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pe360graus
   Maio de 2003 | nº 44 | Capa: Ágora
 
 
   
     
Viajar. Eis o verbo que gera a indústria do turismo
Rose Maria

Poucos lugares no mundo têm as belezas naturais do Brasil. Isso está na cara. Pelo menos nove entre dez textos sobre turismo exploram esse chavão. Fala-se exaustivamente de praias, sol, mulheres bonitas e frutas da terra. Talvez não exista nada mais lugar-comum. Mas é justamente com essa linguagem que se trabalha há décadas, para vender a melhor imagem de um produto que se transformou numa verdadeira indústria. Ela é capaz de movimentar US$ 500 bilhões em divisas em todo o mundo. No Brasil, representa 3,1% do Produto Interno Bruto (PIB) e arrecada, anualmente, algo em torno de R$ 4,2 bilhões de reais em impostos. Chega a gerar quase um milhão de empregos, diretos e indiretos. Somente a Associação Brasileira de Agências de Viagem (Abav) congrega cerca de 2,6 mil associados em todo o país.
Os números enchem os olhos de muita gente que encontrou nesse filão sua fonte de renda. O trade turístico brasileiro não dá para quem quer. A disputa ultrapassa os limites dos paraísos naturais e chega também aos meios executivos mais ambiciosos. E não poderia ser diferente com as agências de publicidade, as quais estão sempre em busca de contas milionárias, sobretudo quando esses clientes mexem com o sonho de consumo de todo trabalhador: viajar e viajar. Conhecer lugares exóticos, gente bonita e deixar-se fotografar em qualquer lugar que fuja de sua rotina.
Para se ter idéia do crescimento registrado no setor, o turismo ganhou status de ministério. O nome escolhido para a nova pasta do Governo de Lula é do empresário e ex-vice-governador de Minas Gerais, Mares Guia. Em seu discurso de posse, ele foi bem claro: "Ao Ministério caberá a formulação da política de desenvolvimento do turismo, a definição de diretrizes e implantação de programas regionais de apoio a municípios. A Embratur ficou com a responsabilidade de divulgar o país no exterior, incentivar o turismo doméstico e facilitar negócios com investidores internacionais e nacionais".
Discurso à parte, o que interessa mesmo para o mercado publicitário são os incentivos a políticas públicas, que levem o povo a consumir os pacotes de viagens dentro e fora do país. Com uma possível reviravolta no trade, surge a necessidade de repensar as estratégias de comunicação. O tema está em debate na mídia, com críticas ao sistema de divulgação já considerado obsoleto. Um dos executivos da publicidade em Pernambuco, Giuliano Bianchi, diretor da agência Italo Bianchi, de Recife, tem seus argumentos a respeito. "Atualmente, a publicidade ainda é utilizada timidamente na divulgação dos produtos turísticos", observa. "Em boa parte da comunicação não se vê um conceito forte, pertinente e com identidade própria", arremata.

NORDESTE CANSADO - A regionalização do turismo também é outra polêmica do setor. E quando se trata do Nordeste, o problema torna-se agravante. A linguagem usual estaria não só prejudicando a imagem da região, como nivelando as agências, que precisam ter uma certa dose cinematográfica de ousadia para exibir um trabalho diferenciado. Para Giuliano Bianchi o momento é esse para se discutir mudanças. "No caso da divulgação de destinos do Nordeste, praia deserta com um coqueiro retocado no photoshop é campeão em aparições nos anúncios e cartazes. O prato de lagosta e a mulher tomando água de coco devem chegar em segundo lugar, empatados. E por aí vai", diz ironicamente.
Para a diretora-executiva da Gruponove (PE), Cecília Freitas, a discussão merece uma ressalva: "A comunicação é vital ao turismo, mas a gente não deve olhar apenas para os meios convencionais de massa. Hoje, têm-se veículos fundamentais, a exemplo da internet. O que precisamos cada vez mais é da profissionalização dos que trabalham com todos os instrumentos disponíveis na mídia", defende, arriscando ser bairrista, mas com equilíbrio: "A grande vocação do Nordeste é realmente o turismo. Somos vocacionados para ser um grande pólo, mas o que nos falta é a visão regional", diz Cecília Freitas, explicando que a regionalização seria uma política própria dos estados, que passariam a costurar linhas de divulgação complementares dos seus produtos turísticos.
A divisão de ações, para a publicitária, também se apresenta como entrave ao desenvolvimento. "Falta visão de Nordeste. Parece que todos se juntam apenas nas emergência da seca. Quando vem o lado positivo, aí começa essa divisão. Temos competência para competir com o Caribe", destaca Cecília Freitas, com a experiência de manter em sua Carteia de Clientes a conta da Empresa de Turismo de Pernambuco (Empetur).

