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pe360graus
   Agosto de 2003 | nº 47 | Capa: Extra Comunicação
 
 
   
     
UMA IDÉIA E DOIS MACACOS
Italo Bianchi

Li, algum tempo atrás, em uma revista européia de divulgação cientifica, o relato de uma façanha levada a bom termo por um casal de macacos (só não me lembro qual era a marca dos bichinhos) em disputa com outros dois casais. Tratava-se de um teste de criatividade.

Cenário: Uma jaula ampla, um cacho de bananas pendente no centro da jaula, alguns tijolos amontoados em um canto e um cabo de vassoura.

Os personagens: Três casais de macacos, mantidos em jejum por algum tempo, introduzidos e retirados da jaula, vez por vez.

A ação: O primeiro casal, por iniciativa do macho, mas logo imitado pela fêmea, fragmentou alguns tijolos e tentou, sem sucesso, arremessar os pedaços em direção ao cacho, na esperança de provocar a queda de algumas bananas.

O segundo casal ficou choramingando em baixo do cacho até a fêmea descobrir o cabo de vassoura e, com ele, trepar nas grandes laterais da jaula na tentativa de conseguir golpear o cacho, mas não deu. O terceiro casal ganhou a parada. Como? Inicialmente, a fêmea subiu nos ombros do macho e quase alcançou as bananas. Frustrados, mas não conformados, os dois macacos começaram a andar em círculos, grunhindo como se estivessem falando entre si. De repente, os dois apanharam os tijolos e fizeram uma espécie de plataforma. O macho subiu na plataforma, a fêmea voltou a subir nos ombros do macho, e, finalmente, apanhou as bananas, que os dois devoraram dando cambalhotas.
Moral da história? O terceiro casal foi mais bem sucedido por ser mais criativo. Mas (frise-se este mas) os outros dois não deixaram de lançar mão de alguma criatividade para tentar resolver o problema. Agora chegamos ao ponto. Deixemos os nossos ancestrais em paz, comendo suas deliciosas bananas, e vamos falar da gente. Estou cansado de ouvir desculpas de pessoas que se esquivam de buscar soluções vivenciais ou profissionais sob o pretexto de não possuírem uma mente criativa. Não é verdade. Todas, absolutamente todas as criaturas humanas têm, e sempre tiveram, alguma predisposição para criar, exercida em maior ou menor grau, dependendo do tamanho do chamado talento (uma herança genética?) combinado com referências culturais e com eventuais contingências.
Desde o tempo das cavernas, quando o homem lascava pedaços de sílex para transformá-los em armas de caça ou ferramentas, até o advento da informática, esse fantástico e demoníaco processo de comunicação (demoníaco no bom sentido, se é que à palavra demoníaco tem algum bom sentido), o homem sempre criou e recriou, recriou e desenvolveu, desenvolveu e aperfeiçoou seus meios de sobrevivência e de conquista de prazeres tangíveis. Isto, apesar de sua curta e precária existência, insignificante dentro da magnitude incalculável do cosmos.
Na escala infinitesimal da vida privada de cada um, a gente cria ao longo de quase todos os dias e de quase todas as horas. Cria quando compõe peças do vestuário, cria quando subverte o significado de palavras, movida por uma emoção, cria quando modifica uma receita culinária por oportunismo ou por capricho, cria quando corrige uma rotina de trabalho...
A gente cria infinitas pequenas ou maiores coisas para satisfazer anseios íntimos ou para atingir os sentidos dos nossos semelhantes.
E, finalmente, cria por ter abraçado, por vocação e/ou circunstâncias, uma profissão que faz das idéias desafios permanentes de expressão e de angústias. E um meio de vida.
No mundinho dos meus relacionamentos (todos nós orbitamos em algum mundinho), eu vivo procurando conscientizar e estimular as pessoas retraídas, que se dizem incapazes de criar, a assumir seu potencial latente.
Se o macaco pode, como é que o homem não pode?

*Publicado no Jornal do Commercio em 10 de julho

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