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pe360graus
   Junho de 2003 | nº 45 | Capa: Contaccta
   
   
     
  A publicidade nas mãos de um nordestino destemido

"Sempre pensei profissionalmente.
Deixei de ser homem/agência para ser uma agência de um homem só"

Rose Maria
 
O publicitário Joacy Medeiros é um tradicionalista. No sentido literal da palavra. Mas nada que lhe tire o espírito moderno. O que na realidade ele valoriza mesmo é a história de sua vida. Principalmente, o fato de olhar o passado, com orgulho de ter uma das maiores heranças de um homem: a família. "Nasci num lugar onde o nome já diz tudo: Bela Vivenda. Fica em Ipanguaçu (RN), onde passei ótimos anos de minha infância. Depois passei a viver entre Assu e Baldum, também no Rio Grande do Norte", conta o dono da agência Dumbo Comunicação, de Natal. O quinto dos sete filhos de seu João Leônidas e dona Raquelita, disse ter sido abençoado pelas influências e costumes de uma família típica nordestina e de classe média rural-urbana. "Meu pai sempre foi um homem muito trabalhador. Instalou-se no Vale do Assu ainda rapazinho. Foi um exemplo de trabalho, dignidade e inteligência. Isso marcou profunda e positivamente minha vida",
reforça. As mesmas lembranças diz ter da mãe, apontando o que mais lhe marcou: o fato de ela renunciar a vida na cidade, para morar no meio rural junto a trabalhadores da fazenda. "Ela fez uma parceria perfeita com o marido", reconhece o publicitário.
A formação intelectual de um nordestino depende, muitas vezes, da sorte. E sorte não faltou a Joacy Medeiros. Ele credita sua habilidade em vencer os desafios à boa convivência que teve com outros jovens da época, em que predominava a diversidade de classes sociais e um interesse comum: aprender a evoluir como pessoa e profissionalmente. "A minha preocupação com o social, qualidade de vida da comunidade, vem desse tempo, quando participava da Casa da Juventude, uma entidade engajada nos movimentos sociais no início dos anos 60, em Assu", recorda. A princípio, Joacy Medeiros pensava em ser arquiteto ou engenheiro. Esses planos foram traídos pelo destino. Ele terminou concluindo os cursos de Economia e Comunicação Social. Depois fez pós-graduação em Criação e Produção de Programas para Rádio e Televisão; Administração; Gestão de Sistema de Marketing; e mais recentemente em Marketing, pela Fundação Getúlio Vargas.
Paralelo à dedicação, quase integral à carreira, Joacy Medeiros tem outra paixão: o casamento com a advogada Maria Inês e aos filhos Cristiano Augusto, 25 anos e Clarissa Cristina, 23. Ambos publicitários. Coincidência? Talvez não. Vai vê que herdaram do avô e do pai a capacidade de transformarem a vida num case de sucesso.
 
ProNews - Como surgiu a publicidade em sua vida?

Joacy Medeiros
- Sempre fui um ouvinte atento de rádio. Em 1951, meu pai, pioneiramente, comprou um rádio Philips, de válvula, à energia e bateria. Nossa família se reunia em torno dele. Lembro-me de já ouvi-lo aos seis anos, quando morava em Bela Vivenda. Ainda em Assu, me aventurei em fazer um programa de auditório e em ser locutor freelancer no sábado, dia da feira, nas lojas Paulistas, gerenciada por um amigo. Isso aos 16 anos. Em 64 vim morar em Natal pra estudar e tentar ser locutor de rádio, mas não deu. Depois de trabalhar oito meses como bancário, em 1967, foi ser profissional de propaganda iniciando como agenciador/corretor. E nessa estrada estou há 36 anos, sempre com o espírito de quem está começando.

O que mais lhe motiva na carreira profissional?

Joacy Medeiros - O fascínio pela força da propaganda e o prazer de ver pessoas evoluindo pessoal e profissionalmente, buscando ter e desfrutar uma vida melhor, impulsionadas pelos desejos despertados pela propaganda. A sociedade e a economia como um todo evoluem assim. E o meu grande sonho é ver a propaganda ser instrumento, como ferramenta em seu formato normal, ensinando o povo brasileiro a ser e escrever. Acabando com o analfabetismo em nosso país e ampliando o seu conhecimento e cidadania. É um desafio que lanço aos grandes publicitários deste nosso país e aos meios de comunicação, principalmente televisivos. Já imaginou o bê-á-bá cantado em jingles e mostrado na tv? E em doses certas nas novelas? Seria uma loucura de resultados e aprendizados.

