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pe360graus
   Maio de 2003 | nº 44 | Capa: Ágora
 
 
   
     
Aos trancos e barrancos
Luciana Torreão

É. Não tem jeito. Ao que parece o showbizz brasileiro começa a tomar rumos incertos e sobrevive aos trancos e barrancos. Lançar um CD hoje é sinônimo de labuta, força de vontade e sacrifício. Ou os artistas caminham autonomamente, com dinheiro do próprio bolso ou lançam seus trabalhos por selos e gravadoras independentes ou do contrário, o jeito é rezar para ter seus projetos aprovados pelas leis de incentivo à cultura. Ou até, quem sabe, conseguir um patrocínio. Com a onda da pirataria, várias gravadoras de renome fecharam suas portas e as que ainda sobrevivem, passaram a apostar nos grandes hits de massa financeiramente rentáveis, tipo Egüinha Pocotó e Baba Baby.
Há também quem tenha transformado a crise em oportunidade. O baixista da banda Expresso 4 Oito, Márcio Alencar, cujo terceiro compact disc, o Low Bat, já está saindo do forno, aproveitou o espaço no quintal de sua residência e construiu um estúdio. O espaço tem excelentes equipamentos modernos, sem deixar nada a dever aos mais experientes. "Quando a banda surgiu em 1998, juntamos a grana dos shows que fazíamos nos bares da noite e depositávamos numa poupança. Investi umas reservas em aparelhagem e o primeiro CD, que também leva nosso nome, foi todo gravado aqui no meu estúdio. A produção contou com Carlinhos Borges, da Onomatopéia. Conseguimos vender 3,5 mil cópias, praticamente uma vitória", relembra.
A banda participou até do último Rock in Rio e ganhou matéria no jornal O Globo, com direito a elogios. E apesar de tudo, é com muita tristeza que o músico anuncia que devido às dificuldades, eles decidiram encerrar suas atividades. "Recife tem uma produção artística muito boa, mas é preciso que as pessoas tratem a musica como um produto. Em geral, quando se fala em cultura pernambucana, as pessoas associam logo à cultura-raiz, que é o coco, o maracatu e a rabeca. E quem foge dessa linha tem dificuldades para vender seu peixe", lamenta. Já o segundo e terceiro CDs foram feitos com Lei de Incentivo à Cultura do Recife e do Estado.
Para distribuir o produto, o Expresso4oito faz vendas por consignação apenas nas principais lojas da cidade, pois não há condições de ir para outros estados, quando o ideal seria ter uma pessoa que faça esse serviço. "Uma banda não consegue fazer tudo, era preciso um empresário. É isso que não temos. Fomos para São Paulo, distribuímos uns 200 discos, à procura de um e outro, mas não conseguimos. Houve muitas falhas estratégicas, inclusive faltou assessoria de imprensa", reconhece. E se a banda não trouxe bons frutos, o mesmo não se pode dizer do seu empreendimento o Estúdio Oca4oito. "Fiz um investimento alto e estou apostando nele e muitos colegas conhecem meu trabalho e me prestigiam. Já passaram por aqui a banda Vargas, Mônica Feijó e Porão GB", revela.
Muito satisfeito com o resultado visual de suas capas, Alencar diz que elas foram criadas pelo sócio-diretor da Ágora Comunicação, Hime Navarro, as quais são muito elogiadas. Hime concorda com o baixista e diz que realmente não existe um mercado fonográfico forte em Pernambuco, principalmente se tratando da área gráfica. "A grande maioria dos artistas fazem suas capas pelas próprias gravadoras ou com designers amigos. Entretanto as majors, como são chamadas as grandes gravadoras, não contratam designers nordestinos. Então, quando pinta um encarte pra fazer, ou é por amizade ou é porque a banda ou músico peitou a gravadora e preferiu fazer com um artista local", argumenta.
O design já criou para todos os gostos. Desde Cláudia Soul e Base, Expresso 4 Oito a Quinteto Violado. "A maioria dos artistas começou na base da camaradagem. Hoje já têm projetos aprovados pelas leis de incentivo. A base de valores pelo serviço é na faixa de R$ 1.000,00 a R$ 1.500,00, podendo chegar a R$ 4 mil. Vale ressaltar que embutimos nesse valor peças de campanha", ressalta.
A jornalista Rosa Caldas, assessora de Comunicação do grupo Comadre Florzinha, diz que a promoção do grupo é feita em shows e festas, a exemplo do quinto aniversário, realizado no Bar La Prensa, espaço que vem favorecendo a difusão de várias expressões locais. "Muitas vezes os 'malabarismos dos produtores' são a salvação e a resposta para uma boa publicidade. Mas o apoio de uma assessoria de imprensa é imprescindível e essencial", reforça. A vocalista do grupo, Isaar de França concorda com ela. "Além de uma prática segura de divulgação do trabalho, quem gosta do show sempre compra o disco. E outro fator importante é que recebemos na hora pelo produto, o que não acontece com as gravadoras", conclui.
LOBÃO E O UNIVERSO PARALELO

