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   Ano V | 15 setembro - 15 agosto de 2004 | nº 59 | Capa: Creatto Comunicação e Marketing
CONSUMO RESPONSÁVEL: UMA QUESTÃO DE CIDADANIA
Luciana Torrão
   Mais consciente de sua força e atento às relações com todos os públicos que as empresas se comunicam, o consumidor brasileiro começa a adquirir novos valores e exige respostas apropriadas do mercado. Uma parcela cada vez maior da população não se preocupa apenas com preço e qualidade na hora das compras, e já leva em conta uma série de cuidados extras no momento de consumir produtos ou serviços. Eles geralmente se informam sobre as corporações e indústrias, analisam o impacto ambiental e social de seus gastos e ações, exigem nota fiscal, reclamam seus direitos e evitam desperdícios. São os consumidores conscientes, que vivenciam a máxima: “consumir sem consumir o mundo em que vivemos”. Um conceito relativamente novo, mas que vem ganhando espaço cada vez maior e promete ser o novo paradigma empresarial da grande revolução mercadológica.
   Em 2002, o estudo Responsabilidade Social Empresarial – Percepção do Consumidor Brasileiro realizado pelo Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social (www.ethos.org.br), com pessoas de 18 a 74 anos, de nove regiões metropolitanas do Brasil mostrou que 16% dos consumidores prestigiaram uma determinada empresa pelo fator de responsabilidade social. As principais restrições que os levariam a deixar de comprar determinado produto ou deixar de usar os serviços foram: as que veiculam propagandas enganosas, que poluem o meio ambiente, sonegam impostos, usam mão-de-obra infantil e as que colaboram com políticos corruptos. Um exemplo vivo disso é o atendente da locadora GameCDVídeo, Alberto Cavalcanti, que diz que deixaria de comprar determinado produto se soubesse que ele estaria causando algum dano ao meio ambiente ou atuando de forma politicamente incorreta. “A melhor arma do consumidor é o boicote. Uso determinados produtos porque sei que estou contribuindo de alguma forma com algum projeto social e melhoria da qualidade de vida de minha família”, declara.
   Isso prova que, logo em breve, no futuro, o mercado não dará mais vez às empresas disfarçadas de socialmente responsáveis. Muitos consumidores já atentaram para o fato da certificação, e de algum indicador nas embalagens que diga a proveniência do produto. “Os ícones de responsabilidade social (ou “merchandising social”), estampados em peças, serviços e empresas agregam cada vez mais valor aos bens. E estamos apenas no início deste processo. As embalagens e rótulos, por exemplo, são excelentes meios e estão deixando os selos de certificação cada vez mais expostos para conquistar consumidores”, reforça o sócio-diretor da Emballa Design (PE), Hiroshi Koike. De acordo com o mestre em Letras e professor da Universidade Estadual da Paraíba e Faculdade Santa Helena (Fash), Auríbio Farias, precisamos prestar atenção às mínimas coisas que fazemos. Sempre que vai às compras o professor

