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pe360graus
   Setembro de 2003 | nº 48 | Capa: Duck Comunicação
   
 
 
     
A GUERRA DO CENTÍMETRO POR COLUNA
Ivelise Gomes
 
Viagens, carros, casas, bicicletas, celulares… Não, não é o Jogo do Milhão, nem o Baú da Felicidade. É a disputa acirrada entre os jornais do Nordeste pela atenção dos anunciantes, que se converteu num grande sorteio de brindes onde "quase tudo" é possível. E o leitor é quem acaba vitorioso, pois, na briga da concorrência, só sai de mãos vazias quem é besta. E que o diga os profissionais de mídia que estão sempre de olho nos diários que estão em alta e baixa. Tais quais os corretores das bolsas de valores. Motivo? Traçar o melhor plano de mídia para seus clientes. "Temos que estar, constantemente, atentos às mudanças do mercado para atender às necessidades dos clientes, pois eles têm medo de associar seu nome e produto a um veículo com o perfil inadequado para seu público-alvo", revela o mídia da Ampla Comunicação (PE), Nílson Samico. Preocupação bastante relevante uma vez que o leque de opções é variado, entretanto, dificulta a seleção e a percepção do joio no meio de tanto trigo.
No banco de dados da Associação Nacional de Jornais (ANJ), há 125 sociedades jornalísticas oficiais cadastradas em todo o país, das quais apenas 24 se concentram no Nordeste. Em 2000, por exemplo, o meio assistiu a um crescimento significativo na circulação de veículos, em relação aos anos anteriores: 8,81%, uma média de 7.670 milhões de exemplares/dia. Entretanto, 2001 deu início a um período nebuloso que perturba os dirigentes dos grandes grupos de comunicação: a retração do mercado, que registrou queda de 2,7% na circulação. Já em 2002, os dados se referem a uma redução de 9,1%, equivalente a uma circulação de 6.972 milhões de exemplares/dia - superior em 63% ao de 1990: 4.276 milhões. Para o diretor-executivo da ANJ, Fernando Martins, o faturamento das empresas também acompanhou essa linha. "O setor editorial reflete a situação nacional, ou seja, um desaquecimento do mercado publicitário, em função de indefinições político-econômicas. Isso faz com que as empresas se retraiam nos investimentos publicitários e aguardem o que está por vir. No mercado de circulação, após oito anos de crescimento nacional, o volume de jornais vendidos diminuiu em 2002, basicamente em função da queda do poder aquisitivo da população", aponta o diretor-comercial da Folha de Pernambuco (PE), Paulo Pugliese.
Para competir neste mercado, os jornais lançam mão de várias estratégias para conquistar assinantes e agradar anunciantes. Seguindo essa tendência, O Norte (PB)* desenvolveu ações direcionadas à captação de novos assinantes com promoção casada de assinatura de revistas e sorteio de celulares. Fundado em 1908, O Norte ainda aposta em campanhas específicas para o caderno de classificados, um diferencial no estado em função do grande volume de anúncios de linha. Com isso, ele aumenta sua representação no mercado paraibano e mantém um trunfo para barganhar com agências e anunciantes os orçamentos para publicação de peças e campanhas.
CREDIBILIDADE - "Costumamos nos guiar pelo perfil de público dos veículos, sua tiragem e pelos dados do IVC (Instituto Verificador de Circulação). Mas, quando trabalhamos campanhas regionais e anunciamos na Paraíba, utilizamos a tiragem como referencial, pois, na maioria das vezes, os jornais da área não têm pesquisas aprofundadas sobre o perfil dos seus leitores", diz o executivo de Atendimento da Italo Bianchi (PE), Miguel Melo. O Correio da Paraíba** ocupa o primeiro lugar no estado com 74% da circulação total e o sexto no Nordeste. Destaca-se em função de sua qualidade editorial e credibilidade que favorecem a preferência dos clientes, tanto que destina 30% do seu corpo para anúncios, inclusive correndo na frente com um fluxo de 30 mil anúncios de linha.
Em contrapartida, outros como o A Tarde (BA)* apostam em estratégia diferenciada: reforçar a imagem do jornal por meio do conteúdo editorial. Para isso, criou uma série de dez cadernos especiais e suplementos periódicos (veiculados no dia 15 de cada mês), durante as comemorações de 90 anos da empresa. Além disso, o departamento de marketing da empresa investiu no fortalecimento da marca, no desenvolvimento de mix de canais de comunicação e no atendimento personalizado aos clientes (agências e anunciantes), através de visitas in loco. Correndo atrás do montante que não foi conquistado pelo concorrente está o Correio da Bahia**, segundo em audiência no estado. Com um fluxo de venda em bancas de 20%, o jornal atinge um público-alvo com 20-39 anos, concentrado nas classes A/B/C que buscam notícias locais, policiais, de cultura e política. Uma estratégia adotada foi a modernização de sua diagramação e o constante lançamento de produtos agregados, o que contribuiu para a sua diferenciação.
