mais perfeito, valorizando o produto. Mas engana-se quem pensa que é um trabalho fácil. Não é. Posso levar dias inteiros para atingir determinado acabamento desejado, traço ou ângulo solicitado pelo cliente", explica.

Quem trabalha como free-lancer acaba fazendo trabalhos que vão além da publicidade propriamente dita, vendendo produtos. É comum participar de campanhas de ação social, sobretudo as que envolvem saúde e educação. O ilustrador pernambucano Will Albuquerque foi pioneiro na criação de jogos educativos aliados a cartilhas para a Prefeitura do Recife. Inclusive, ele comenta que cartilhas com ilustrações são o seu forte, é no que mais trabalha.

Como evidência do apelo que a ilustração exerce sobre as pessoas, Will Albuquerque vai expor seus trabalhos no Shopping Center Recife, pela segunda vez em sua carreira. O interesse das pessoas em ver os trabalhos gráficos motiva os ilustradores a disponibilizarem seus produtos na internet. É comum que um ilustrador tenha um blog e que use esse diário virtual também como vitrine para seus clientes. Para quem ficou curioso, é só acessar os links abaixo para ver mais dos trabalhos dos entrevistados desta matéria:

Ricardo Jaime: www.ricardojaime.com.br
Samuka: www.ricardojaime.com.br
Rivaldo Barboza: tracosetrocos.wordpress.com
Will Albuquerque: willalbuquerqueilustrador.blogspot.com


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