Alternativas para vencer obstáculos existem muitas. Há quem apele para a prática do velho e ilegal jabá, aquele dinheirinho por fora que algumas emissoras de rádio aceita para tocar músicas várias vezes ao dia. Mas quem rebate ferrenhamente essa prática é o músico Lobão. Ele juntou-se a outros artistas e lutou pela normatização do setor. E o seu esforço não foi em vão. Em 19 de dezembro passado, foi decretada a regulamentação do artigo 113 da Lei nº 9.610, que entra em vigor neste mês. Através desta lei, será adotado o ISRC, uma identidade eletrônica que estará em todos os CDs, DVDs e videoclipes. Isso possibilitará à gravadora monitorar a execução das obras. Cansado das majors, Lobão criou a produtora Universo Paralelo, que passou a vender seus CDs em bancas de revistas. O cantor anuncia para breve mais uma novidade: a revista Outra Coisa. Nela virá encartado mensalmente um CD de artistas independentes. O primeiro número trará Enxugando Gelo, primeiro solo de B. Negão, do Planet Hemp.

ProNews - Como você vê o mercado fonográfico hoje no Brasil e no mundo?
Lobão - Em plena transformação. Nós estamos literalmente vivendo o fim de uma era e o começo de outra.

ProNews - Como foi o processo do seu rompimento com as grandes gravadoras? Isso acarretou algum problema na divulgação ou gravação de seus CDs?
Lobão - Desde o inicio da minha carreira, tive litígio com as gravadoras, e sempre de uma forma ou de outra refletiu e muito nos resultados de promoção e divulgação do meu trabalho em todas as épocas.

ProNews - Qual a solução para acabar com a pirataria desenfreada? Muitas pessoas deixaram de comprar CDs originais por ser muito caro. E se os preços baixassem, o que isso resultaria para o mercado?
Lobão - Eu sempre disse que a melhor coisa para se combater a pirataria era baixar o preço, agregar valores, numerar o disco e é isso que tenho feito isoladamente e tenho apresentado um grande êxito com essa empreitada.

ProNews - Atualmente, como você faz para gravar seus discos? Fale sobre o novo processo de fazê-los ao vivo.
Lobão - O processo é o mesmo que eu tinha quando estava nas grandes gravadoras. Não há diferença nenhuma. Só que os estúdios atualmente não estão dentro das gravadoras e você pode organizar um orçamento muito mais eficaz e, conseqüentemente muito menos dispendioso. Por exemplo, as gravadoras podem estar no mesmo estúdio que você, mas com certeza eles estarão gastando muito mais dinheiro com champagne, buffet e outros desperdícios mais. Eu entro em estúdio com a banda totalmente ensaiada e repertorio selecionado. Enfim, tudo para otimizar o tempo, pois a tabela de um estúdio é mais ou menos em torno de U$200,00 a hora. Essa é a grande diferença.

ProNews - Como é o processo de trabalhar com bancas de revistas? Desde que passou a comercializar desta forma em quanto ficou sua margem de lucros? E antes quanto era?
Lobão - Nós temos que salientar em primeiro lugar o seguinte: a distribuição em banca já nos custa de saída 45% do produto final. Portanto estamos lidando com uma taxa elevadíssima. Mesmo assim um produto como A Vida é Doce, que saiu a R$14,90, junto com investidores, gastos de produção e mais os 45% da banca, ainda me destinavam uma margem de lucro maior do que se fosse contratado de uma gravadora, lançando um disco a R$28,00 com toda a trajetória ortodoxa que elas nos fornecem.

ProNews - Fale sobre a campanha contra o jabá nas rádios e programas de TV.
Lobão - O jabá tem que ser considerado crime. Enquanto isso não acontecer viveremos uma ditadura de informação. E isso não é uma metáfora é uma realidade cruel e bem concreta.

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