Ana Azevedo, Unicef (PE)
observa bem o rótulo dos produtos. “Essa atitude impede que eu esteja incorrendo em um contra-censo e sendo incoerente com o que penso. Não estarei sendo ético ao adquirir um produto que contribua para a destruição do planeta, por exemplo. E acho que muitas pessoas deveriam pensar e agir da mesma forma”, destaca.
   Certificações e selos podem comprovar responsabilidade socioambiental das empresas, e proporcionar melhor controle da gestão, redução de custos e incremento da produtividade. Há algumas certificações com validade internacional que podem ser observadas pelo consumidor: ISO14001, SA8000 e Forest Stewardship Council (FSC) – Conselho de Manejo Florestal. O ISO14001 normatiza sistemas de gestão ambiental das empresas; o SA8000 é uma certificação para relações de trabalho; e o FSC é uma certificação para madeira extra- ída de florestas com manejo sustentado. A FSC é uma entidade fundada por profissionais e associações de 25 países. No Brasil, a ONG Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), representando a Rede SmartWood, está auto- rizada a realizar as certificações e a ONG Amigos da Terra, que tem atividade em 54 países, coordena um grupo de trabalho para promover o consumo de produtos com o selo FSC.
   As condições de trabalho ocupam espaço crescente na agenda internacional. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) tem procurado elevar os parâmetros das normas fundamentais do trabalho, que incluem eliminação do trabalho infantil, da discriminação e a garantia do direito à liberdade de associação e de negociação coletiva. Consumidores de todo o mundo promovem boicotes contra produtos resultantes de exploração do trabalho forçado ou infantil. “Para nós do Unicef abordar o assunto é altamente imprescindível, na medida em que temos a missão de promover os direitos da criança e do adolescente”, enfatiza a jornalista e oficial de projetos do Unicef, Ana Azevedo. Ela caracteriza como empresa cidadã a que exerce o seu poder de contribuir para o pleno desenvolvimento dos direitos dos indivíduos. “O empregador que respeita os direitos do empregado está contribuindo para que este crie melhor seus filhos e tenha uma família saudável. Se bem remunerado e satisfeito, conseqüentemente, o funcionário poderá cuidar melhor de suas crianças e adolescentes, considerados prioridade absoluta no artigo 227 da Constituição Brasileira”, ressalta Azevedo.
Exagero de consumo – Se todos os habitantes do mundo consumissem como os dos países ricos, seriam necessários recursos naturais equivalentes a quatro planetas Terra. Atualmente, já consumimos 20% a mais de recursos do que o planeta consegue recompor, um déficit que vai ficar para as futuras gerações. “O fato é que não temos onde buscar mais três Terras. Por isso, a consciência é imprescindível para a sustentabilidade ambiental e implica planejar e executar ações – sejam elas governamentais ou empresariais, locais, nacionais ou globais –, levando-se em conta simultaneamente as dimensões econômica, ambiental e social”, alerta o diretor-presidente e fundador do Instituto Akatu Pelo Consumo Consciente, Hélio Mattar.
   Em novembro de 2003, o Instituto Akatu (www.akatu.org.br) realizou a pesquisa Descobrindo o Consumidor Consciente: uma Nova Visão da Realidade Brasileira, ouvindo mil pessoas em 11 capitais brasileiras. De acordo com o levantamento, a maioria da população está nas faixas intermediárias de consciência no consumo, sendo 54% considerados consumidores iniciantes e 37% comprometidos, segundo e terceiro níveis em uma escala utilizada para a pesquisa, onde o consumidor consciente ocupa o quarto lugar. A pesquisa definiu quem eram os consumidores conscientes a partir de treze comportamentos que pressupõem a consciência no ato de consumo de produtos, recursos naturais ou serviços. Alguns deles são: fechar a torneira enquanto escova os dentes, apagar as luzes ao deixar um ambiente, separar lixo para reciclagem, pedir nota fiscal e ler o rótulo de um produto antes de comprar.
    O diretor-executivo da rede Mundo Verde, Jorge Eduardo Antunes Silva, diz que pertencer a um grupo social pressupõe responsabilidade em relação às outras pessoas e ao meio ambiente. Ele diz que o consumidor já começa a entender isso, e se não o faz por vontade, o fará por obrigação, logo em breve. “Estamos presentes em inúmeros estados brasileiros, e em junho passado recebemos o Prêmio de A Melhor Franquia do Brasil, onde o consumo consciente e a responsabilidade social empresarial (RSE) foram fatores fundamentais”, informa. No início deste ano, a rede Mundo Verde criou uma iniciativa pioneira: inaugurou no Centro Educacional de Desenvolvimento Integrado (Cedi), o Projeto Cantina Natural, inspirado no A Cantina na Escola, projeto proposto pelos ministérios da Saúde e da Educação em parceria com a Organização Pan-Americana da Saúde, cujo objetivo é oferecer uma alimentação saudável aos alunos do primeiro e segundo graus das escolas públicas e particulares. A Cantina Natural comercializa alimentos como barras de cereais, biscoitos integrais, frutas secas, salgadinhos integrais assados, bebidas à base de soja, água-de-coco e outras variedades de produtos light e integral. A empresa nasceu há 17 anos com o objetivo de divulgar a idéia da alimentação natural, como forma de garantia de uma vida mais saudável.
   BONS EXEMPLOS – Criado com a missão de mobilizar, sensibilizar e ajudar as empresas a gerir seus negócios de forma socialmente responsável, tornando-as parceiras na construção de uma sociedade sustentável e justa, o Instituto Ethos foi idealizado por empresários e executivos oriundos do setor privado que auxiliam outras corporações a analisar suas práticas de gestão seguindo os indicadores de RSE, que são ferramentas para avaliação e planejamento dos processos de responsabilidade social nas organizações. Podem servir, inclusive, de base para a reflexão dos jornalistas e oferecem contrapontos adequados para que estes analisem de forma crítica as informações sobre as empresas, constituindo-se em excelente guia para a preparação de uma boa reportagem sobre responsabilidade social.

