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pe360graus
   Ano V | 15 março - 15 abril de 2004 | nº 54 | Capa: Aporte
 
 
     
A BOA DO MARKETING POLÍTICO
Enquanto nos ajustamos à recente mudança no cenário nacional com a eleição do primeiro presidente petista no Brasil, lá vem ela novamente para esquentar as turbinas do marketing político: a eleição. Incômodo para uns e honra para outros, o exercício do voto engloba uma máquina poderosa que pode ajudar e facilitar os mais de 115 milhões de eleitores a conhecerem os candidatos e decidirem as respostas que irão dar nas urnas que ocuparão cerca de 5.575 municípios no Brasil. Nesse universo eleitoral, estima-se que 450 mil pessoas irão se candidatar aos cargos de prefeito e vereador, mobilizando, nos próximos meses, cerca de 25 mil profissionais de
várias áreas da comunicação que deverão se empregar em campanhas políticas, coordenadas por um leque variado de empresas especializadas no setor, como as nordestinas: Makplan, MCI, QualyMais, Studio 2 e Agência Um..

A Makplan, por exemplo, trabalha há 15 anos com planejamento e execução de estratégias de marketing político, além do trabalho de desenvolvimento de ações para clientes privados. Por isso, para se manter sempre hábil no que considera o ponto forte, a empresa adota procedimentos específicos e diferenciados para o trabalho político. “O processo de trabalho em marketing político é permanente. A análise diária dos acontecimentos, os estudos da opinião popular, tudo isso faz parte do dia-a-dia de quem faz comunicação eleitoral. Para entender e trabalhar a política é preciso um esforço diário”, destaca o diretor de criação, João Henrique Marinho de Souza.

E, com o respaldo que tem no mercado, a Makplan foi responsável pelas campanhas que colocaram os candidatos petistas Marta Suplicy (PT/SP) e João Paulo (PT/PE), respectivamente, nas prefeituras de São Paulo e do Recife, nas eleições de 2000. O resultado foi fruto de uma estrutura bem montada nos períodos das eleições, no qual são formados núcleos de trabalho que desenvolvem ações integradas. “Todos têm que estar no mesmo tom e antenados em tudo, todo o tempo. Para isso, são necessárias reuniões diárias do núcleo estratégico com toda a equipe”, ressalta Souza. Dessa forma, a empresa não mobiliza ninguém que atende os clientes privados nas equipes voltadas às campanhas.

Também apostando no nicho está a QualyMais cuja diretoria e profissionais têm vasta e comprovada experiência em marketing e propaganda política, incluindo-se campanhas vitoriosas dentro e fora do estado. Mas, este ano, a empresa só fechou até o momento uma candidatura para as leieções no estado, mesmo sem qualquer esforço para captação de trabalhos nessa área. “A QualyMais não prospectou candidatos às eleições de 2004, embora um deles, mais atento, pesquisou o currículo dos nossos profissionais e nos procurou. Assim, vamos atender um candidato à prefeito de uma cidade de médio porte do interior de Pernambuco”, diz o diretor-geral da QualyMais, Luiz Carlos Costa, que destaca as ferramentas da propaganda como meios de informação imprescindíveis do briefing do cliente político, além do que diz ou pensa o candidato.
RACIONALIDADE - Outra grande expert no assunto é a MCI, fundada há 11 anos pelo cientista político Antônio Lavareda, que atua em campanhas políticas eleitorais e na comunicação governamental para políticos, governos federal e estaduais, prefeituras e partidos políticos. “Quando começamos (no início dos anos 90), esse mercado no Brasil era muito pouco estruturado. Havia um forte elemento de amadorismo e, freqüentemente, o entusiasmo político se sobrepunha à racionalidade técnica no processo decisório das campanhas
eleitorais”, lembra Lavareda. Para isso, a empresa criou uma estrutura própria de trabalho que envolve o desenvolvimento de uma gama de estratégias, distribuídas em todos os processos de ação, que contribuiu para a vitória em duas campanhas para presidente da república, 15 governadores e centenas de prefeitos, senadores e deputados, como: Lúcio Alcântara para o Governo do Estado do Ceará (2002); Jarbas Vasconcelos para o Governo do Estado de Pernambuco (2002); Tasso Jereissati como senador pelo Estado do Ceará (2002); e Marco Maciel como senador pelo Estado de Pernambuco (2002).

Este conceito de ação é previamente discutido com um quadro amplo de profissionais (das áreas de comunicação, ciências humanas, ciências políticas, administração e economia), envolvidos no processo que tem especialização em consultoria política. Além disso, a empresa conta com a parceria de agências de publicidade que vão sendo integradas progressivamente nas etapas de trabalho definidas no plano de ação. Dessa forma, mantém-se preparada para atender a grande demanda de serviço, inclusive dessas eleições de 2004, que inclue as campanhas do PSDB de Fortaleza e Belém (cujos candidatos estão sendo definidos); o PMDB do Recife (com Carlos Eduardo Cadoca); e o PFL do Rio de Janeiro (com César Maia), de São Paulo (com Luís Pinotti) e de Belo Horizonte (com Roberto Brant).

