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  Nádia Rebouças
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pe360graus
   Julho de 2003 | nº 46 | Capa: Ponto D Comunicação
   
 
 
     

GARIMPEIROS DA MÍDIA


A missão de garimpar os melhores veículos e oportunidades para satisfazer os interesses de clientes pode até parecer uma atividade desinteressante, mas uma casta privilegiada descobriu nessa função meio burocrática o segredo do sucesso. Tudo isso a ponto de conquistar um espaço privilegiado no calendário de datas comemorativas. Estamos falando do mídia, aquele profissional de publicidade que de tanto entender dos meios de comunicação, tornou-se um especialista em comportamento. O Dia do Mídia (21 de junho) não passa despercebido no mercado publicitário. Também pudera, sem ele não haveria o feedback que movimenta a trilogia cliente + conta + prêmios.
A ProNews faz homenagem ao mídia, mas não pretende recorrer a uma abordagem enfadonha e cheia de clichês que nada acrescentam ao debate sobre a realidade dos bastidores da profissão. Para isso, foi buscar a opinião de alguns dos mais renomados mídias do Nordeste. A proposta é questionar e incentivar a reflexão sobre a carreira. Na outra ponta, está também a repercussão dos veículos. Gente que observa, acompanha e sabe reconhecer de longe quem é ou não um bom mídia. O tipo que coloca sua agência e clientes acima dos próprios interesses.
A grande questão neste momento de turbulência econômica e social - onde a guerra da informação mata a sangue-frio os alienados - o que o mídia precisa para ser um bom profissional? Somente o talento ajuda? Ou quem sabe ser descolado? As opiniões divergem, mas num ponto todos concordam: conhecimento é fundamental. Saber onde pisa e com quem fala. Ser um estrategista, sem exagerar na malícia. Até porque, o bom relacionamento com o mercado é uma espécie de cartão de visita que dispensa apresentação.
DEDICAÇÃO - "Além de uma boa formação, ele precisa ser estratégico, eficiente, sempre procurando mais e mais conhecimentos. Principalmente sobre os meios existentes e os novos, além de agir com muita isenção e dignidade", reforça com toda a experiência possível o diretor de mídia da Ampla Comunicação (PE), Nilson Samico, considerado uma referência de sucesso profissional em Pernambuco. Sobretudo, por ser um dos pioneiros na formatação do primeiro Grupo de Mídia do Estado. Para Samico, a valorização do mídia passa pela necessidade dele mesmo em atingir esse objetivo. "Em todo ramo de negócio existe cegueira e também muita conveniência e acomodamento de ambos os lados", reflete.

Para o mídia da Arcos Comunicação (PE), Ronaldo Uchôa, só há uma receita para veteranos e novas gerações de publicitários: "Dedicação plena e coragem para enfrentar desafios". Para ele, o cargo ainda é tido dentro das agências como uma função sem grande destaque. Consequência da falta de uma política pedagógica dentro das próprias universidades. "No curso de Publicidade da Universidade Federal de Pernambuco a cadeira de Mídia é dada uma única vez em todo período. O foco maior está para a área de Criação", aponta, referindo-se, nas entrelinhas, o que todos já sabem: como a Criação é quem mais sobe
ao pódio para ganhar prêmios, acaba atraindo todos os interesses.
"Acho que o mídia tem que superar o estigma de achar que sua função é apenas dominar pesquisas, planejar, executar e fazer checking do que foi veiculado", analisa o coordenador de mídia da Leiaute Propaganda (BA), Cláudio Freitas. Assim como o colega Samico, o publicitário baiano diz ser contra a passividade e a acomodação. "O bom profissional tem de ter visão extra-departamental e dominar outros conhecimentos, principalmente de marketing e mercado. Acho que o mal profissional ou aquele que é acomodado, é desvalorizado independentemente do setor em que trabalhe", diz Cláudio Freitas.

