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pe360graus
   Ano V | 15 setembro - 15 outubro de 2004 | nº 60 | Capa: QI Comunicação
MERCADO DE BONS FRUTOS
Ivelise Gomes
Um dos primeiros veículos segmentados do planeta, as revistas podem ser feitas para qualquer tipo de público permitindo-se alcançar o foco do interesse específico de cada leitor como nenhum outro veículo. Sendo assim, ela pode atender não só às expectativas de empresários que necessitam de informações minuciosas, como também as exigências do público comum que gosta de se manter atualizado com o que acontece no mundo. “Apesar do trabalho comercial e de marketing inovador desenvolvido para segurar o meio no mercado, nos dias de hoje, as revistas são feitas para o leitor”, diz a diretora-executiva da Associação Nacional das Editoras de Revistas (Aner), Maria Célia Furtado.

E, por ser feito em função do seu público-leitor, o meio revista alcançou seus duzentos anos de existência superando os altos e baixos do mercado e conquistando uma nova visão para prósperos empreendedores, profissionais de comunicação e anunciantes. “Apesar da globalização, as revistas sempre terão um espaço no mercado brasileiro. Para se ter uma idéia do seu poder hoje, quando se avalia o meio, em nenhum momento se discute o conteúdo editorial das revistas. E, se tivermos um grande avanço digital, o que mudará será apenas o meio de transmitir a informação, de papel para eletrônico. Mas, a informação em si será preservada”, comenta Maria Célia. Dos onze milhões líquidos investidos em 2003 pelo mercado publicitário em meios de comunicação, cerca de dois milhões foram investidos na mídia jornal e mais de um milhão nos magazines, correspondendo a mais de 10% dos investimentos nesse meio. “As ações de publicidade e de marketing permitem a viabilidade e, principalmente, levam ao leitor a mensagem do anunciante. Evidentemente, todas as editoras estão acompanhando os novos tempos, um exemplo é que atualmente no Brasil o canal que mais vende assinaturas de revistas é a internet, o site das próprias revistas”, destaca Furtado.

Por isso, percebe-se que, hoje, o mercado editorial de revistas é um mercado bastante competitivo no qual se debatem atrás do público leitor cerca de dois mil e quinhentos títulos que são distribuídos nos 30 mil pontos-de-venda de bancas brasileiras, segundo dados da Aner, entidade nacional fundada em 1986. De acordo com a entidade, o país tem sido bombardeado com dois mil lançamentos de títulos por ano e sua evolução tem se mantido em alta, variando em termos de venda avulsa entre 245 e 222 milhões de exemplares por ano, e em ternos de circulação total, entre 380 e 415 milhões de exemplares, nos últimos quatro anos. “Esses números comprovam que investir em revistas no Brasil ainda dá resultados, tanto que presenciamos hoje não só o surgimento contínuo desses novos títulos, como também observamos investimentos estrangeiros em editoras brasileiras sobre as mais variadas formas, principalmente por meio de licenciamento de novos títulos”, comenta Maria Célia Furtado.

Para manter esse panorama, as empresas editoras têm desenvolvido hoje uma série de estratégias de marketing e de merchandising para atrair patrocinadores, anunciantes e públicoleitor. “A principal delas é mostrar a confiabilidade do meio revista, a fidelidade do leitor e como esta confiança e credibilidade são transmitidas ao espaço publicitário”, diz Furtado. Por isso, a Aner trabalha sempre no sentido de mostrar ao anunciante a eficácia do meio revista que, atualmente, apóia mais de 60 editoras oficiais em todo o país. Entre as ações que as empresas desenvolvem para manter-se firmes no mercado está a ampliação dos seus leitores através da expansão editorial e geográfica. Um exemplo disso é a migração das paulistas Viver Bem, da Editora Peixes, e Cool Magazine, da JSP Editora, que implantaram sucursais no Recife (PE) para atingir uma nova fatia de público, que, segundo a Forbes, compreende um target consumidor promissor, em virtude do desenvolvimento do estado e do aumento do poder aquisitivo.

