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   Ano IX | Dezembro de 2008/Janeiro de 2009 | n° 106 | Capa: Azteca Comunicação

 

A ARTE DE GLOBALIZAR XILOGRAVURAS E CORDÉIS

 

A Literatura de Cordel representa uma das expressões populares mais brasileiras que existe. Bastante comum no Nordeste, e em lugares onde migrantes da região se instalaram, o cordel se firmou como cultura popular e foi se espalhando pelo País. Hoje, já não se trata apenas de um texto próprio para ser cantado, ou da impressão de gravuras feita de modo artesanal, ele ganhou movimento e ritmo e agora faz parte do dia-a-dia das pessoas. Anúncios publicitários, e outras formas de comunicação que se utilizam do aspecto visual, encontraram no cordel uma ferramenta de trabalho sem igual.

Atualmente a simplicidade do cordel vem remetendo à sofisticação da propaganda bem elaborada. Está em vários lugares, criando estilo para consumidores, virando estampas de camisetas, bolsas e embalagens de produtos. Uma expressão artística de qualidade, com um forte contexto histórico popular e de grande aceitação pelo público.

A "Casa da Teacher's" montou espaço Vip e reuniu convidados, clientes e consumidores

Um exemplo disso é a campanha “Casa Teacher's abre suas portas no Alto do Moura”. Quando, pela primeira vez no São João de Caruaru-PE, o uísque participou dos festejos juninos da cidade. A marca montou espaço Vip e reuniu seus convidados, clientes e consumidores valorizando a produção cultural da região. A Casa surpreendeu o público pela riqueza de detalhes e pela originalidade. Com decoração inspirada nos traços e na criatividade singular do artista pernambucano J. Borges, os espaços fizeram uso do cordel e xilogravuras.

Na casa, os participantes podiam tirar fotos num painel customizado e receberam camisas também estampadas com xilogravuras. O projeto da Casa Teacher's foi uma estratégia da Level, produção da Combo Marketing e Promoção, e RP e mailing da Lead Assessoria. “O nosso lema, na verdade, é criar uma relação de proximidade e familiaridade com o consumidor, e ao mesmo tempo mostrar que a marca valoriza a sua cultura”, explicou o gerente de grupo de bebidas tradicionais da Pernod Ricard Brasil, distribuidora do uísque Teacher's, Eric Sampers.

A imobiliária Jairo Rocha valorizou a cultura popular através da literatura de cordel em sua campanha

Outra empresa que faz questão de valorizar a cultura popular é a Imobiliária Jairo Rocha, que também utilizou a estética da literatura de cordel. “Por ser uma empresa pernambucana que tem muito orgulho de suas raízes, o cordel caiu como uma luva na campanha institucional da empresa”, afirmou Jairo Rocha Filho. O grande objetivo da propaganda foi ressaltar a liderança da Jairo no estado e as vantagens que esta liderança garante ao público. Fazendo uso da mídia impressa e exterior, a campanha estampava bonequinhos em estilo de xilogravura, fixando-os à bandeira da imobiliária.

Mas o grande diferencial foi o VT, produzido em animação pela agência Z4, no vídeo o que era só mais uma campanha regional ganhou movimento e vida. Os trinta segundos de animação mostravam os bonequinhos percorrendo um cenário composto por conhecidos pontos geográficos do Grande Recife, todos recriados em estilo de xilogravura. “O resultado da campanha foi ótimo, provando que a união de marcas de apelo regional com a cultura popular é, de fato, uma ótima estratégia de comunicação”, declarou Jairo Filho.

Literatura de cordel divulgou o seminário da Agência Nacional de Aviação

A inspiração anda lado a lado com o cordel, e não são poucas as empresas que apostam nessa arte. A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) também se inspirou na literatura de cordel para a divulgação do XV Seminário Regional de Aviação Civil. Os programas, cartazes e até as pastas distribuídas com os participantes traziam o cordel. A idéia, desenvolvida pela MSG Propaganda, foi dos inspetores da Anac no Recife, Amaro da Costa e Roberto Linardi, que fizeram os versos apresentados no seminário. “A iniciativa teve como objetivo divulgar a nossa cultura popular uma vez que o encontro reuniu participantes de vários estados brasileiros”, afirmou Costa.

O restaurante recifense Parraxaxá, especialista em comidas típicas nordestinas, também encontrou nessa arte a chave para a divulgação da marca. E fez questão de fazê-lo utilizando todos os elementos que compõem a Literatura de Cordel. Na campanha “Dez anos de dar gosto” o Parraxaxá criou jingles, customizou o site e fez divulgação em mídia exterior usando do cordel cantado à xilogravura impressa.

Mas não é apenas o nordestino que investe no cordel como divulgação. A Natura, empresa presente em vários países e renomada marca de cosméticos, já apostou várias vezes na literatura de cordel como propaganda. São inúmeros os vts com xilogravuras animadas. Tem filme de Natal e de São João, além dos criados especialmente para o lançamento de perfumes, a exemplo do Águas de São João e Banho da Felicidade.