EMBRATUR - O novo presidente da Embratur, Eduardo Sanovicz, também vem alinhando sua gestão com investimentos num marketing mais agressivo. A idéia é justamente fugir da trilogia: samba, belas mulheres e lindas praias. Suas metas estão no Plano Anual de Comunicação (PAC), em fase de elaboração para ser submetido à Secretaria de Comunicação Social e Estratégias de Governo e ao Ministério do Turismo. Todos esses trâmites passam pelo conhecimento da agência Pejota (BA), que assina a conta de publicidade da Embratur. "O doutor Eduardo Sanovicz já declarou que o enfoque será para a diversidade cultural do povo e das diversas regiões brasileiras", assegura o diretor da agência, Paulo Vianna.
O publicitário diz ser otimista em relação ao potencial turístico brasileiro. "A indústria do turismo tem tudo para ser um grande anunciante", reflete Vianna, acrescentando que esse papel não pode ser exclusivo do Estado. "O trade, formado por hotéis, restaurantes, companhias aéreas, agências de viagens, fornecedores de produtos e serviços, além de toda a cadeia produtiva, tem na comunicação com o mercado um fundamental instrumento de diferencial competitivo, de captação de clientela, de formação de imagem e marca", acredita.
Embora tenha em mãos um acervo de campanhas publicitárias, de sucesso para Embratur, Paulo Vianna lamenta que o trade ainda tenha uma posição tímida e medrosa em relação à publicidade, promoções, merchandising e imprensa. "Falta conscientização da importância da comunicação e do marketing. E que tudo isso é investimento e não custo", reforça, referindo-se a uma realidade que é apontada no mercado, por unanimidade, como principal ponto de distanciamento das agências em relação aos conglomerados turísticos. "Se não são os governos federal, estadual e municipal investindo no marketing turístico, ficamos a ver navios. Os demais empresários do setor trabalham apenas com calendários sazonais. Não têm nenhuma ousadia em investir e fazer negócios usando como instrumento a linguagem publicitária", reclama outro publicitário de Fortaleza (CE) e que prefere não se identificar.

PERNAMBUCO: UM SALTO ESTRATÉGICO NO RANKING TURÍSTICO

"As praias mais bonitas do Brasil. A noite mais badalada do Nordeste. As festas mais animadas do país. A cultura regional mais rica. A culinária mais saborosa. De janeiro a dezembro, de domingo a domingo, Pernambuco é mais". Para a Empresa de Turismo de Pernambuco (Empetur), o uso do superlativo pode até ser uma fórmula que dá certo, mas o que vende mesmo as atrações turísticas do estado são os números. Em 1998, Pernambuco ocupava o 5º lugar no ranking regional de fluxo de turistas. Ficava atrás da Bahia, Ceará e até de Sergipe. Hoje, o Estado saltou de 5º para o 2º lugar. Só perde para a Bahia, considerado o estado mais rico do Nordeste. No ano passado, 3,3 milhões de pessoas visitaram o estado. Detentora de campanhas institucionais arrojadas, a Empetur aparece como um dos clientes mais cobiçados do mercado publicitário do Estado. A ProNews visitou o presidente da Empetur, Antônio Uchoa e o seu diretor-comercial, Francisco Rosário. Ambos mostram nesta entrevista como conseguem driblar a crise e manter-se na mídia, a ponto de elevar o estado a uma posição privilegiada no cenário nacional.

ProNews - Como funciona a política publicitária da Empetur?
Francisco Rosário - Em relação à Empetur, nossa equipe trabalha junto aos mercados. Cada um com suas peculiaridades e suas necessidades. Nosso termômetro é regional, brasileiro e internacional. Cada um desses mercados possui suas necessidades e, a gente tenta produzir da melhor maneira possível, trazendo as informações para a MCI (Marketing, Estratégia e Comunicação Institucional) e a agência Gruponove. A partir daí, eles passam a transformar a mensagem da forma mais adequada. A diversidade é tão grande, de tudo que a gente tem de bom, que procuramos aquilo que há de mais interessante, para que possa ser salientado.

Antônio Uchoa - O trabalho é exatamente esse: direcionar, para maximizar os recursos. Esse é que o grande mote, o motivo de a gente estar sempre circulando no mercado, para a otimização dos recursos que já são muito parcos e difíceis.