Lançada em agosto de 1997, a Cool Magazine foi criada com o intuito de ser vanguardista no entretenimento em geral, abordando assuntos modernos, linkados ao entretenimento e ao mundo fashion e dando ênfase especial aos lançamentos nacionais e internacionais relacionados à música eletrônica e eventos. Por isso, sempre trazem editoriais, matérias e entrevistas com estilistas e designers. Em todas as suas edições a Cool Magazine traz com pioneirismo as tendências e conceitos dos principais centros europeus lançando casas noturnas, músicas e DJs, sempre de forma globalizada. “A revista tem boa circulação em Natal e vem alavancar o mercado do Nordeste”, comenta a diretora-comercial da Cool Magazine no Recife, Walderez Sampaio, que começou a distribuir a publicação para um mailing vip (formado por jornalistas, empresários e formadores de opinião).
TENDÊNCIAS - Para atingir seu públicoleitor, a JSP Editora dividiu a revsita em seções que enfocam os grandes eventos e mostram as tendências de comportamento no segmento de entretenimento noturno.“Nosso público-alvo são pessoas ligadas à noite, moda, música, tecnologia, internet, turismo, decoração, design e gastronomia. Público A e B, na faixa etária de 18 a 42 anos de idade. Embora se acredite que seja mais abrangente”, diz Walderez. Entretanto, para conseguir fechar a meta comercial, a revista abre exceções de permuta, desde que a oferta tenha identificação com o seu perfil. São disponibilizados seis mil exemplares para eventos fechados, mas os empreendedores contam com sete mil exemplares para as bancas e 10 mil revistas distribuídas gratuitamente para o público vip.

Com 14 anos de circulação e fruto de um mix de aproximadamente dez títulos da Editora Peixes (editora especializada em revistas segmentadas), a Viver Bem trouxe em sua edição de aniversário (abril de 2004) duas matérias de destaque focadas em Pernambuco com histórias de vida e peças de arte: Janete Costa, valorizando peças antigas e objetos de arte e uma reportagem especial no espaço de Francisco Brennand. A revista, que costuma orientar seus leitores a criar ambientes aconchegantes e sofisticados, está habituada a viajar pelos quatro cantos do país para retratar e prestigiar as maravilhas de cada região, trazendo idéias inspiradoras que surpreendem a todos com diferentes jeitos de morar pelo Brasil. “Estamos presentes na região, com objetivo de oferecer soluções mais criativas e rentáveis para otimizar as verbas dos clientes, além de adotar uma política de comercialização mais atraente, garantindo cobertura eficaz”, diz a representante comercial da editora Peixes, Giana Fulanetto.
Entretanto, com a redução e otimização das verbas de comunicação por conta da situação econômica do país e a busca de retorno imediato dos investimentos por parte dos anunciantes, os veículos precisam ser ágeis e ousados. Nesse cenário, a Editora Peixes aumenta sua cobertura através de escritórios regionais pelo Brasil, com a missão de estar antenada na movimentação e evolução de cada região. “Nosso principal target são as mulheres das classes A e B, entre 25 e 44 anos, que representam 86% do público total que tem o hábito de leitura da Viver Bem. Desses, 62% compram algum produto ou utilizaram serviço motivados por anúncio na revista”, destaca Giana. Com relação à circulação total, a Viver Bem cresceu em média 12% em banca (comparando o 1º bimestre de 2004 com o ano passado), enquanto suas concorrentes caíram 2%. Só em Pernambuco, a Viver Bem cresceu cerca de 139%, e no Nordeste como um todo, 72%.

ALTERNATIVAS LOCAIS - Correndo por outra frente, temos as revistas feitas nos estados nordestinos, vinculadas às editoras alternativas que circulam em toda a região. Apesar de muitas não estarem cadastradas à Aner, elas são registradas na secretaria da fazenda dos governos municipais, pagam os impostos devidos, produzem matérias que retratam a cara do público local e se esforçam, além das publicações oficiais, para se manter firmes e fortes. Entre elas estão a Sergipe Mais, a Revista SIM, a Comunicar e a recém-lançada Engenho.