Jorge Eduardo, Mundo Verde (SP)
    O fundador do Instituto Akatu considera que o consumidor consciente pode mudar o mundo em pequenos e cotidianos gestos. “Buscamos oferecer exemplos que tornem mais clara esta percepção. Vejamos o caso do desperdício de alimentos. O Brasil desaproveita todo ano 14 milhões de toneladas de frutas, hortaliças e grãos, e cerca de 20% dessa perda ocorre durante o preparo dos alimentos. Uma família brasileira joga fora em média 500 gramas de comida por dia. Parece pouco, mas ao final de um ano foram para o lixo 180 quilos de alimento”, quantifica. Hélio Mattar diz que se um milhão de famílias decidisse reduzir o desperdício à metade, as 90 mil toneladas de comida economizadas em um ano seriam suficientes para matar a fome de 260 mil pessoas nesse mesmo tempo. O baixo aproveitamento e a falta de consciência
de consumo já deram ao Brasil o título de “o país do desperdício”. Pensando nisso, no início de agosto foi lançado em Pernambuco o Sesi Cozinha Brasil, criado para disseminar conhecimentos sobre uma alimentação saudável e barata, além de incentivar o consumo de produtos nutritivos, aproveitar alimentos regionais e, principalmente, evitar o desperdício. O projeto foi lançado pelo Conselho Nacional do Serviço Social da Indústria (Sesi) em parceria com o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, juntamente com grandes empresas nacionais, como Petrobras, Banco do Brasil e Caixa Econômica. O projeto já foi implantado em Minas Gerais e Espírito Santo, e em breve chegará em São Paulo e Piauí.
    A mídia em geral tem um papel fundamental para o engajamento dos cidadãos. Campanhas publicitárias que mostrem soluções positivas e contribuam para promover estilos de vida alternativos são bem aceitas pelo público. Neste aspecto, a propaganda pode ser um grande aliado. Para a publicitária e gerente-geral da AmplaPromo (PE), Carol Boxwell, falar de consumo responsável é falar de comércio solidário, é contribuir para uma melhoria na condição de vida e de trabalho dos produtores. “Surge um novo desafio: pro- mover uma parceria entre consumidores e produtores, e não se trata mais de uma relação mercadológica. O caminho é longo. Mas os resultados são maiores. Não estamos mais falando de comércio, de consumo. O nosso assunto agora é desenvolvimento”, analisa.
A vice-presidente da Tok&Stok, Ghislaine Dubrule, acredita que o consumo responsável visa acima de tudo à preservação e construção de um mundo melhor para se viver. “Persuadir cidadãos a terem consciência social e preferirem consumir produtos responsáveis é uma questão de educação, que começa com a educação familiar, em preparar os filhos e dar o exemplo sobre o quanto pode-se prejudicar o ambiente em que vivemos”, afirma. A Tok&Stok trabalha com 52 peças considerados Eco-sociais e tem desenvolvido vários produtos comerciais e projetos de grande impacto. Além disso, tem o selo verde e o selo de madeira certificada (FSC), que vêm afixados nos artigos e nas gôndolas. O diretor do Instituto Xerox, José Pinto Monteiro, diz que a Xerox é uma das empresas que lideram o movimento Eco-social desde a Eco-92. “Temos como principal foco a proteção ao meio ambiente e o programa de coleta e reciclagem de

