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   Ano X |15 de fevereiro/15 de março | n° 108 | Capa: DA/DPA Comunicação Integrada

 
NÃO BASTA CRIATIVIDADE, TINTA E PINCEL

Nadezhda Bezerra nadezhda@usimais.com.br

 

Um famoso pintor da cidade recebeu uma encomenda especial: pintar um quadro da rainha como presente de aniversário de casamento para o rei.

Essa seria uma de suas maiores obras, com ela alcançaria fama e prestígio internacional, seria alçado à condição de pintor da realeza, era, sem dúvida, um marco na sua carreira.

Mas diferente do que havia pensado seu assistente, ele estava desolado.

- Mas, senhor, não entendo tanta tristeza. Uma encomenda tão importante era para deixá-lo em polvorosa, cantarolando pelos cantos de tanta alegria!

- Como? Como posso ficar feliz? Você não entende, não é mesmo?

- Não, mestre, não entendo. O senhor é um grande pintor, o maior e mais criativo de toda a região! Seus quadros são exemplos de perfeição, não há que não goste deles! Por que tanta insegurança?

- Meu caro aprendiz, obrigado por todos os elogios, sem querer parecer presunçoso, concordo com cada um deles, mas há algo que você precisa saber sobre a razão de tanto sucesso.

O aprendiz ficou atento ao que o mestre dizia, pois, para ele, a criatividade e originalidade de seu mestre eram o suficiente para o seu sucesso com a clientela.

- Cada quadro que pinto para um cliente tem uma razão, um porquê. É diferente dos que pinto sem encomenda, esses eu pinto pelo meu bel-prazer e deixo para aqueles que os contemplem que achem e pensem deles o que quiserem.

O aprendiz estava atento, mas sua expressão era de quem ainda não estava totalmente convencido da explicação do mestre.

- Mas os que pinto sob encomenda necessitam provocar uma emoção específica,entende? Lembra quando o Marquês me encomendou um retrato para presentear o pai de sua futura noiva? Ele tinha a intenção de conquistar o sogro, de mostrar que o via como uma pessoa simpática, inteligente e altiva. Daí o que eu fiz? Pintei o retrato tendo em vista estas diretrizes e o que aconteceu depois? Bingo! O sogro do Marquês foi atingido em cheio e ainda disse em público que ficava feliz de saber que seu futuro genro o via como uma pessoa simpática, inteligente e altiva.

- Hum... acho que agora compreendo sua preocupação mestre. O Rei viajou e não deixou nenhuma diretriz para o senhor pintar o quadro, o que o deixa sem rumo, sem foco, sem saber por onde começar.

- Exato, atento aprendiz! Posso até fazer um quadro belíssimo, mas que não agrade a Rainha ou que não passe a intenção do Rei com o presente. Por isso o que pode ser a minha glória, pode ser também o meu fracasso.

Moral da história: senhores reis atendimentos e planejamentos, não deixem os pintores da sua criação sem um bom briefing, pois por mais criativos e comprometidos que sejam, podem ficar perdidos e os quadros pintados por eles não serem dignos de se pendurarem na parede.

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