Sergipe Mais (SE) surgiu da transformação na linha editorial da revista Sergipe S/A, lançada em janeiro de 99, como uma experiência de empresários no campo da comunicação com uma publicação de foco econômico, que procurava mostrar o que estava acontecendo em Sergipe na ótica do empreendedorismo. Seu objetivo era estabelecer um fórum de debates que contribuisse, de alguma forma, para o desenvolvimento de Sergipe. Entretanto, no início de 2003, houve uma reavaliação da linha editorial da revista e a opção foi torná-la mais abrangente, saindo do foco exclusivamente econômico.
“Procuramos estar bem atento às necessidades de conhecimento e informação das pessoas, nos assuntos em que se percebe interesse. Algumas vezes, trazemos para a realidade local temas que vêm sendo abordados nacionalmente. Com isso, temos excelente credibilidade e, modéstia à parte, há unanimidade no reconhecimento à qualidade editorial e gráfica de Sergipe Mais”, aponta o diretor-comercial e de marketing da Sergipe Mais, Alexandre Mainardi Wendell. Por isso, mudou-se o nome dela para Sergipe Mais e passou-se a contemplar um leque maior de assuntos, através de matérias de comportamento, saúde, política, turismo, etc. “Apostamos na qualidade desse conteúdo e procuramos fazer um meio que marque, que suscite reflexões interessantes, que não seja descartável após a primeira folheada rápida”, aponta Wendell.

Para a equipe de produção, a revista é voltada para um público-alvo formado por “gente inteligente” e, para cativá-lo, a cada edição, são feitos pôsteres com a capa da revista e as principais chamadas afixadas nos principais pontos-de-venda, onde a publicação é distribuída a R$ 4,90 o exemplar. “Quando a revista vai para as bancas, usualmente é publicada meia página no jornal Correio de Sergipe, em regime de permuta. Recentemente, fizemos uma campanha na TV Atalaia (SBT), também em permuta”, destaca Wendell. Toda essa estrutura de divulgação é possível graças aos anunciantes da iniciativa privada, que em sua maioria são construtoras, o Senac e o Sesc, e, entre os menores, todo ramo de negócios de postos de combustíveis a papelarias. Além disso os dirigentes da Sergipe Mais contam ainda com Governo do Estado de Sergipe, que é um anunciante bastante freqüente; a Prefeitura de Aracaju, mais sazonal; Petrobrás e o Governo da Bahia, que também já anunciaram.
 
Já a Revista Comunicar (CE) nasceu no ano passado, apenas como um veículo informativo para o Comunicar 2003, evento voltado ao mercado publicitário nordestino. E, em virtude do sucesso que alcançou e da expectativa dos participantes do encontro em ter uma publicação desse tipo, os empreendedores do projeto resolveram mantê-la. “Durante o evento, algumas pessoas me perguntaram se a revista iria continuar, e eu respondi que sim, mesmo sem saber se iria mesmo. A partir daí entendemos que o mercado necessitava de um canal que interligasse os segmentos da propaganda cearense”, comenta o diretor da Strike Projetos e Eventos Corporativo, Sérgio Souza. A produção editorial é feita pela Omni Editora, que tem sido ao longo dessas edições, um parceiro imprescindível para o sucesso da revista. Já sua distribuição é gratuita sendo enviado as agências de publicidades, anunciantes, fornecedores, veículos, e a todos aqueles que solicitam o seu cadastro no nosso mailling.
“Hoje temos como principais anunciantes os veículos de comunicação. Mas alguns segmentos já perceberam o veículo, como uma oportunidade de mídia, que atinge pessoas com bom poder aquisitivo. É o caso de uma rede de farmácias, uma cooperativa de táxi, faculdade, entre outros que estão na revista”, diz Souza.

