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   AnoX | Outubro de 2008 | n° 104 | Capa: GCA Comunicação (PB)

     

CINEMA PERNAMBUCANO EM DESTAQUE

 

Matheus Torreão e Gianni Paula

 
Alfredo Bertini, criador do Festival de Audiovisual (CINE-PE)

Que a produção do cinema local tem crescido vertiginosamente é um fato. Se há necessidade de um curso superior para se aventurar na sétima arte ou se haverá mercado para abrigar todos os profissionais que se graduarão anualmente, alguns já questionam. Independentemente disso, a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) lança, ao lado de outros nove cursos, a novíssima em folha graduação em Cinema. Prevista para começar a funcionar a partir de 2009, a novidade acontece graças à adesão da universidade ao polêmico Reuni (Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais).

A coordenadora do curso de Cinema da UFPE, Ângela Prysthon, coloca a demanda interna da própria universidade como uma das principais razões para sua criação: "É crescente o número de estudantes de Jornalismo, de Publicidade & Propaganda e Radialismo & TV que se orientam, de forma muitas vezes improvisada, para as profissões do campo cinematográfico. Recentemente, no final de 2006, levantamento realizado em diversas turmas das habilitações citadas acima do Curso de Comunicação Social apontou para faixas entre 20% e 40% de desvio - ou seja, de alunos que optariam, caso houvesse essa oportunidade, para uma formação diretamente relacionada com o Cinema", comenta.

Uma das grandes novidades é que agora será dada aos alunos a possibilidade de realmente formatarem seu curso. Nos primeiros três anos, haverá uma porcentagem específica de cadeiras básicas para todos, e o restante será aberto para quaisquer assuntos que pertençam às suas áreas de interesse, como sociologia, artes ou, até mesmo, física. O quarto e último ano deverá ser todo voltado para produções dos estudantes. Ângela esclarece: "Nossa proposta procura abrigar justamente a multiplicidade de funções associadas ao cinema, tanto no seu aspecto prático como na reflexão teórica sobre os formatos e sobre sua trajetória histórica. Por isso foi fundamental imaginar um currículo versátil, flexível e condizente com essas atividades".

Junto aos recursos já utilizados na recente reforma do laboratório de Rádio e TV da UFPE, o projeto contará com investimentos de cerca de 700 mil reais em equipamentos e infra-estrutura. Estão previstos também sete concursos para a docência, que serão divulgados e realizados até o final do ano que vem. Além das novas contratações, já existe um núcleo principal formado pelos oito professores que montaram o projeto (docentes do departamento de Comunicação Social que vêm trabalhando há muitos anos com cinema e audiovisual, tanto nos seus aspectos práticos como teóricos).

VAGAS X MERCADO - O professor Paulo Cunha, que há cerca de quatro anos discutia a integração do curso à UFPE, se mostra bastante otimista quanto ao mercado de trabalho e explica o fato de a quantidade de vagas da graduação em Cinema (50 no total) superar a dos demais cursos de comunicação: "Deveria haver mais vagas de Comunicação Social em geral. Como se calcula que o curso de Jornalismo deve ter apenas 40 vagas? É um cálculo muito complexo. Preferimos abrir a quantidade de vagas que acreditamos ser a ideal, independente dos outros cursos. E estamos confiantes." De certa forma, esta graduação surge para suprir uma lacuna do contexto da produção local, que, nos últimos anos, articula suas possibilidades. Era necessário um espaço acadêmico no qual se estabelecessem discussões amadurecidas sobre o cinema, além de uma disponibilidade maior de profissionais capacitados para as diferentes funções. Ou seja, não apenas diretores-autores, mas também diretores de produção, fotografia, arte, técnicos de som, entre outros.

Leo Falcão, cineasta

O criador do Festival de Audiovisual (CINE-PE), que é referência no Norte-Nordeste, Alfredo Bertini, pondera sobre a existência de um mercado realmente expressivo, até porque, no rigor do conceito econômico de Indústria Cinematográfica, essa realidade está longe de ser alcançada não só em Pernambuco, mas em todo o Brasil. Entretanto, ele aposta nessa capacidade produtiva e pontua que o audiovisual local está caminhando para um novo vetor de desenvolvimento socioeconômico sustentável: "A cultura é uma vocação nítida de nosso estado e o cinema faz parte dessa história desde a década de vinte, do século passado. Some-se a essa percepção histórica e ao interesse pelas artes e pela cultura uma convicção de que o audiovisual representa um exercício profissional de razoáveis perspectivas", analisa.

Sobre a relação entre a formação de profissionais qualificados para ocupar as diversas atividades de elaboração de um filme e o quadro cultural apresentado, Bertini acrescenta: "Todo esse movimento será melhor ajustado às rígidas regras do mercado, caso saibamos trabalhar o processo de formação dessa mão-de-obra, seja no nível técnico ou no nível universitário. Essa é apenas uma das problemáticas que carece de superação imediata, mas que parece rumar para um razoável encaminhamento a curto prazo".

INCENTIVO - A estabilidade da produção cinematográfica tornou-se possível também devido ao reconhecimento do setor pelo Governo do Estado e ao apoio de instituições como a Secretaria da Cultura, a Fundação Joaquim Nabuco e o Ministério da Cultura, que entenderam a necessidade de oferecer suporte a esta esfera cultural. Há, em Pernambuco, uma produção regular e cheia de peculiaridades que precisa ser agraciada com os devidos investimentos. Sobre o surto de interesse, nestes últimos anos, pelo ramo cinematográfico, o cineasta Leo Falcão comenta: "Creio que isso esteja acontecendo devido à visibilidade que o cinema pernambucano vem tendo no cenário nacional e pelo evidente apuro técnico do cinema brasileiro como um todo. Ajuda também o fato de termos mais acesso a filmografias diferentes daquela para que fomos "treinados" a consumir: a americana. É importante promovermos esta diversidade", acredita. Ou seja, o momento é favorável para a sétima arte, que se tornou uma das mais queridas pela sociedade, e o direcionamento teórico oferecido pela UFPE chega em boa hora.



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