CONCORRÊNCIA - A relação com os veículos e no mercado também se apresenta como um dos maiores desafios do mídia. A convivência dentro ou fora da agência tem levado muitos profissionais publicitários à reflexão sobre a

importância da ética. Sobretudo quando se trata do relacionamento com antigos e novos companheiros de carreira. Fugir da competitividade parece ser impossível. O jeito é adaptar-se. O mídia da agência baiana Pejota, Fábio Lopes ainda arrisca mostrar que nos bastidores há uma certa resistência. "Isso acontece por um simples detalhe: a humildade. Essa virtude tem faltado nos profissionais de mídia da nova geração (da qual faço parte). Ninguém pode ser muito bom sem ter colhido a experiência dos pioneiros", ressalta Lopes.
"Quem fica com competitividade ou discriminação por ser mais velho ou mais novo, certamente deve estar sentindo medo de perder o cargo", alfineta Cláudio Freitas. Já Ronaldo Uchôa prefere contemporizar: "Como sempre, em qualquer lugar existem divergências com os departamentos, mas é coisa de trabalho. Nada pessoal. Tem Criação que esquece de colocar os nomes do pessoal de mídia nas fichas das campanhas. O atendimento sempre pedindo mais prazo e descontos, enfim.. Eu sempre levo tudo numa boa", admite.

DO OUTRO LADO DO BALCÃO

O mídia parece ser mesmo reflexo da sociedade dentro da agência. A necessidade de acompanhar as mudanças do consumidor - cuja maior característica está na instabilidade comportamental pelo excesso de novidades - tem levado esse profissional a certos questionamentos. Será que estou acompanhando a evolução do meu tempo? Engana-se quem pensa que é apenas uma reflexão solitária de dentro para fora. O contrário também acontece e com todo grau de cobrança possível. E aqui cabe apontar que os principais críticos do mídia nem sempre são os chefes executivos; mas aqueles que estão na ponta dos negócios: veículos, clientes e observadores de plantão. Desses, ninguém foge.
O perfil ideal do mídia para quem precisa de seus serviços está traçado em cima de pelo menos três requisitos básicos: ética, talento e conhecimento. "Na minha concepção, as características principais necessárias ao bom mídia é estar preparado intelectualmente para exercer essa função", destaca o presidente da empresa A.Linhares Outdoor (BA), José Linhares. "Ele precisa também possuir bom senso para negociar e distribuir a verba do cliente nos veículos mais apropriados, porque nem sempre a mídia mais econômica irá satisfazer as necessidades do cliente", completa, acrescentando que o meio outdoor em Salvador, sempre valorizou e reconheceu o trabalho desenvolvido pelos mídias. Segundo José Linhares, logo após a fundação da Central de Outdoor baiano em 1977, tornou-sese frequentes os eventos em homenagem à categoria. "Inicialmente criamos a Eleição do Mídia, depois transformamos em Festa do Mídia e atualmente o já tradicional Almoço Forró do Mídia", lembra.
Ousadia, mas com responsabilidade. É assim que defende outro observador contumaz do mercado publicitário no Nordeste, o presidente da ADVB (PE), Leopoldo Albuquerque. "O trabalho do mídia é crucial para o retorno do investimento do cliente, através do sucesso das campanhas. Se ele falhar nessa missão, o resultado será, no mínimo, de prejuízo financeiro para seu cliente", diz. Para Leopoldo, tornou-se previsível encontrar no mercado apenas o mídia convencional, sem muito conhecimento ou bagagem para militar na mídia alternativa. "Ele conhece bem a convencional, que devido às novas exigências de mercado, é na maioria das vezes, insuficientes para obter resultados esperados pelos anunciantes. É bem verdade que as maiores agências direcionam sua atuação nesse nicho
mais rentável, não deixando muita margem para o seu profissional de mídia inovar", observa sob um ponto-de-vista crítico construtivo.
O gerente de Marketing da Rede Globo Nordeste, Cláudio Paim, confessar ser otimista em relação à qualidade do trabalho realizado pelo mídia na regiáo. Para ele é surpreende o nível de formação da nova geração de mídia que encontrou em Pernambuco, onde fica a sede da emissora. "Mas isso não é somente um privilégio daqui. A gente mantém contatos com todas as praças do Nordeste, e sente o quanto é surpreendente a quantidade de jovens qualificados nessa área", constata, fazendo questão de reconhecer a constribuição dos mais antigos mídias que ainda atuam no mercado.

