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pe360graus
   Maio de 2003 | nº 44 | Capa: Ágora
 
 
   
     
O fim da farra do papel
Luciana Torreão

Mais de um ano depois de sua regulamentação, o fantasma do papel imune ainda assombra o mercado gráfico. Desde que a Receita Federal abriu o cerco à fiscalização do papel, também conhecido como linha d'água (LD) ou imprensa, os seguidores da máxima "tirar vantagem em tudo" tentam a todo custo burlar a nova norma. A intenção é sempre criar uma fórmula mágica para continuar lucrando ilegalmente. A normatização aconteceu na tentativa de acabar com a chamada "farra do papel".

Imune de impostos, ou seja, livre da incidência tributária, o LD foi criado no intuito de incentivar a educação e a cultura por meio de impressão de livros, jornais, revistas e periódicos no período da Ditadura Militar no Brasil. Mas ainda hoje, há quem sonegue os impostos e utilize a mercadoria para fins comerciais. De acordo com o sócio-diretor da Opportuno Assessoria Jurídica, Marcos Lins, o LD é isento do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), com um percentual de 12%. O Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), que varia por estado, fica em torno de 15% a 17%. "No final, a isenção fica em torno de 30% sobre o valor bruto do material", contabiliza.

O problema pesa sobre a concorrência desleal, já que as empresas são pressionadas a reduzir preços, enfrentando orçamentos barateados irregularmente pelo uso do papel imune. Para evitar atropelos, mesmo antes da regulamentação, desde 1994, a Associação Brasileira da Indústria Gráfica (Abigraf) juntamente com associações e sindicatos representativos de fabricantes e distribuidores de papel, além da Receita Federal iniciou um trabalho de conscientização. Houve esclarecimento e fiscalização do uso, comercialização e distribuição do papel imune junto ao setor por meio de publicação de uma nota, que condena a sonegação e alerta sobre os riscos e penalidades.

Não tendo sanado o problema, em 1998, a entidade encartou vinte mil exemplares do comunicado em edições do Anuário Brasileiro da Indústria Gráfica junto aos clientes de produtos e serviços gráficos, enfatizando aspectos como a co-responsabilidade e a chamada solidariedade tributária, que de certa forma os iguala como réus e sonegadores a importadores, fabricantes, distribuidores ou gráficas flagradas em delito. A respeito da criação do papel imune, o vice-presidente da Associação Brasileira da Indústria Gráfica de Pernambuco (Abigraf-PE), Flávio Mello, diz que o produto é conhecido como linha d'água porque inicialmente quando foi instituída a lei, há 30 anos, os fabricantes imprimiam sua marca nele para diferenciá-lo do papel comercial. Entretanto, tempos depois ela foi abolida por razões tecnológicas.

"Recentemente, com a obrigatoriedade de registro especial junto à Secretaria da Receita Federal para fabricantes, usuários (empresas jornalísticas e editoras), importadores, distribuidores e gráficas que fazem uso do papel imune, a Abigraf nacional vem colaborando para a divulgação de prazos e esclarecendo dúvidas do mercado sobre este procedimento", informa Mello, que é também vice-presidente da Abigraf nacional e presidente do Sindicato das Indústrias Gráficas de Pernambuco (Sindusgraf-PE).

De acordo com a Instrução Normativa 71, as empresas usuárias desse papel são obrigadas a se inscreverem na Receita Federal para adquirirem registro especial, chamado de Declaração Especial de Informações Relativas ao Controle sobre o Papel Imune (DIF - Papel Imune), que equivale ao CPF ou Registro de Identidade da empresa. "O documento justifica a utilização do produto e não havendo seu registro as empresas correm o risco de perder o direito de adquirir o papel, pois trimestral-mente o mercado gráfico terá que prestar contas à Receita". alerta Mello, que é proprietário da Gráfica Nordeste. A Associação Brasileira de Celulose e Papel (Bracelpa), com apoio da Abigraf, lançou no início do ano passado, campanha institucional, veiculando anúncios nas principais revistas de propaganda e marketing do país, bem como nas publicações do setor gráfico, objetivando conscientizar a cadeia produtiva do papel imune quanto à sua procedência e o seu uso correto.

Segundo o sócio-gerente da ABC Distribuidora de Papéis e Produtos Gráficos, Luciano Gomes, a regulamentação fortaleceu o segmento e o tornou mais competitivo. "Antes da normatização, a disparidade dos preços entre uma gráfica e outra chegava a ser de 20%, e tal diferença foi ajustada", observa. Muitos empresários acreditaram que faturariam alto em 2002, contudo, os resultados foram decepcionantes. "Tínhamos uma expectativa que houvesse aquecimento no setor, por ocasião da copa do mundo e das eleições gerais, de 10% a 12%, mas nenhum dos acontecimentos acompanhou às expectativas", completa Gomes. Já o sócio-diretor da Gráfica Flamar, Flávio Ribeiro, acha que houve retração de mercado, mas ainda assim os resultados foram positivos. "A normatização interferiu bastante no faturamento, pois tivemos queda de aproximadamente 30% na produção, mas devido à copa e às eleições conseguimos dar uma guinada e recuperar o prejuízo", conclui.


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