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pe360graus
   Maio de 2003 | nº 44 | Capa: Ágora
   
   
     
  De volta ao ponto de partida
Rose Maria
 
Por mais que ele tente falar de si, mal começa a travar um bate-papo, e lá vêm à memória as barreiras que ultrapassou para estar no ranking dos melhores da publicidade no Nordeste. O menino de Campo Grande - um bairro da periferia do Recife - viu os pais fazerem milagre, literalmente, para investir no único bem durável e intransferível: sua educação. Formado em Comunicação Social pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) e pós-graduado em Marketing pela Universidade de Pernambuco, Fernando Lima, 35 anos, é uma daquelas pessoas que discretamente chegam e sutilmente dão seu recado. Nada de ostentação. E até que poderia sê-lo, considerando seu currículo: já foi diretor de criação das agências Ampla, Propeg de Pernambuco e Ceará; superintendente de programação e produção da TV Pernambuco (afiliada da Rede Cultura); diretor de criação da NeWTrade Internet e NewTrade Institucional em São Paulo e Lisboa (Portugal) e agora, consultor de Criação da agencia Aporte.

"A memória que tenho de minha vida é a melhor possível", assegura. E quando fala sobre sua infância o faz com bom humor: "Sou filho único, mas muito pouco mimado", brinca, arrematando que sua relação com o pai foi "excelente", embora o tenha perdido aos 13 anos. "Lamento ele ter morrido tão cedo e não ter acompanhado minha adolescência. Mas deixou lembranças fantásticas de como tratava minha mãe. Eles eram apaixonados e tinham uma relação de namorados", relembra.

Fernando Lima estava em São Paulo há três anos, quando resolveu retornar ao ponto de partida para consolidar sua carreira. "Eu voltei porque sou daqui, conheço o mercado e recebi o convite", argumenta. Do momento em que decidiu voltar ao Recife, a única coisa que lamenta foi enfrentar os "boatos" comuns ao meio publicitário. Provocado a dizer o que teria lhe feito pensar duas vezes antes de fazer as malas, Fernando Lima tenta disfarçar uma certa mágoa: "Aconteceu um episódio desagradável: disseram que eu voltava porque minha mãe estava muito doente. Ela está melhor do que eu. Foram indiferentes ao meu projeto de vida", diz chorando, sem temer mostrar-se ser um homem com a sensibilidade à flor da pele. Nessa hora, nem parece ser o publicitário pragmático, que já decidiu estratégias de campanhas políticas para os governos de Pernambuco e Portugal. Quem o vê assim, também não imagina que sua carreira acumula prêmios que vão desde Profissionais do Ano da Rede Globo, Colunista Norte/Nordeste e Prêmio Abril. E também foi finalista do Festival de Nova Iorque.

ProNews - Fernando, você passou por várias experiências na Europa, em outros estados, enfim… O que você traz na bagagem ao voltar para o Recife?
Fernando Lima - O jeito de pensar das pessoas faz com que a gente pense também diferente ou se molde a pensar do jeito que o cliente ou público pensa. É muito importante isso: você ter vivência com outros tipos de pessoas, ainda mais o português. Falando sinceramente: é uma lógica absolutamente diferente do brasileiro e do resto do mundo. O que você faz é reflexo do que a sociedade lhe motiva e que o mercado lhe exige. Você pode ser criativo, ousado, mas não pode falar o que as pessoas não entendem. Isso eu aprendi morando fora.

ProNews - Há informações de que em Portugal existe um certo preconceito em relação aos profissionais brasileiros. Em algum momento você se sentiu discriminado?
Fernando Lima - O português discrimina qualquer pessoa que não seja portuguesa. Tem preconceito com o negro, homossexual e mulher. A princípio não é fácil para as pessoas que vão morar naquele país. Particularmente, eu me dei muito bem com os portugueses. Adoro eles e tenho muitos amigos por lá. Lidei com gente das mais diversas áreas. Desde o ministro de Portugal à moça do cafezinho na agência em que eu trabalhava. Eu acho que tive sorte. Meu maior aprendizado foi ter conseguido entender a lógica dos portugueses.

ProNews - Você já teve oportunidade de circular em quase todas as áreas da publicidade e do marketing. O que mais lhe atrai na sua profissão?
Fernando Lima - O que mais me dá "tesão" é fazer um trabalho diferenciado. Não é lugar comum. Eu acho que é fazer um trabalho pertinente. Não tenho mais medo de fazer Criação. Agora é fazer algo que traga resultados e em propaganda, especificamente em comunicação, a meta é gerar negócios para o cliente. Eu voltei ao Recife pensando muito nisso. É o grande diferencial no meu trabalho hoje. Acho o que mais o cliente tem exigido da agência e de qualquer parceiro é que se gerem negócios, que se pare de fazer simplesmente anúncio, porque anúncio pelo anúncio, está todo o mundo fazendo igual.

ProNews - A sua função na Aporte gera uma certa curiosidade. O que é ser consultor de criação?
Fernando Lima - Eu nunca trabalhei na Aporte. Conhecia Ângelo Mello (um dos diretores da agência) e isso é uma fase de experiência para minha volta ao mercado pernambucano. Foi uma coisa acordada entre as partes, ou seja, que se tivesse esse perfil de consultor. Até porque, a minha missão é mais do que dirigir a Criação. É ver o formato de criação que está se fazendo aqui. Quando eu falo antes de gerar negócios, é fazer uma criação voltada aos interesses do cliente. Por isso, eu não posso ser apenas um diretor. O meu trabalho de consultoria é mudar a filosofia dessa área em relação ao cliente.

ProNews - Na condição de consultor, você é pago para pensar publicidade. Quando você analisa o mercado, como vê a publicidade que é feita hoje no Nordeste?
Fernando Lima - O mercado cresceu muito criativamente, têm pessoas na Criação voltadas aos interesses do cliente muito mais do que aos pessoais; em algumas situações eu me deparo com o contrário: percebo que estão muito mais envolvidas em subir no pedestal do que colocar o cliente no topo. Mas não me interessam essas coisas.

ProNews - Boa parte dos profissionais que deixam sua cidade de origem, geralmente diz: "É daqui para mais longe". O que fez você voltar para o Recife?
Fernando Lima - Eu deixei o meu cargo e a agência que trabalhava em Portugal por dois motivos: primeiro por discordar da filosofia que ela estava aplicando junto ao cliente. Há muito tempo que eu sai da sala de Criação e eu aconselho que todos os profissionais que trabalham com criação façam isso. Deixem seu computador e a