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pe360graus
   Ano V | 15 outubro - 15 novembro de 2004 | nº 61 | Capa: Mente Criativa
     
FOCO NA VIOLÊNCIA
Patrícia Alves
 
Quando os jornais surgiram, as imagens apresentadas neles eram raras. No entanto, com o advento da fotografia, o cenário jornalístico mudou radicalmente, pois através dele se consegue registrar e reproduzir com fidelidade fatos, pessoas ou objetos. O uso da fotografia jornalística data do final do século XIX e, hoje, através do fotojornalismo, o leitor pode ter acesso a informações mais consistentes e objetivas dos fatos ocorridos. Com base na violência social do país e no impacto que as fotografias causam no leitor, a jornalista Juliana Holanda realizou seu trabalho de conclusão do curso de Jornalismo, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). O ensaio intitulado de “Violência em foco”, analisou semiologicamente as formas como a violência vem sendo transmitida para a população pernambucana através da mídia impressa. “O que me chamou a atenção foi o aumento dos índices de violência no estado e a passividade com que os pernambucanos encaram essa violência”, analisa.
Segundo Julian Calder & John Garret, autores do livro Manual de Fotografia em 35 mm, “para qualquer página de jornal, uma fotografia reveste-se da mesma importância de uma notícia de última hora”. Juliana Holanda observou que existe uma “inflação” de imagens que tematizam catástrofes, acidentes, homicídios e atos sádicos na imprensa pernambucana. Isso reflete um processo de vedetização das violências reais. De acordo com o sociólogo e antropólogo Edgard Morim o interesse por esses temas funciona como uma espécie de catarse do leitor. Hoje, fontes como corpo de bombeiros, hospitais e delegacias de polícia, são presenças constantes na pauta da mídia. Foram analisadas trinta fotografias, sobre violência física e catástrofes, publicadas nos três jornais de maior circulação de Pernambuco: Folha de Pernambuco, Diario de Pernambuco e Jornal do Commercio, no período de 12 de março a 12 de abril de 2004. As datas da pesquisa foram propositais, pois o início das análises correspondiam ao dia posterior ao atentado terrorista no metrô de Madri e à divulgação do balanço da violência no estado, durante o feriado da Semana Santa. “O 11 de março de 2004, data do atentado terrorista ao metrô de Madri, tornou-se, sem dúvida, uma data de importância histórica para o mundo” conta.

O estudo compreendeu a observação de questões conotativas e denotativas das imagens e dos textos que a acompanhavam para poder entender como a violência é utilizada pelos meios de comunicação impressos, em Pernambuco. Nas observações, a jornalista examinou o chamado “punctum”, algo que chama o olhar para a foto na concepção do semiólogo francês Roland Barthes, em sua obra “A câmara clara”. Desse punctum, foram observados os seguintes aspectos: breve histórico sobre a evolução do fotojornalismo, com ênfase no contexto brasileiro; apresentação de dados estatísticos sobre a violência no mundo e a abordagem do tema na mídia e a análise propriamente dita, que compreende a observação sistemática dos elementos significantes que contribuem para o impacto visual da fotografia. Notou-se que as imagens de violência, às quais os pernambucanos têm acesso, dependem da classe social a que eles pertencem e ao meio impresso ao qual se tem acesso.

Os três jornais impressos analisados apresentam características distintas em suas publicações, que levam a diferentes formas de recepção. Para as classes sociais A e B, os jornais trazem a violência internacional e o terrorismo, que estão distantes do leitor. Já as fotografias às quais as classes sociais mais baixas têm acesso trazem a violência da periferia. É a violência que acontece no dia-a-dia das comunidades em que elas vivem e que pode atingir não só a elas, como a seus amigos, vizinhos e parentes. Nesse caso, é usada a “foto-choque”, em que a imagem deixa de ser um registro e transforma-se em espetáculo.
     
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