Já o jornal O Povo (CE)* atingiu a mídia ano passado com campanha institucional para fortalecimento de sua marca junto ao público, além da associação do seu nome a eventos culturais de grande repercussão no estado. Essa estratégia do diário da Rede Anhanguera de Comunicação (RAC) casou com ações promocionais de assinaturas, marketing de relacionamento no mercado publicitário e projetos sociais, mantendo a marca forte e a circulação regular: 33 mil (aos domingos) e 21 mil (dias úteis). "Sempre tentamos apresentar planejamentos que tornem acessível aos nossos clientes um leque interessante de periódicos, mas, como algumas praças - Bahia, Ceará, Sergipe e Piauí -, são caras, muitos optam por aqueles que apresentam orçamentos mais baixos e maiores vantagens", argumenta Edilza Lima, do Grupo Sima (PE), que atua como representante comercial há 10 anos. Entretanto, quem lidera o ranking é o Diário do Nordeste** com uma média de 35 mil exemplares, 29 mil assinantes e volume de 1,5 mil anunciantes mensais. Com sete mil jornais vendidos em banca, o Diário do Nordeste sai na frente com um fluxo de 5.300 anúncios classificados, que é um dos focos de interesse dos leitores, fora o primeiro caderno que integra informações políticas, policiais, locais e esportivas.
Tentamos fazer o melhor para agradar a todos os leitores, por isso, investimos forte no conteúdo editorial, assim como na qualidade gráfica, distribuição e promoções, que são nossos maiores diferenciais", afirma o diretor-comercial, Francisco Ribeiro.
Mas, talvez, nenhum mercado seja tão competitivo quanto o pernambucano. "Com três jornais oficiais, vivenciamos um momento de grandes e visíveis mudanças: a retração do Diario de Pernambuco, a estagnação do Jornal do Commercio e o avanço da Folha de Pernambuco", destaca Samico. Uma luta marcada por várias
frentes de batalha entre as quais estão: a necessidade de aumentar o target, manutenção da carta de anunciantes e assinantes e mudança do perfil para conquistar mais espaço no setor. Tudo para se manter em condições de barganhar com as agências os custos do centímetro por coluna apresentados nas propostas que, muitas vezes, chegam a ser altos, mas que, com os benefícios e descontos oferecidos, acabam se tornando um bom negócio para quem anuncia.
ESTRATÉGIAS - O Diario de Pernambuco, mais antigo periódico da América Latina** em circulação (com tiragens de 28 mil exemplares de segunda a sexta, 42 mil aos sábados e 62 mil aos domingos), continua a manter um leque significativo de clientes e assinantes em função da imagem que mantém no meio: perfil editorial e Clube Diário - uma grande sacada do veículo que possibilita a seus 34 mil assinantes desfrutar de determinadas vantagens como sorteios, vales promocionais e cortesias diversas. Já o seu principal concorrente, o JC** também investiu em sorteios semanais para
proporcionar aos seus 44 mil assinantes aos domingos, 43 mil aos sábados e 26 mil nos dias úteis (na faixa de 20-49 anos, das classes A,B e C). O caçula da tríade é a Folha de Pernambuco**, fundada em 1998, que apresenta circulação de 27 mil exemplares nos dias úteis e 23 mil aos domingos, dos quais 88% são destinados à venda avulsa e 12% para assinatura. Ao congregar um público leitor distribuído entre as classes A/B (25%), C (49%) e D/E (26%), a Folha destina 50% do seu espaço de 34 páginas diárias para ocupação de publicidade e já detém 24% do mercado, sendo seus principais segmentos: anunciantes de automóveis, motos, varejo e educação.
Fica evidente, dessa forma, que, na busca pela visibilidade do seu produto ou serviço, anunciantes e agências de publicidade correm contra o tempo para conseguir o melhor e mais adequado espaço nos jornais. Quanto maior a abrangência do veículo, melhor circulação das peças e campanhas. Apesar da competitividade com as mídias eletrônicas, as revistas e a internet, o meio detém a segunda posição nas pesquisas do mercado de comunicação com 20,9%, perdendo apenas para a TV que supera todas as mídias com 59,7% de abrangência, segundo dados do projeto Inter-Meios, publicados na Meio & Mensagem (edição n 1065). "Os critérios de seleção dos veículos podem variar de acordo com as necessidades de
comunicação, mas o custo absoluto compatível com a verba de mídia do cliente permite a freqüência necessária para fazer com que a campanha atinja sua meta", destaca Wanderley Moreira, diretor de mídia da ART & C (RN).
PESQUISAS: AMIGAS OU INIMIGAS?

