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pe360graus
   Ano VI | 15 fevereiro - 15 março de 2005 | nº 64 | Capa: Intertotal
     
SÍNDROME DE CELEBRIDADE
 

Pensei que o ano 2000 ia chegar e isso ia consolidar a chegada do futuro. E futuro sempre significou evolução. Pelo menos pra mim. E não estou falando de evolução tecnológica, mas de evolução humana, espiritual. Só que parece que aconteceu o contrário. As pessoas estão cada vez mais fúteis, mais descartáveis, mais superficiais. É triste, mas estamos vivendo uma epidemia com proporções astronômicas, uma verdadeira síndrome de celebridade. Os reality shows infestam a programação da maioria das emissoras. As pessoas têm perdido a noção de ridículo, e tentam de tudo pra se tornarem conhecidas. Não conhecidas por um trabalho, por uma realização, por uma idéia, mas conhecidas.

Depois surgiram os fotologs. Aliás, conheço alguns fotologs legais, de pessoas que os usam para divulgar idéias, trabalhos, etc. Mas a síndrome é tamanha que, hoje em dia, 99,9% dos fotologs são de pessoas completamente desinteressantes, interessadas em expor o ridículo de suas vidas. Até aí, tudo bem, não tenho nada a ver com isso. Só que a síndrome invadiu a minha profissão, e aí pra mim já é demais. Hoje em dia, ser publicitário é quase como ter uma Harley Davidson, é sinônimo de status, life style, alternatividade. Algo que começou a acontecer com Washington Olivetto, Duda Mendonça e Nizan Guanaes, que se tornaram celebridades (não por vontade, mas por conseqüência), na época em que os grandes publicitários ainda se orgulhavam de seus suspensórios coloridos. E que se concretizou, é claro, com mais um reality show, O Aprendiz, de Roberto Justus (este por vontade, não por conseqüência).

Tem muita gente que está tentando estágio em criação ou que já é funcionário efetivo de agência que quer vida de publicitário, mas não quer trabalhar. Quer ter uma turminha legal, ter um ambiente divertido, olhar um outdoor e dizer pra todo o mundo: “fui eu quem fiz”, mas não quer sentar e encontrar, de verdade, uma solução para seu cliente. Muito se discute sobre uma crise de boas idéias que o mercado está passando. Pode ser uma conseqüência dessa síndrome. Vamos encarar a publicidade como um negócio. Lembra quando a gente era adolescente, levava uma mulher pra cama, e só gozava mesmo quando contava pros amigos? Pois é, tem gente fazendo o mesmo dentro da agência.

Temos que encarar o nosso trabalho como uma profissão, e arrumar soluções para nossos clientes, independentemente da galera lá do happy hour gostar ou não. Se o público-alvo gostou, ninguém mais precisa. Você fez o seu trabalho. Dá pra ganhar leão em Cannes com campanha que foi aprovada e veiculada. Não uma vez perdida no intervalo da sessão de gala, mas no horário nobre, durante o mês inteiro. Vamos deixar de querer ser as estrelas e voltar aos bastidores, que é o nosso lugar. E se você é daqueles que está na área apenas pelo glamour, é melhor rever seus conceitos. Um dia seu diretor de criação descobre que você não é assim, uma Brastemp.


     
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