Ainda em sua terceira edição, a Comunicar ainda não tem um plano estratégico elaborado como seus idealizadores almejam, contudo já começaram a elaborar um projeto mais complexo pensando no futuro que a publicação alcançou no estado da Bahia e que pode repercutir no Nordeste.
RENOVAÇÃO - O surgimento da revista SIM! (PE) se deu paralelamente ao desenvolvimento de um projeto da Mirai Comunicação (detentora da publicação) para um badalado restaurante de Pernambuco, que constava de vários arquitetos e decoradores apresentando uma proposta que renovasse a entrada do estabelecimento gastronômico. Essa proposta não só agradava não só ao público do restaurante como também esses profissionais envolvidos no projeto que viam seus nomes divulgados nessa proposta editorial. “Daí percebemos a necessidade de um veiculo focado nesse mercado que tivesse o objetivo de divulgar, informar notícias do mercado de arquitetura, decoração, design, artes e construção nas cidades de Recife, João Pessoa, Natal, Maceió”, lembra a diretora de arte da SIM!, Patrícia Marinho. Os leitores SIM! são profissionais e empresários desse setor e, por isso, a revista enfoca ações referente à arquitetura, design, arte, construção, decoração, paisagens e tudo que se acredita de interesse afins dos nossos leitores, com distribuição dirigida.
"Diferente de outras publicações que utilizam a permuta como moeda de troca para a realização de seu trabalho, não trabalhamos com esse sistema. Produzir revista é muito caro e trabalhoso, por isso não utilizamos a prática”, enfatiza Marinho.
CULINÁRIA: UM ASSUNTO DA MODA
A Engenho (PE) é a caçulinha do mercado editorial nordestino e a primeira e única no Nordesre voltada à culinária. Inaugurada há um mês, a revista começou a ser idealizada e projetada em 2003, durante conversa entre os empreendedores da publicação e chefs de cozinha. Ela vem suprir uma lacuna: considerada a terceira maior praça gastronômica do Brasil, Recife não contava ainda com uma revista especializada. “Anteriormente, os leitores locais ficavam limitados à leitura, por exemplo, da Gula, uma ótima revista, sem dúvidas, mas profundamente marcada por uma visão bem paulistana. Percebemos esta lacuna editorial e começamos a desenvolver a Engenho Cozinhas em Pernambuco com o objetivo de informar com critério e ética, contribuindo para difundir e valorizar o setor gastronômico pernambucano. Hoje, temos a Engenho, que tem uma cara pernambucana”, coloca o editor, Bruno Albertim. Mas, além do tradicional conteúdo de uma publicação gastronômica, o assunto alimentação é utilizado pela equipe de jornalismo como premissa para tratar de cultura, história, antropologia, comportamento, etc., como vocês podem observar na própria revista.
A capa de estréia, por exemplo, traça um panorama da mesa brasileira em 500 anos de história. E como culinária é hoje um assunto da moda, pois cozinhar é um gesto charmoso uma das seções traz uma personalidade mostrando sua cozinha e falando sobre sua relação com a mesa. E, para mostrar essa nova visão da gastronomia em tempos modernos, seus realizadores estão fazendo uma distribuição dirigida dos primeiros números da publicação, que está sendo vendida apenas nas principais livrarias da cidade (como a Cultura e a Arraial). “O públicoalvo da Engenho é o leitor que se interessa por gastronomia. Isso é bom e ruim porque pode torná-la uma publicação passageira. Mas também pode ser a porta de entrada para uma incursão mais consistente pelas possibilidades do paladar. É preciso ler, se informar e pensar sobre o que comemos pois a comida revela que povo podemos ser”, enfatiza Albertim.
Para fidelizar o público-alvo, os empreendedores da Engenho estão direcionando até o final do ano a divulgação da revista nas mãos de opinião como imprensa especializada; veículos de comunicação; indústrias de alimentos no geral; restaurantes; lojas e casas de turismo, lazer e entretenimento (parques, bares e afins); além de hotéis, salas vips de aeroportos e um mailing vip dirigido a destaques da sociedade pernambucana. “Apostamos numa distribuição eficiente e na mídia do produto para atrair nossos parceiros e anunciantes”, reforça o diretor de marketing, Leonardo Barbosa.

Tomando por base esses exemplos, observamos que, num sentido mais amplo, as publicações nordestinas - mais do que ajudar na formação e no desbravamento do público dessa região tão miscigenada - têm funcionado para descentralizar a produção de informações que ainda está muito atrelada ao eixo Rio/SP. O Nordeste contribui para a circulação da mensagem de anunciantes e profissionais por canais indiretos à grande imprensa nacional, participando do fluxo de distribuição do meio com pelo menos cerca de 100 publicações. En-tretanto, pouco se conhece e se fala a respeito dessa produção voltada a um público segmentado que cada vez mais vem crescendo no cenário da comunicação brasileira. “Acho que temos boas publicações e, como a maioria dos profissionais de comunicação, acredito neste mercado. Mas, entre outras coisas, precisamos que o empresariado aprenda valorizar as boas e novas coisas da região, pois nossos veículos formam bons leitores e bons consumidores”, encerra Leonardo.

 

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