Ao coordenar ou trabalhar em parceria em campanhas políticas desenvolvidas por empresas de marketing estratégico, as agências de publicidade também apostam alto neste mercado criando fórmulas diferenciadas, não somente para marcar a imagem do candidato como também para driblar as pedras encontradas no meio do árduo processo de trabalho eleitoral. “A principal dificuldade é compatibilizar o atendimento normal aos clientes públicos e privados da empresa com os trabalhos das campanhas eleitorais, cujo timming e ritmo são completamente diferentes. Uma estratégia é dividir as equipes dos departamentos de atendimento, criação e produção/mídia por tipo de cliente e, quando a campanha é grande, a solução é criar estruturas paralelas”, aponta o diretor de planejamento e marketing político da Studiodois Estratégia, Marketing e Comunicação, Aldânio Carvalho.

Outra também inserida em eleições é a Agência Um, que sempre teve uma forte atuação em campanhas políticas. Muito procurada para a nova corrida eleitoral, já fechou três campanhas para prefeitos de municípios de médio porte em Pernambuco e está negociando contratos para algumas candidaturas a vereadores no Recife e para governador numa capital do Nordeste. Por isso, a empresa trabalha sempre na linha do diálogo particular para cada cliente, uma vez que as relações de trabalho entre o candidato e a agência podem apresentar dificuldades. “Alguns candidatos têm resistência a certos aspectos do trabalho publicitário, como fazer um cromo em um determinado ângulo, em aceitar uma logomarca mais moderna. A agência também precisa de jogo de cintura para lidar com os egos de alguns que participam da campanha e que têm poder de influência sobre o político. Mas tudo isso é contornável”, afirma o diretor de planejamento da Agência Um, Luís Augusto.

ANTECIPAÇÃO - Para evitar os transtornos comuns durante o processo de trabalho, a Agência Um sempre recomenda seus contatos a começarem com antecedência as ações para os pleitos eleitorais e a trabalharem com profissionalismo, evitando assim as corridas urgentes, e diminuindo os estresses dos candidatos e dos seus coordenadores de campanha, quanto da própria equipe envolvida. “As demandas de um pleito político são diárias e exigem muito da agência e isso torna necessária a contratação de uma equipe específica para esse trabalho, que requer muito dos envolvidos. Afinal, os profissionais são contratados por um período determinado,

com um volume intenso de trabalho e uma carga horária muito maior que o normal. Entretanto, a remuneração se torna maior”, observa Augusto. Correndo atrás dessas possibilidades que as campanhas propiciam estão os profissionais que aproveitam a oportuinidade de se integrar no mercado, aumentar seus rendimentos, ou se especializar na área como aconteceu com a jornalista Germana Acioly, que aceitou convite para trabalhar na última campanha de Fernando Ferro, depois do retorno de uma viagem para estudos na Europa; o publicitário Geovan Lima, que pediu afastamento da MartPet Comunicação para integrar um dos núcleos de campanha da MCI; e com a repórter Jaqueline Araújo que saiu da TV Guararapes para trabalhar na campanha de Jarbas Vasconcelos para Governo do Estado de Pernambuco (2002). “Passei meses procurando me informar sobre o mercado de marketing político. Li alguns livros, revistas, pesquisei em sites específicos, conversei com profissionais da área e fui para São Paulo fazer um seminário (com palestrantes de peso como Duda Mendonça, Nizan Guanaes e Antônio Lavareda). E vi que poderia ser uma área extremamente interessante para um profissional de comunicação, que só havia se dedicado até o momento a contas privadas”, diz Geovan Lima, que trabalha atualmente como atendimento da Plano B Comunicação, empresa que também atuou em diversas campanhas políticas.

CAMPANHAS POLÍTICAS:
UM RETORNO GARANTIDO

Definitivamente, as campanhas eleitorais já se tornaram sinônimo de retorno financeiro garantido para empresas de comunicação, de um modo geral, e profissionais liberais. Contudo, há um outro leque de beneficiados neste amplo universo: as prestadoras e produtoras de serviços e produtos de comunicação. Elas integram o time que contribui para o sucesso do candidato que ganha visibilidade e cai na boca do povo durante o processo eleitoral, através de outdoors, banners, cartazes, peças promocionais utilitárias, santinhos e mil outras artimanhas do mercado publicitário. Entre as empresas que ganham destaque nas ações políticas está a de mídia exterior, que, normalmente, é invadida após as convenções partidárias, quando são escolhidos os candidatos de cada partido (o que ocorre nos meses de julho e agosto).

Entretanto, esta mídia sofre restrições, pois deve se submeter às normas do Tribunal Regional Eleitoral - TRE. “O TRE colhe a relação de todos os espaços disponíveis, sorteando-os e distribuindo-os entre os partidos e coligações partidárias registradas, dando a todos condições similares de quantidade e qualidade de pontos e espaços publicitários”, diz o diretor-regional da Bandeirantes Mídia Exterior, Mauro Santos.

