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UMA IDÉIA E DOIS MACACOS
Italo Bianchi
Li, algum tempo atrás, em uma revista européia
de divulgação cientifica, o relato de uma
façanha levada a bom termo por um casal de macacos
(só não me lembro qual era a marca dos bichinhos)
em disputa com outros dois casais. Tratava-se de um teste
de criatividade.
Cenário: Uma jaula ampla, um cacho de bananas
pendente no centro da jaula, alguns tijolos amontoados
em um canto e um cabo de vassoura.
Os personagens: Três casais de macacos, mantidos
em jejum por algum tempo, introduzidos e retirados da
jaula, vez por vez.
A ação: O primeiro casal, por iniciativa
do macho, mas logo imitado pela fêmea, fragmentou
alguns tijolos e tentou, sem sucesso, arremessar os
pedaços em direção ao cacho, na
esperança de provocar a queda de algumas bananas.
O segundo casal ficou choramingando em baixo do cacho
até a fêmea descobrir o cabo de vassoura
e, com ele, trepar nas grandes laterais da jaula na
tentativa de conseguir golpear o cacho, mas não
deu. O terceiro casal ganhou a parada. Como? Inicialmente,
a fêmea subiu nos ombros do macho e quase alcançou
as bananas. Frustrados, mas não conformados,
os dois macacos começaram a andar em círculos,
grunhindo como se estivessem falando entre si. De repente,
os dois apanharam os tijolos e fizeram uma espécie
de plataforma. O macho subiu na plataforma, a fêmea
voltou a subir nos ombros do macho, e, finalmente, apanhou
as bananas, que os dois devoraram dando cambalhotas.
Moral da história? O terceiro casal foi mais
bem sucedido por ser mais criativo. Mas (frise-se este
mas) os outros dois não deixaram de lançar
mão de alguma criatividade para tentar resolver
o problema. Agora chegamos ao ponto. Deixemos os nossos
ancestrais em paz, comendo suas deliciosas bananas,
e vamos falar da gente. Estou cansado de ouvir desculpas
de pessoas que se esquivam de buscar soluções
vivenciais ou profissionais sob o pretexto de não
possuírem uma mente criativa. Não é
verdade. Todas, absolutamente todas as criaturas humanas
têm, e sempre tiveram, alguma predisposição
para criar, exercida em maior ou menor grau, dependendo
do tamanho do chamado talento (uma herança genética?)
combinado com referências culturais e com eventuais
contingências.
Desde o tempo das cavernas, quando o homem lascava pedaços
de sílex para transformá-los em armas
de caça ou ferramentas, até o advento
da informática, esse fantástico e demoníaco
processo de comunicação (demoníaco
no bom sentido, se é que à palavra demoníaco
tem algum bom sentido), o homem sempre criou e recriou,
recriou e desenvolveu, desenvolveu e aperfeiçoou
seus meios de sobrevivência e de conquista de
prazeres tangíveis. Isto, apesar de sua curta
e precária existência, insignificante dentro
da magnitude incalculável do cosmos.
Na escala infinitesimal da vida privada de cada um,
a gente cria ao longo de quase todos os dias e de quase
todas as horas. Cria quando compõe peças
do vestuário, cria quando subverte o significado
de palavras, movida por uma emoção, cria
quando modifica uma receita culinária por oportunismo
ou por capricho, cria quando corrige uma rotina de trabalho...
A gente cria infinitas pequenas ou maiores coisas para
satisfazer anseios íntimos ou para atingir os
sentidos dos nossos semelhantes.
E, finalmente, cria por ter abraçado, por vocação
e/ou circunstâncias, uma profissão que
faz das idéias desafios permanentes de expressão
e de angústias. E um meio de vida.
No mundinho dos meus relacionamentos (todos nós
orbitamos em algum mundinho), eu vivo procurando conscientizar
e estimular as pessoas retraídas, que se dizem
incapazes de criar, a assumir seu potencial latente.
Se o macaco pode, como é que o homem não
pode?
*Publicado no Jornal do Commercio em 10 de julho
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