Conta um pouco de sua vida profissional em relação à Dumbo.

Joacy Medeiros - Desde o início sempre pensei profissionalmente. Em 1971 eu havia acabado de oficializar a existência da Premium Propaganda, deixando de ser "homem/agência", como se diz na gíria, para ser agência de um homem só. Recebi o convite para ser sócio da Dumbo, em substituição a Coriolano Medeiros que ia para a TV Liberal, em Belém. Não havia nenhum parentesco. Topei na hora. Passei quase dois anos sem receber nenhum centavo da Dumbo. Vivia apenas das comissões dos clientes que levara. E me dava por satisfeito. Mas me envolvia e atendia a todos. Não havia preocupação e ganância por dinheiro. Depois que me formei em economia é que pedi uma complementação. Nessa época, 1973, éramos apenas Sinedino e eu. Tinham saído Coriolano Medeiros, Afonso Laurentino e, por último, Carlos Silva. Todo esse tempo foi de muito trabalho, dedicação, sacrifício e renúncia. Os lucros, embora poucos, vieram quando possíveis, mas não havia uma prédeterminação absoluta. Uma agência de propaganda não chega aos 32 anos sem esse espírito de paixão pela propaganda e de desprendimento pelo lucro. Inúmeras outras atividades, infinitas até, são mais lucrativas e remuneram melhor seus sócios e profissionais. Basta comparar o crescimento dos clientes em relação ao de suas agências. E em mercados como o nosso, hem?

ProNews - Como você avalia hoje o mercado publicitário no Nordeste?

Joacy Medeiros - Um mercado que teria tudo pra crescer, mas que foi abruptamente travado pela globalização e pela subautonomia dos setores industriais, de varejo e de serviços. As contas estaduais migraram para regionais, estas para nacionais e daí, para globais. As verbas fluíram para outros centros de decisões, movidas por interesses conflitantes. O exemplo mais gritante disso é o das telecomunicações, cujas verbas se situavam entre as maiores em cada estado. Isso acontece também com as verbas públicas e privadas como um todo, principalmente no varejo. Acredito e tenho a esperança que é possível inverter esse processo. Exige liderança, determinação, desprendimento e respeito pelos interesses de cada mercado estadual, movido por uma aliança muito forte. E as tentativas não podem ser isoladas. É preciso que nos reconheçam como um segmento importante de negócios em nossa região.

ProNews - Em relação à sua vida, o que seria um bom motivo para comemorar?

Joacy Medeiros - Estar fazendo o que gosta, há 36 anos, num segmento cheio de altos e baixos, dificílimo, onde cada negócio a fechar precisa ser vendido como oportunidade de resultados e lucros para os clientes. Onde cada cliente é único e cada produto é único. Ter uma agência que já dura 32 anos, formando profissionais e se renovando sempre, mantendo a qualidade e merecendo o respeito de quantos a conhecem, além de ser considerada entre as melhores do Norte/Nordeste, com um elenco de premiações consideráveis. Ter um casal de filhos maravilhosos, publicitários por formação e profissão, e uma mulher que, após se aposentar, teve a coragem de enfrentar um vestibular de direito e se formar para começar uma vida nova.

ProNews - Quais são suas perspectivas para o futuro?

Joacy Medeiros - Continuar investindo em fazer boa propaganda e acompanhar o sucesso dos meus familiares na profissão que escolherem.

ProNews - Há alguma campanha que lhe tenha marcado profissionalmente?

Joacy Medeiros - Muitas. Mas destaco "Sua cidade é você" e "Nossa Cidade Natal" pelo que representou como despertar pela cidadania e amor a Natal, quando quase não se falava nisso. E "O jato mais veloz do mundo", que marcou o sucesso da telefonia se expandindo em todo o nosso estado. E mais recentemente o trabalho que temos desenvolvido para Botton Fashion e Supermercado Nordestão, pela sua consistência e resultados.

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