Dentro do setor das empresas de impressão (que podem faturar até 20% no período), a Gráfica Santa Marta afirma que normalmente, já surgem alguns negócios, a partir de maio. “Mas, a demanda forte começa mesmo a partir de julho, quando a propaganda eleitoral efetivamente é autorizada por lei”, levanta o diretor-comercial da Gráfica Santa Marta, João Cruz. Pela experiência da empresa, a demanda varia também em função dos dois tipos de campanhas eleitorais, pois aquelas para presidente, governador, senador e deputado federal e estadual exige um trabalho duas a três vezes maior do que a da eleição para prefeto e vereador. Além disso, o trabalho pode ser dobrado se a gráfica tiver algum tipo de relacionamento com partido político, pois toda campanha daquele partido ou daquele candidato acaba sendo feita naquela empresa. E isso pode gerar um maior reforço de pessoal, inclusive com terceirização de profissionais no processo de acabamento. “Em nosso caso, as campanhas políticas não são muito vantajosas porque 98% do nosso faturamento vem de clientes fixos. Mas, para outras gráficas, pode representar até o dobro do faturamento anual. Além disso, só compensa se o candidato tiver verba para pagar os impressos solicitados, caso contrário, em vez de ser positivo, passa a ser prejuízo. Outra vantagem é o fato da eleição de alguns candidatos em cargos importantes, poderem ajudar em futuros negócios com o governo”, reforça Cruz.

SATISFAÇÃO - Para produtoras de audio e vídeo, o ano eleitoral é mais intenso especialmente por causa do horário eleitoral que, por ser diário, requer um ritmo e uma produção diferenciada (jornalística e publicitária). “Normalmente, esse é um ano de muitas especulações sobre oportunidades de negócios, que geralmente se congretizam apenas no meio do semestre. Nesse intervalo, existem serviços avulsos como registro de visitas, solenidades e programa político do partido que serve para estreitar a relação e definir uma possível contratação. Dessa forma, se tomarmos como base o número de candidatos de forma absoluta, conseguiríamos ter uma

idéia da demanda. Por exemplo, uma campanha para prefeito movimento mais o mercado do que outras porque é pulverizada em vários municípios”, aponta o sócio-diretor da RX-30 (BA), Eduardo Wanderley.

Para a produtora de vídeo baiana, as campanhas eleitorais são como qualquer outra alternativa de trabalho, atualmente, fugindo-se das idéias passadas de verdadeiras minas de ouro. “O produto campanha política já foi melhor para as produtoras. Como tudo no mercado, houve uma pressão grande para adequação de preços do marketing político à conjuntura econômica. Se aliarmos isso ao risco de liquidez que esse produto pode oferecer, concluímos facilmente que esse mercado não é mais tão atraente”, avalia Wanderley. Mas, em relação as produtoras de áudio, o mercado do marketing eleitoral ainda parece bastante vantajoso.

DEMANDA - No caso da Ciclops Studio (PE), por exemplo, a demanda é muito alta e os serviços já surgiram desde janeiro passado, quando começaram a produção de jingle para vários estados onde atua (interior de SP, Amazonas, Acre, Ceará, Paraiba, Pará, Maranhão, Pernambuco). “Como nosso volume de trabalho tem sido muito intenso, à vezes precisamos trabalhar de madrugada. Além disso, já estamos superando a nossa média de 15 profissionais (entre músicos, produtores, locutores e cantores) num ano norma, porque a demanda tem crescido em torno de 100%”, revela o diretor da Ciclops Studio, Leonardo Caminha.

Depois de trabalhar nas campanhas eleitoras de 2000 e 2002, a produtora, que está fazendo a campanha do atual prefeito de Manaus, tem seu trabalho focado na produção de jingles políticos com qualidade, rapidez e preço acessível. Entretanto, a dificuldade de receber o pagamento se configura como o percalço mais latente nesse processo de trabalho. “Apesar do retorno que geram, há um grande entrave na hora da cobrança pelos serviços e é por isso que, nesta época, só trabalhamos à vista. Assim, podemos compensar o esforço e aumentar o faturamento da empresa em até 80%”, coloca Caminha.

Agora, no caso das empreas de brindes, como a Rick Design, o retorno financeiro é mais do que significativo, pois chega a superar a marca de 200% comparado aos demais anos. Para dar conta da demanda, a empresa aposta 100% na capacidade de atendimento e produção dos produtos dos clientes políticos, realizando até treinamentos com equipes extras para qualificar pessoal para o serviço no setor de estamparia, que é sua principal dificuldade. “É um trabalho exaustivo, pois temos prazos apertados para entrega do material eleitoral. O profissional mais exigido é o estampador e o ajudante de estamparia. E, por isso, contratamos, temporariamente, o dobro do pessoal normalmente utilizado em época comum, por conta da quantidade de camisas para estampar”, diz Ricardo Mendonça Severiano, proprietário da Rick Design, que já está trabalhando para clientes em pré-candidatura no Recife e em Itamaracá.

Ivelise Gomes

     
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