ProNews - O que vocês acham de uma possível parceria com outros Estados do Nordeste para uma campanha institucional unificada?
Antônio Uchoa - Não só concordamos, como já praticamos através da CTI-Nordeste. Estamos juntos na maioria dos eventos internacionais. O único estado que não fica junto é a Bahia, porque como tem uma quantidade de recursos muito superior aos demais, e aí ele monta uma estrutuar própria e particular.

Francisco Rosário - Até geograficamente contribuímos com essa interação. Somente o Recife tem vôos regulares para a Europa. Porque geograficamente é a melhor maneira de distribuirmos esses turistas para o Nordeste. Mesmo nos vôos charters, nós temos trabalhado com circuitos integrados. Eles chegam pelo Rio Grande do Norte e saem por Pernambuco. Ou o contrário. Há suecos que chegam no Rio Grande do Norte, ficam dois dias na Paraíba, cinco dias em Pernambuco e dividem seu tempo assim em 14 dias no Brasil. Isso há cinco anos era impensável.

ProNews - Qual a campanha da Empetur que marcou e teve grande repercusão nacional?
Antônio Uchoa - Foi sem dúvida a campanha com a participação da atriz Regina Casé para divulgar o Carnaval em 1999, feita pela agência Ampla. O filme foi produzido e veiculado em todo o país. O mershandising também tem sido alvo de investimento da Secretaria do Turismo. Em abril do ano passado, Pernambuco entrou durante sete dias seguidos na novela das 7h, Desejo de Mulher, da Rede Globo. O Recife foi cenário de uma viagem romântica do casal interpretado por Regina Duarte e Erson Capri. Isso também é mídia nacional.

ProNews - As agências lamentam que o grande investidor, o melhor cliente do mercado turístico é o estado. Isso acontece por que as agências têm dificuldade de atrair o empresário do turismo?
Antônio Uchoa - Não. Eu acho que o problema é que as margens de lucros são pequenas e apertadas dentro da indústria do turismo. Os custos do meio de publicidade são elevados. Basta observar que todo marqueteiro no Brasil e no mundo é milionário. Os custos de marketing são altíssimos.

Fácil incentiva o turismo e ganha prêmio
O incentivo ao turismo, decididamente, não é mais uma missão solitária do Estado. Os espaços que o trade conquista nos jornais (com seus cadernos especiais de Turismo), revistas especializadas e outras mídias têm levado a uma conclusão: quanto maior for o número de parceiros, mais chances de retorno financeiro para quem atua direta e indiretamente no setor.
No Nordeste, um desses parceiros é o jornalista Fernando La Greca, editor-executivo da revista Fácil Magazine, que já está em seu 8º ano de edição. E com uma tiragem de fazer inveja: 120 mil, cujo volume é auditado pela empresa inglesa More Stephens. O desafio de trabalhar com um produto difícil e competitivo foi compensado recentemente. A Fácil recebeu no último dia 27 de março, o 1º Prêmio CTI-Nordeste de Turismo, na categoria de melhor reportagem em revista do Nordeste. A premiação aconteceu na abertura da XII Brasil National Tourism Mart BNTM (Bolsa de Turismo do Nordeste), no Centro de Convenções de Natal (RN).
Embora a revista tenha mudado seu perfil depois de quatro anos se reportando, exclusivamente, ao turismo, La Greca assegura que continua obtendo o mesmo sucesso. "Mudamos por uma contingência do mercado. Passamos a pulverizar as informações. Havia bolsões de coisas que precisavam ser mostradas. O Nordeste tem seu potencial econômico, cultural, social e precisávamos acabar com essa imagem de que o Nordeste é fome e sede", disse.
A decisão de ampliar a cobertura jornalística assemelha-se ao mesmo problema que enfrenta as agências de publicidade quando lamenta sobreviver num meio turístico onde não há investimento maciço no marketing. "Infelizmente, o mercado turístico nordestino tem a mentalidade de que publicidade é despesa e nunca investimento", arremata La Greca. Diante das oscilações do setor, o jornalista preferiu buscar alternativas em relação a novos anunciantes.
Com uma equipe heterogênia liderada pelo jornalista Jaques Cerqueira, a Fácil passou a ser referência, com distribuição gratuita em todo o Nordeste. O próximo desafio é publicar, agora em maio, uma edição especial sobre Aeroportos Brasileiros, em homenagem aos 30 anos da Infraero, que é presidida pelo pernambucano e senador Carlos Wilson. A edição comemorativa será de 170 mil exemplares. Desse total, 50 mil serão distribuídos nas salas de embarques dos principais aeroportos do país.

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