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   Ano V | 15 agosto - 15 julho de 2004 | nº 58 | Capa: Italo Bianchi Comunicação
 
 
     
FIDELIZAÇÃO. SERÁ QUE EXISTE?

Os vendedores de CRM - Customer Relationship Management - ou Gerência do Relacionamento com o Cliente, criaram essa história de marketing tradicional versus marketing de CRM, como se pudessem haver diversos marketings. Existem, sim, diversas ferramentas de marketing e o CRM é mais uma delas, muito poderosa, muito útil, mas uma ferramenta, longe de ser a panacéia universal para os males de marketing do cliente. Atender o cliente, falar com ele, buscar conhecê-lo e as suas necessidades são funções do marketing. Algumas novas, outras mais recentes, mas tão inerentes que fazem parte do próprio conceito. Como toda solução genial, ela é simples: conversar diretamente com o cliente, saber o que ele quer e entregar aquilo que satisfaz suas expectativas. Mais que isso, saber se o que foi entregue o foi de forma a atender. Isso pressupõe constante contato. A tecnologia evoluiu, os custos de hardware e software caíram e a possibilidade de haver relacionamento direto com o cliente aumentou.

Os objetivos de marketing parecem, no entanto, ter mudado. De share de mercado para share no cliente. Não mais se preocupando com o mercado em si, o “novo” marketing se preocupa com o cliente. Minha empresa não deve mais ser uma fabricante de produtos, mas uma “atendedora” de necessidades. Esse é o “novo” conceito. E como se consegue isso? Fidelizando o cliente. Bolas. Qual é o objetivo de marketing, em última análise, senão esse? Isso não é uma propriedade dos novos meios de se fazer marketing, das novas ferramentas. Do ponto de vista do objetivo final, não muda nada. Obter fidelização nada mais é do que tornar o cliente fiel à sua empresa. É fazer com que toda vez em que vá fazer uma compra lembre de sua empresa e faça a compra com você, independentemente de seu preço. Isso ocorreria porque seu cliente já está acostumado com você, é bem atendido, confia nos seus serviços e, em função disso, não quer nem saber dos concorrentes.

A mágica reside exatamente nisso. Manter seu cliente próximo, oferecer serviços, mostrar que ele é atendido personalizadamente, que sua relação é diferenciada. Isso o faz sentir-se único, prestigiado. A fidelização é uma estratégia a ser adotada para se atrair, conquistar e manter clientes. É o que todos procuram, pois são os clientes fidelizados os que permitem à empresa menores pressões sobre a margem, melhor relacionamento. O que acabou acontecendo foi certo endeusamento do conceito. Tudo o que se quer e o que se espera é o cliente fiel, aquele que “ama” a empresa e não a abandona. Fidelidade, no entanto, ao menos em se tratando de cliente, não existe. Ela existirá até o limite da conveniência. Pensemos no clássico exemplo da empregada doméstica. Quem nunca pensou em trocar de empregada? Afinal, ela deixa pó embaixo da mesa, o banheiro fica molhado, come demais... só que, quem eu vou arrumar? Ela é de confiança, o cachorro a adora... vou ter de achar outra pessoa, treiná-la, provavelmente vai ser mais cara... o melhor é continuar com a atual.

O mesmo ocorre com cartão de crédito e banco. Quantas vezes eles não pisaram na bola errando datas, cobranças, pagamentos? Mas só em pensar em refazer o cadastro, em conseguir novos limites, em procurar algo que seja conveniente, acaba por fazer a gente desistir, mantendo o atual. Uma relação de ódio, distante da fidelidade que se espera. Duas pesquisas interessantes “rolaram” nos Estados Unidos. Numa delas uma rede de hotéis havia determinado quem eram os clientes fiéis. Eram aqueles que se hospedavam em suas unidades no mínimo 8 vezes por ano. Eram os clientes ideais, os “Platina”. Já o grupo que ficava só 3 vezes ao ano hospedado, os não fiéis, seriam no máximo “Prata”. Para eles não se destinava promoções, nem um relacionamento de primeira.

Bem, quando se foi ver de perto, descobriu-se que os que se hospedavam 8 vezes ao ano, viajavam 12, enquanto que os que se hospedavam 3 vezes, viajavam só 3. Quem é mais fiel? O que se buscava era fidelidade ou quantidade de compra? A outra mostrava, dentro de uma cadeia de lojas, o grupo fiel. Era aquele que não saía da loja, comprava constantemente em quantidades razoáveis. Pesquisando descobriu-se que essa parcela de consumidores era de uma classe tão abastada que comprava na rede, em todas as redes, ou seja, eram fiéis a todo mundo, algo como um harém mercadológico. Mais do que buscarmos fidelidade, devemos reconsiderar seu conceito. Devemos imaginar que não existe um cliente fiel. O que pode haver é um cliente simpático, que penda para nossa empresa, mas que irá trocar quando encontrar melhores condições ou preços. Em grande parte das vezes não é o cliente que procura, ele é procurado, seja pelo relacionamento, seja por uma boa campanha de propaganda. A busca pela fidelização, no entanto, não pode ser abandonada. Mesmo que não a atinjamos, mesmo que ela não exista, não deixa de ser uma cenoura na frente de nosso marketing.

Sydney Manzione, consultor de empresas e professor da ESPM.
     
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