No meio do tiroteio entre os jornais estão as agências, muitas vezes, no maior fogo cerrado com seus clientes tentando aprovar o plano de mídia traçado com tanto estudo e habilidade, quando esses preferem aquele no qual assinam, ou que é do amigo, ou que acham mais interessante (e só por achar!). "Geralmente, o cliente prefere anunciar no jornal em que lê e, por isso, às vezes, não adianta querer argumentar. E tem cliente que não aceita anunciar naquele que é mais adequado porque não gosta do perfil do veículo. Nesses casos, sempre tentamos convencê-los com um bom diálogo e com dados comparativos dos jornais", diz a mídia da Level Comunicação (PE), Melissa Fernandes. "Quando negociamos com os clientes, fora os custos
veiculação, apresentamos o máximo de informações sobre os veículos qualificação do jornal, tiragem e circulação. Tudo para que eles tenham as melhores opções", comenta a representante comercial da NS&A, Márcia Soares. Normalmente, esses índices servem de fatores para definição dos diários pelo mercado de comunicação brasileiro, entretanto, para estrangeiros (como o norte-americano), a adequação editorial é a forte tendência, uma vez que a segmentação do meio é muito maior, apresentando veículos dirigidos especificamente para determinados tipos de público: três mil veículos - segundo Fábio Lopes da Pejota Comunicação (BA).
Contudo, no Brasil, os periódicos são medidos pelo IVC (Instituto Verificador de Circulação), uma instituição sem fins lucrativos nascida em 1957 - que se tornou o grande termômetro do mercado. Ele fornece relatórios mensais sobre mídias impressas de caráter nacional, regional e estadual para aqueles que são afiliados à entidade. Entretanto, para integrar o IVC é necessário adaptar-se a uma série de exigências, sem as quais não é permitido o acesso a este universo seleto, como submissão à auditoria completa, verificação de dados industriais (aquisição, estoque e consumo de matéria-prima); produção (pedido, aplicação e boletins de tiragem); vendas (avulsas e assinaturas); distribuição e expedição.
"Checamos todos os dados recebidos como circulação e tiragem e até informações geográficas para ver se os registros dos jornais batem. Por isso, os dados dos veículos não podem fugir mais de 1% daqueles por nós calculados", diz Valdemar Lichtenfels, orientador do IVC. Para os afiliados, o relatório do IVC funciona como uma grande arma. Prato cheio para os departamentos comerciais que o utilizam como mais um grande diferencial, junto a tantas outras qualidades dos seus veículos. Assim é para a Gazeta de Alagoas (AL) e para Folha do Maranhão (MA), únicos jornais dos seus Estados a contarem com o carimbo da entidade. Fundada há 70 anos, a Gazeta de Alagoas** tem sido líder absoluto no mercado alagoano, há dez anos. Entretanto, conta com os relatórios do IVC para respaldar sua supremacia: 80% de marketing share, penetrando, no geral, nas classes A/B com seu conteúdo geral (especialmente, colunas políticas e sociais) e em todos os segmentos sociais através dos seus classificados (média de quatro páginas de terça a sábado, e 14 aos domingos). "Todos os diários enfrentam dificuldades devido ao surgimento de mídias alternativas, a atual conjuntura do país, ao grande número de analfabetos e aos problemas sociais. Mas, cabe lembrar que temos um grande potencial de crescimento à medida que a população analfabeta se alfabetiza", comenta o diretor de Marketing da Gazeta, Mariel Pita.
Para a supervisora de Marketing da Folha do Maranhão, Lene Rodrigues, o momento é de expansão do mercado devido à globalização que atiçou a necessidade de formação e informação. É o segundo da praça em venda avulsa e conta com 2.800 assinantes. Seus leitores estão concentrados nas classes A (20%), B (45%) e C (35%), na faixa dos 20 aos 65, entre homens e mulheres, dos quais 22% são estudantes universitários.

* Dados obtidos através de matéria
publicada pela Meio & Mensagem.
** Dados obtidos com os próprios veículos.

Obs: Foram solicitadas informações a todos os grandes jornais nordestinos

 

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