Carol Boxwell, AmplaPromo (PE)
cartuchos de toner e cartuchos de cópias usados, visando o destino correto para estes produtos”, aponta Monteiro.
    O papel da comunicação – Em meio a toda essa revolução, os profissionais de propaganda podem, e devem, influenciar uma mudança de atitude por parte da sociedade. De passagem pelo Nordeste, para ministrar palestras durante o evento Caravana da Comunicação, a presidente da Full Jazz Propaganda (SP), Christina Carvalho Pinto, deixou claro que o publicitário deve despertar para a grande responsabilidade que é a interferência no inconsciente coletivo. “Os profissionais da comunicação precisam refletir e estimular os valores que realmente importam e que devem ser transmitidos em uma peça. Nós publicitários não erramos porque queremos, mas porque não paramos para pensar. É preciso fazer o consumidor se encontrar através da marca, não esquecendo de respeitar suas raízes culturais, que variam de lugar para lugar. Não existem mais simplesmente consumidores e sim cidadãos que se importam com o todo e não somente consigo mesmos”, aposta.
    Uma empresa cujas propagandas e produtos são politicamente e ecologicamente corretos é a Natura. Seguidora do Estatuto da Criança e do Adolescente, a Natura inclui, nos contratos com fornecedores, cláusulas que proíbem o trabalho infantil, e é filiada à Fundação Abrinq pelos Direitos das Crianças, da qual recebeu o selo de ‘Empresa Amiga da Criança’. “Uma ação recente foi a substituição de sacos de plástico que envolvem as notas fiscais das consultoras por sacos de plástico biodegradável. A troca dos sacos utilizados é parte do compromisso da empresa com a sustentabilidade. Fomos a primeira empresa brasileira a adotar a tecnologia, desenvolvida por uma companhia européia, em escala industrial”, revela o gerente de desenvolvimento de embalagens da Natura, Renato Wakimoto. Levantamento da revista Carta Capital e da InterScience posicionou a Natura, pelo quarto ano consecutivo, entre as empresas mais admiradas do país pelo comportamento ético, compromisso social, responsabilidade ambiental e consciência cidadã. Ela foi distinguida ainda pelo Guia Exame da Boa Cidadania Corporativa e pelo Instituto Ethos como referência em responsabilidade social. Além disso, a marca apareceu como uma das dez mais lembradas pelo público no quesito respeito ao consumidor.
E, partindo do princípio de que a reciclagem é fundamental para a sobrevivência tanto da marca como do ecossistema, a Ponto Brand Promotion repete a promoção Pepsi M.A.I.S. (Música, Agito, Interação e Sabor). “Com o intuito de aumentar a identificação do público jovem com a marca Pepsi, a promoção incentiva o cuidado com o meio ambiente e também traz música e animação a jovens de mais de 400 escolas brasileiras. Trata-se de uma competição entre instituições de ensino na qual a unidade que mais coletar embalagens de Pepsi para reciclagem será presenteada com o show exclusivo de uma banda de sucesso, escolhida por eles. No Rio de Janeiro a ação contabilizou 939,56 quilos de embalagens de Pepsi recicladas”, contabiliza a diretora de criação da Ponto, Ana Paula Dugaich Marques.
    Como parte do grupo britânico ICI Paints, a Tintas Coral é regida por um rigoroso programa de respeito ao meio ambiente, que, entre outros princípios, estabelece que os clientes e consumidores que usam os produtos da companhia têm direito a artigos seguros e que preservem o meio ambiente. O gerente de saúde, segurança meio ambiente e qualidade, da América Latina, da ICI Paints/Tintas Coral, Frederico Gonçalves, diz que a corporação tem ações regulares de responsabilidade social focadas, principalmente, no respeito ao meio ambiente. Um exemplo dessa política ambiental é o programa de desenvolvimento sustentado pela conservação de água subterrânea. “O objetivo é evitar desperdícios e garantir a sustentabilidade do planeta. A ação consiste na reutilização da água da estação de tratamento de efluentes para lavagem de tachos (recipientes usados no processo de produção de tintas) e embalagens vazias de matérias-primas. Com o reaproveitamento, conseguiu-se uma redução de 10% na captação de água subterrânea”, aponta. Por isso, a fábrica mantém a Estação de Tratamento de Efluentes e toda água utilizada na fábrica para lavagem de pisos, tanques e reatores é enviada para a estação de tratamento, onde passa por um processo de limpeza e purificação antes de ser jogada na natureza.
    De cinco em cinco anos, a ICI estabelece metas a serem atingidas, baseadas no desempenho do qüinqüênio anterior. “Até 2005 temos um desafio: redução da geração de resíduos”, revela Gonçalves. Sempre em novembro, todas as filiais internacionais da ICI concorrem ao Prêmio SHE Awards (Safety Health Enviroment), um momento para se fazer troca de idéias e soluções inovadoras, que podem ser reaplicadas em toda a rede. A Tintas Coral também utiliza uma matéria-prima ecologicamente correta: pó de garrafas PET para fabricação de tintas de esmalte (Coralit). A compra do produto é feita de forma terceirizada. Aproximadamente 45 mil garrafas deixaram de poluir os rios e o meio ambiente. Com este mesmo número, podem ser produzidas 45 toneladas de fibras têxteis para produção de roupas, cobertores, etc.
    A jornalista da Antares Comunicação (PB), Flávia Rocha, realizou ano passado, em seu projeto de conclusão de jornalismo, uma pesquisa sobre a Influência do marketing social no comportamento do consumidor pessoense. “Foi a primeira vez que foi feito um estudo com esse nível de importância para o consumo responsável aqui na cidade, e, até hoje, acho que foi a única. Cerca de 64% dos entrevistados se encontram dispostos a pagar mais por um produto ou serviço sabendo que ao fazê-lo estaria contribuindo para ajudar as pessoas através de um projeto social. Para as empresas esse dado é muito relevante na medida em que, sabendo dessa predisposição por parte do consumidor, devem procurar satisfazer essa “necessidade”, manifestada na pesquisa, através de ações e projetos sociais que agreguem valor aos seus produtos/serviços e contribuam para aumentar a credibilidade e a identidade corporativa da empresa, fortalecendo o conceito e criando um diferencial agregado de fidelidade junto aos consumidores”, aposta a jornalista.
 
 
 
 
 
 
 

 

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