O DIA-DIA DO MIDIA

Cecilia de Sá Pereira

Nada mais prático para um dia de trabalho do que um horário certo para cumprir cada obrigação, uma programação definida, organizada. Em qualquer atividade, as pessoas poderiam, de fato, se programar. Chegar ao seu local de trabalho e, simplesmente, cumprir toda a agenda - passo a passo - como atletas cumprem uma tabela de jogos. Em qualquer atividade, certo? Errado.
Ao contrário das profissões exercidas por qualquer "mortal", numa agência de publicidade que se preza a correria e a inconstância do dia-a-dia são pré-requisitos para o bom andamento de suas atividades. Principalmente porque o "dia", muitas vezes, torna-se "noite". Para alguns setores, a agenda muitas vezes não passa de um caderninho que os adolescentes adquirem no início do ano letivo, e que muitas vezes, nem chega ao final porque é esquecido. O mídia, por exemplo, se enquadra na segunda categoria
A primeira coisa que Sandra Torreão, mídia da Mart Pet (PE) faz quando chega à agência é abrir sua agenda. Ela mesma anota tudo o que tem para fazer desde o dia anterior. "Preciso saber se tem alguma reserva para fazer, alguma autorização para passar para o veículo e entrar em contato com ele", explica Sandra.
Mesmo assim, não há um cronograma certo. Não há um horário. Ela vai fazendo sua agenda de acordo com o andamento do seu dia. Este, entretanto, não tem hora para começar, mas também não tem hora para terminar. "Tanto faz chegar às 7h e sair às 22h, como chegar às 9h e sair às 19h. Depende muito do ritmo da agência, do trabalho. Não tem como prever se o dia vai ser calmo ou se vai ser uma loucura", completa. As únicas coisas que ela tem como certas são as reuniões de pauta na agência ou com os veículos.
A semana começa com a reunião de pauta da segunda-feira. Ela começa por volta das 9h, onde se conversa tudo: desde o que está na Criação, o que a Produção está precisando ou já está produzindo e o que a mídia tem que fazer em termos de reserva, planejamento. O "resto" do dia corre como consequência dessa reunião. "É como eu disse: não temos como prever como vai ser o dia do mídia", reforça Sandra.
Depois de observar a necessidade do cliente é que ela programa sua agenda. "Se o cliente está querendo fazer uma campanha grande ou sair no jornal, rádio, etc. tenho que fazer os contatos para apresentar as propostas. O leiaute tem que estar criado, o planejamento de mídia e os orçamentos de produção prontos", acentua Sandra. Além de tudo isso, o mídia ainda faz a negociação do veículo com os clientes. "Às vezes um veículo tem uma proposta e o cliente não pode gastar o valor pedido, eu negocio os valores. Da mesma forma, quando um cliente quer estar em determinado veículo, que nem sempre é o mais adequado porque vai gastar muito e não terá muito retorno, a gente pondera o melhor veículo para ele", explica Sandra, acrescentando que o Mídia tem todo aparato técnico e teórico para dizer o que é melhor para cada cliente, sem esquecer dos veículos. "Tudo para dar um bom retorno ao cliente", diz. "É fazer o cliente gastar corretamente".
É assim que a agenda de Sandra vai sendo feita. Sempre nessa condicional. E ainda é de manhã… Felizmente inventaram o delivery - porque na "hora do almoço" desta mídia, a maioria dos restaurantes já estaria fechada. Sandra muitas vezes pede lanche ou almoça com representantes de veículos. Isso porque, o mídia tem que estar sempre em eventos. "O trabalho não se limita ao computador, ao espaço agência. O mídia faz também um pouco de RP. Tem que estar bem com todo mundo, para trazer bons resultados para a agência" destaca.

MÍDIA NÃO É SÓ FESTAS, NEM BATALHA NAVAL

Neste mês comemora-se o "Dia do Mídia", para ser mais exato no dia 21 de junho. Gostaríamos de lembrar que ser mídia vai muito além de festas, convites para almoços, etc. Como diz o Kleber, isto apenas "faz parte". Nossas responsabilidades aumentam, pois os meios a cada momento se multiplicam, exigindo maior grau de conhecimentos, técnicas, estratégias, porque trabalhamos com dinheiro dos outros, e constantemente nossa competência, dignidade, é testada.
Estamos entrando em uma nova fase com a fundação da nova edição do Grupo de Mídia de
Pernambuco. Quando nos referimos em nova edição, é que já houve duas tentativas, sendo a primeira em 1997 e a segunda entre 1985/1986, ambas merecem nosso respeito, pois de alguma maneira deixaram contribuições para nosso mercado, basta ver quando se abre inscrições para estagiários em agências a quantidade de alunos para a área, que antes não existiam. Ainda há muito o que fazer, temos a certeza que o Grupo de Mídia de Pernambuco contando com apoio de todos aqueles que se respeitam deixará inúmeras contribuições para o desenvolvimento maior da mídia em nosso estado.
Mídia não é só festas, nem batalha naval, ser mídia é ter embasamento, conteúdo, honestidade, transparência, ética e dignidade.

Nilson Samico,
diretor de mídia da Ampla (PE)

 

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