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pe360graus
   Julho de 2003 | nº 46 | Capa: Ponto D Comunicação
 
 
   
     

Nordeste ganha linha direta com o Sudeste
Luciana Torreão

Um hexágono empresarial. Assim poderíamos denominar o novo grupo nordestino que se aliou na intenção de abrir uma linha direta de comunicação entre as agências de publicidade do Sul-Sudeste e o Nordeste brasileiro. De olho nas diferenças regionais, que ditam as preferências dos consumidores, o projeto visa amenizar o hiato que ainda existe entre os grandes anunciantes e o Nordeste. O conceito foi gerado há quase um ano e o rebento acaba de nascer: Cone - Comunicação Nordeste, formado pelas empresas pernambucanas Mart Pet, Aporte, Gruponove e Ampla, pela baiana Link e a cearense Ágil.
Por meio da utilização da linguagem adequada, do respeito aos hábitos e costumes locais e do entendimento dos sonhos e desejos de cada consumidor, o Cone ajustará o produto nacional às características regionais, ajudando os anunciantes a criar ou expandir seus negócios nos estados do Nordeste. Segundo o vice-presidente da Ampla, Queiroz Filho, a idéia surgiu em
julho de 2002, num encontro entre um grupo de publicitários de Pernambuco para discutir outro assunto: os dissídios trabalhistas.
"Inicialmente éramos eu, Cecília Freitas (Gruponove), Alfrísio Melo (Italo Bianchi), Antônio Carlos Vieira (Arcos), Luís Geraldo (Aliança) e Jussara Pettini (Mart Pet). Cecília foi quem levantou a polêmica e disse que se nós somos concorrentes no mercado local, por que não pensarmos numa aliança estratégica para atuar no eixo RJ-SP, que tem vários clientes interessados no Nordeste? A proposta foi ganhando força porque a gente tinha argumentos fortes para provar que éramos agências que conhecem a linguagem e a cultura do Nordeste, o que só aumenta a eficiência das campanhas e do nosso diálogo com o consumidor. A verba das empresas pode ser melhor aproveitada dessa forma", conta Queiroz Filho. Foi então que o grupo passou a ser chamado de Cone.
Queiroz Filho relembra que nesse ponto começou uma discussão que acabou causando cisão no grupo, sobre onde deveriam focar suas prospecções. No anunciante ou na agência dele? "Decidimos que o alvo seria as agências e, nesse momento, três integrantes desistiram da idéia: Italo Bianchi, Arcos e Aliança. Foi então que convidamos a Aporte para fazer parte do projeto e, em seguida, percebemos que soaria pretensioso termos apenas agências pernambucanas se dizendo especialistas em todo o Nordeste. Convidamos então a Link, da Bahia, e a Ágil, do Ceará", conta.
O Cone em São Paulo é liderado por Rodrigo de Moura, que também é diretor-presidente da Central de Mídia Brasileira (CMBR), e que mantém há alguns anos contato direto com as grandes agências de São Paulo. "Além disso, temos uma executiva de contas, Regina Pokorny. Ambos estão fazendo um mapeamento dos grandes anunciantes de São Paulo que têm interesse na região Nordeste - estes serão nossos primeiros prospects. Como optamos por trabalhar com agências, é mais provável que a gente consiga jobs, e não contas fixas de clientes. E a tendência é ser na área promocional", revela Queiroz.
Para a sócia-diretora do Gruponove, Cecília Freitas, o grupo é um movimento inovador na propaganda brasileira em vários sentidos. "Primeiro porque agências concorrentes em determinado mercado/região se juntam para vender sua expertise em outros mercados, mantendo cada uma sua identidade e independência comercial. Segundo, pela proposta de trabalhar sob o critério de job e não de contas. Terceiro porque todos trabalham e todos ganham: uma espécie de cooperativa pós-moderna", argumenta.
Queiroz Filho diz que a idéia é alavancar os trabalhos e ratear os ganhos entre as seis agências participantes, não importando quem executou o trabalho. "Assim, ao fechar um negócio para o Cone, Rodrigo de Moura indica, de acordo com o perfil, qual das agências é mais habilitada a executá-lo", diz. Os próximos passos já estão sendo dados: a construção de um site (www.conenet.com.br) e a montagem de um portfólio. Ambos vão expor as criações e habilidades do conjunto de agências, numa demonstração clara de que a vaidade não tem vez - o importante é potencializar e otimizar o mercado.
