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pe360graus
   Ano V | 15 abril - 15 maio de 2004 | nº 55 | Capa: Ampla
 
 
     
O FIM DO NADA A DECLARAR


Ouvi a história há muito tempo, é quase uma unanimidade entre os jornalistas, mas nem todo o mundo tem conhecimento dessa tradicional e herege diversão jornalística: Contam que antes de dividir o Mar Vermelho para o povo de Israel fugir para a Terra Prometida, Moisés discutia com um assessor especial que impacto a ação poderia causar no mundo. O assessor, empolgado com o que poderia a vir se tornar uma grande notícia e no afã de conseguir um furo de reportagem, teria dito:

- Moisés, se você dividir o Mar Vermelho, eu te garanto pelo menos umas dez páginas na Bíblia!!!!
E Moisés estendeu sua mão ao Mar, ordenou a divisão e, quanto todos os israelitas fizeram a travessia a seco, juntou as águas e ainda conseguiu destruir todo o exército egípcio, que vinha atrás, em perseguição a seu povo. Mais tarde, observando bem o fato, Moisés disse ao assessor:

- Dez páginas está bom, mas será que não dava para conseguir a capa?

O conto ilustra de forma muito caricata as relações atuais entre o causador de um fato, a notícia e a repercussão que ela pode ter na mídia. O Moisés em questão sabia o que era notícia e a importância dos meios de comunicação para divulgar seu feito. Aliás, durante sua dura jornada, o profeta ainda teria assumido a função de assessor de imprensa dos céus para divulgar a todos os públicos os Dez Mandamentos. Por muito tempo, os empresários viram os jornalistas como vorazes inimigos que queriam, a todo custo, descobrir algum deslize das empresas e estampá-lo em manchetes no dia seguinte.

Convenhamos que há algum tempo não existiam o respeito ao consumidor, os certificados de qualidade, os compromissos com o meio ambiente, as normas de segurança e os investimentos em recursos humanos, hoje vistos como condição sine qua non para a sobrevivência de uma empresa no mercado. Se os desacertos eram gritantes e cabia aos jornalistas, como representantes da sociedade, informar ao público os equívocos cometidos no “chão de fábrica”. Assim, os jornalistas tinham que fazer o seu papel e os empresários não mediam esforços para esconder suas ações e fechar as portas para a imprensa. Era a época do “nada a declarar”, onde as empresas fechavam as portas para os jornalistas, perdendo, na maioria das vezes, a chance de mostrar sua defesa ou seus pontos positivos.

Com as novas relações das indústrias com a comunidade e com o meio em que estão inseridas, os compromissos entre as duas partes foram aumentando e hoje podemos ver a evolução da responsabilidade social, onde as empresas devem contribuir para o desenvolvimento da sociedade. Não se trata de caridade ou assistencialismo. Estamos numa fase em que as instituições empresariais saíram do banco dos réus e viraram agentes junto à comunidade, até mesmo sendo parceira das ações no governo, através de ações em saúde, educação e cultura. A comunicação é fator de suma importância nesse processo e em todos os outros que envolvam qualquer empresa. Aliás, ao longo do tempo, a tal comunicação empresarial foi deixando de ser ferramenta de apagar incêndios para se tornar de grande relevância nas organizações. Numa relação mais amadurecida, os empresários hoje vislumbram que a administração da comunicação ajuda a empresa a alcançar os seus objetivos.

Voltando à questão com a imprensa, nos últimos anos, as redações vêm reduzindo de tamanho e precisando da informação vinda de fora. Cria-se um novo mercado para as agências de notícias e as assessorias de comunicação empresarial ou as assessorias de imprensa. E assim, a mídia vai deixando de ser inimiga e o empresário passa a ser fonte de informação para os jornalistas. As portas se abriram. A partir de 1985, o exemplo de empresas como a Rhodia, que criou a “Política de Portas Abertas”, foi se disseminando pelas organizações brasileiras, mostrando ser inevitável e precioso o investimento em comunicação. Que fique claro, porém, que não estamos tratando simplesmente de jornais internos e quadros de aviso. Para o professor Wilson da Costa Bueno, desde aquela época, "a comunicação deixava de ser ‘perfumaria’, ganhando as entranhas das administrações pública e privada, e extrapolando os limites dos tradicionais ‘jornaizinhos’ internos para assumir o status de um complexo poderoso, intrinsecamente vinculado à chamada estratégia negocial".

Agora, nossas empresas têm tudo a declarar!

Ana Cristina Lima diretora da S.A Comunicação.

     
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