A Ampla Comunicação assinou a campanha para a Secretaria da Fazenda do Governo do Espírito Santo, focada na nota fiscal

O cordel e as xilogravuras hoje são utilizados para customizar todos os tipos de campanha em todos os lugares deste País. De propaganda imobiliária à eleitoral, o cordel segue marcando tendências. É o caso da animação feita esse ano, para a campanha eleitoral do candidato a prefeitura de Londrina, André Vargas. Outra prova de que o cordel não é costume apenas de nordestino é a campanha criada pela agência pernambucana Ampla Comunicação para a Secretária da Fazenda do Governo do Espírito Santo. O trabalho tem como foco a nota fiscal, mostrando sua importância para o desenvolvimento do estado.

A divulgação integra jingle e filme de 30” todo feito em animação 2D, produzido pela Fulltime Filmes e com ilustração da Quadro a Quadro, com o mote: “Quem diria que emitir a nota fiscal deixa o Espírito Santo do jeito que a gente imagina”. O trabalho visa conscientizar, de forma simpática e bem-humorada, a população para o despertar do seu papel de cidadã no futuro, através da cobrança da nota fiscal. Para isso, a agência trabalhou no filme ilustração, com traços marcantes e bem coloridos, que remete o espectador à beleza do desenho de cordel.

XILOGRAVURAS – A literatura de cordel cria um jogo com as palavras de forma atrativa e possui uma história cultural rica, essa literatura passou a ser adaptada para acompanhar o desenvolvimento tecnológico e atingir outros objetivos.

Nas mãos dos xilogravuristas os pedaços de madeira vão ganhando formas, de entalhe em entalhe, o que era uma superfície lisa se transforma numa base que mais tarde se multiplica para ser vista nas capas dos folhetins pendurados culturalmente em cordões. A história não fica por aí, as

Imagens em xilogravura saltaram do suporte tradicional às capas dos folhetos, e passaram a ser utilizadas em outros meios, livres da narrativa e sem nenhuma relação com o poema da literatura do cordel.

A xilografia que era apenas uma técnica rudimentar de impressão, apesar de sua simplicidade, de extrema importância na história e na cultura do País, passou a ser um grande e sofisticado apetrecho do designer contemporâneo. "O design sempre existiu desde que o mundo é mundo. Com outros rótulos foi pintura rupestre, tronco rolante, roda, ferramenta, e por aí vai. O que ontem foi desenho, hoje é design”, diz o designer mineiro Noguchi.

A animação "A Árvore do Dinheiro" idealizado pelo professor Marcos Buccini da Aeso

O uso de uma técnica tradicional, como é o caso da xilogravura, atrela-se a um elemento de modernidade, o vídeo de animação. Apresentada como um novo suporte para a hibridização e representação da cultura nordestina, a xilogravura de hoje tem voz, movimento e cor. Um dos grandes idealizadores dessa façanha é o professor da Faculdade Aeso Barros Melo, Marcos Buccini, diretor de animação do video “A Árvore do Dinheiro”. “A literatura de cordel possui as características que eu procurava para a animação, pois mistura temas clássicos, como 'o amor proibido', 'o bem contra o mal', etc.; com aspectos regionais, que me interessam bastante”, declara Buccini .

Desenvolvido juntamente com Diego Credidio, feita em Flash, o filme foi o grande vencedor do Anima Mundi Web 2002 e do Festival de Vídeo do Recife. “A nossa idéia era usar a xilogravura para fazer uma animação rústica nos movimentos, combinando com o traço simples. Fazer um movimento realista é um desafio, mas ao animar “A Árvore do Dinheiro”, nós nos vimos no lado oposto: como fazer uma animação convincente usando o mínimo de movimentos? Este foi o nosso desafio”, complementa Buccini ao falar da simplicidade do cordel e do avanço do designer grafico.

UM SERTANEJO INTERNACIONAL

 

A influência do cordel se faz através da imagem, dos traços pretos e brancos, remetendo à cultura popular, tema bastante abordado pelo artista pernambucano J. Borges. Dono de um ateliê no município de Bezerros, agreste pernambucano, José Francisco Borges, de 66 anos, é o autor das mais famosas peças do ramo. Devido à sua simplicidade e à forma bucólica que trabalha, ninguém desconfia que ele é um dos artistas folclóricos mais celebrados da América Latina.

J. Borges percorreu 20 países europeus, já foi tema de reportagem no jornal The New York Times e hoje é denominado um gênio da arte popular. O simples artesão pernambucano caiu nas graças dos principais colecionadores de arte popular do mundo. Foi convidado para dar palestras nos EUA, França, Venezuela e Suíça, onde ministrou aulas sobre xilogravuras e literatura de cordel, fazendo do mesmo uma arte mundial. Os trabalhos dele passaram a circular nos meios acadêmicos e artísticos. As ilustrações de J. Borges estamparam capas de discos e livros. Hoje a xilogravura do sertanejo se mistura ao glamour da propaganda Nacional e representa mundialmente a arte popular.

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