Para a assessora de imprensa do Cone em São Paulo, Silvania Dal Bosco, o extenso calendário regional de festas, como Carnaval e São João, por exemplo, permite a criação de produtos direcionados a determinados públicos. "O Cone, de maneira pró-ativa, usará sua expertise para aproveitar o ambiente próspero do Nordeste e gerar novas oportunidades de negócios", argumenta.
Pesquisa realizada pela Latin Panel/Ibope, divulgada recentemente, mostra que o Cone está no caminho certo, e que o Nordeste e o Norte são as regiões mais peculiares do Brasil, onde os consumidores ainda usam o vendedor de porta em porta para se abastecer, por exemplo.
"Quando há vinte anos saí do Departamento de Marketing de uma empresa americana deixando Sampa e vindo para a Bahia eu não tinha a menor noção do que era o Nordeste. Já tinha passado uns três carnavais entre Salvador e Olinda, vindo a trabalho, pois a empresa tinha atuação no Nordeste, mas a minha visão era de uma paulistana que olhava a região com olhos de pesquisadora. Quem viver verá. Fala-se muito esse ditado aqui. E dito e feito.Viver aqui me fez conhecer uma outra realidade. Ainda tem gente que pensa que basta fazer um comercial mostrando praia que o nordestino adora. Errado! Muitas vezes precisamos falar alemão, e em outras falar a língua do povo", depõe a sócia-diretora da Mart Pet, Jussara Pettini Freire, afirmando que temos um universo multicultural de riqueza impressionante.
A fusão decreta o fim dos processos burocráticos, dos acordos operacionais entre as agências de publicidade, que por vezes engessam as partes interessadas, e prestará serviços às agências do Sul e Sudeste que atendem clientes com interesse em ingressar ou fortalecer sua participação no mercado nordestino por meio de jobs. Já Édison Martins diz que o mundo está mudando, a comunicação está mudando, nós estamos mudando. "Estamos indo para o Sul, mas sem caminhão de mudança. O Cone é uma atitude empresarial inovadora, de união, de ética, de soma de esforços pelo bem comum da comunicação. Os clientes precisam entender que o Brasil é um continente e que a comunicação, se não for traduzida, não apenas em termos, mas em comportamentos, não terá a mesma eficiência. Quem vem para o Nordeste sem o Cone pode fazer 'programa de índio'," brinca.
O diretor da Aporte, Ângelo Mello esclarece que quando sua agência decidiu participar, observou, em primeiro lugar, a oportunidade de se alinhar a uma tendência mundial que busca a ampliação de mercado através de alianças empresariais. Mas não foi só isso. "Estar no Cone é estar ao lado do melhor que há na propaganda da região Nordeste. E mais ainda: o formato inovador de se trabalhar jobs, ao invés de complexos acordos operacionais, traz liberdade de criação e bons desafios para a relação da agência com o trabalho a ser desenvolvido. Com o Cone, estamos oferecendo aos anunciantes exatamente aquilo que sua agência localizada no Sudeste não possui", comenta. E, como conhecimento das peculiaridades faz a diferença na condução da comunicação regional, o grupo desenvolverá novas alternativas que só enriquecerão de idéias o criativo mercado publicitário nordestino.
Entusiasta do novo serviço, o baiano Nizan Guanaes, um dos mais respeitados publicitários do país, define o relacionamento com o Cone como os namoros adolescentes. "Serão joint ventures por job. Como diz minha enteada, nós vamos 'ficar'," brinca Nizan, para quem a criação da central será um importante fator de geração de negócios. "Eu acho que é um canal de distribuição e compreensão extraordinário. É uma via dupla e, se a gente souber usar, ela vai nos levar para o futuro", afirma o publicitário no vídeo de lançamento do Cone.

 

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