| Assim como todos os meios de comunicação, a origem e o processo evolutivo da arte e do mercado de fotografia está envolto em vários prós e contras nunca imaginados pelo chinês Mo Tzu (século V a.C), a quem se atribui a criação do princípio ótico; ou pelo visionário Aristóteles (384- 322 a.C), responsável pelos primeiros comentários esquemáticos da Câmera Obscura (primeira descoberta fundamental desse princípio ótico transformado em meio artístico e produto); ou a descrição detalhada da câmara escura como auxílio ao desenho e à pintura de Leonardo da Vinci (1452-1519), publicada em seu livro de notas sobre os espelhos, em 1797. Depois disso, muitos estudiosos e curiosos passaram a analisar mais a fundo o processo de captação de imagem, evoluindo para o trabalho de impressão em papel (mergulhado em nitrato e cloreto de prata), criação de produtos que permitissem a permanência da imagem final no papel e o desenvolvimento das primeiras câmeras portáteis, que mudou completamente a forma de se usar essa arte.
Portadora de natureza ambígua e variada, a fotografia pode ser avaliada segundo um duplo referencial: do produtor que a concebe (o fotógrafo) e do objeto que a produz, a máquina fotográfica (e todo o conjunto de recursos técnicos à disposição do fotógrafo), sempre revelando coisas novas apesar da sua longa existência. E também pode ser avaliada do ponto de vista do fotógrafo que a transforma em arte, informação, documentação, memória, segredo, descoberta, produto, etc. Entretanto, independentemente do foco com o qual se trabalha, a fotografia está sempre revelando coisas novas em função das influências de correntes estéticas que foram surgindo durante os 150 anos do seu desenvolvimento técnico. “A fotografia sempre esteve associada à idéia de arte. Ela não é apenas um mero registro dos acontecimentos do momento. É muito mais do que isso e, a cada dia, as pessoas estão resgatando esse conceito, quebrando inclusive a idéia de que esta seja uma arte menor”, afirma Renato Filho, fotógrafo pernambucano que atua há quase 20 anos no mercado regional. |

Carolina Borba (BA) |
No começo do boom da fotografia no Brasil, entre 1840 e 1900, atuavam no Brasil cerca de 120 fotógrafos profissionais que em sua maioria trabalhavam na cidade do Rio de Janeiro. Hoje, o número de profissionais desse mercado é incalculável em função da falta de registro concreto de quantas pessoas vêm atuando pelas próprias associações como a Associação Brasileira de Fotógrafos Publicitários (Abrafoto), Associação Brasileira de Arte Fotográfica (Abaf) e sindicatos em todo o país , que não têm como controlar aqueles considerados amadores e não registrados. “Muitos que estão entrando nesse mercado acham que os lucros são altos e que as despesas são baixas, mas isso é pura ilusão. Todo e qualquer equipamento para se realizar um bom trabalho em qualquer área do mercado implica investimentos, pois as peças são caras e é necessário se adequar às novas tecnologias, sempre”, explica Henrique Pontual, da H. Pontual Produções Fotográficas (PE).
Contudo, índices econômicos demonstram que esse é um setor bastante promissor que vem faturando para a grande indústria uma média de R$ 3,5 bilhões, nos últimos cinco anos. Com isso, o Brasil representa o oitavo maior mercado consumidor de produtos fotográficos do mundo, contribuindo continuamente com um crescimento de 5% da indústria. “Falar de mercado de fotografia brasileiro é falar de economia nacional. Na verdade, uma coisa depende da outra. Sempre que o Brasil cresce, a demanda por serviços fotográficos aumenta, o que alimenta o setor. Por isso, o que falta não é demanda por fotos, mas capacidade financeira por parte dos clientes para investir nisso, principalmente quando o Brasil passa por alguma crise econômica ou algum período crítico”, diz a baiana Caroline Borba.
Henrique Pontual |
Tendência Atual - A crescente integração de novas caras ao mundo da fotografia tem sido, em parte, reflexo de uma grande novidade do mercado que facilita cada vez a vida dos profissionais que já atuam na área (como também daqueles que vêem nessa atividade seu ponto de destino): a câmera digital. Além de não usarem filmes, mas sim um cartão de memória, elas possuem inúmeros recursos e, por isso, são uma nova tendência do segmento, atendendo a amadores e profissionais. “Com certeza, a digitalização completa dos serviços prestados dentro de um curtíssimo espaço de tempo é a maior tendência do mercado de fotografia no Brasil, hoje”, ressalta a fotógrafa catarinense Denise França, do Studio Egregora, que atua no Nordeste há três anos.
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| Contudo, o que parece fácil pode ser bem mais difícil do que muitos pensam, pois existe uma série de peculiaridades que ficam reservadas aos bastidores da atividade como a educação do olhar para criar a imagem ideal, o conhecimento técnico para ousar com maestria (possível até mesmo nas câmeras digitais) e a manipulação da imagem descarregada no computador, necessidade mais do que essencial para a apresentação do produto final ao cliente. |
“Em todos os sentidos, o mercado tem sofrido mudanças bruscas que vêm exigindo do profissional uma capacitação muito maior. Hoje, é necessário que o profissional da fotografia se especialize e tenha consciência do valor real do seu produto. Caso contrário será banido do mercado”, afirma o potiguar Canindé Soares, que tem 25 anos de estrada.
Concorrência Acirrada - De fato, a praticidade tem facilitado muito a vida dos profissionais ou interessados em fotografia, pois a grande maioria das câmeras modernas possui um visor de cristal líquido onde é possível ver a imagem após o click da foto, permitindo repeti-la ou apagá-la, caso o usuário deseje. |

Canindé Soares, 25 anos de estrada |
Assim, as fotos escolhidas podem ser gravadas em CD, disquetes ou impressas em papel com excelente qualidade. E é essa novidade que vem levando um universo cada vez maior de jovens ao mundo fascinante da fotografia, que correm atrás do desejo de se envolver nessa diferente carreira e alcançar o patamar de grandes estrelas das lentes como os renomados Bob Wolfenson, J.R Duran e Sebastião Salgado. “Aventureiros e fotógrafos sazonais são um grande problema para a categoria e segmento. Tem muita gente por aí que se diz fotógrafo, mas não tem bagagem suficiente para isso. Por praticar preços muito baixos, alguns até ganham certas concorrências, mas não conseguem se manter no mercado. Desapontam os clientes e voltam a suas atividades de origem ou vão perturbar em outras áreas. Mas não sem antes desestabilizar o mercado, que passa a se basear nos preços desses amadores”, comenta Gilvan Barreto, da Lumiar Fotografias (PE), agência com 10 anos de batente no mercado regional.
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Gilvan Barreto: somos valorizados e reconhecidos no Sudeste
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Denise França, da Studio Egregora |
Essa falta de profissionalismo é outra faceta da modernização do mercado de fotografia no Nordeste, que tem desapontado profissionais sérios e prejudicado a imagem do setor. “Uma das maiores dificuldades é competir contra orçamentos absurdamente baixos de alguns fotógrafos, e ainda manter a qualidade do serviço. Além disso, a necessidade de constantes investimentos, na era digital em que vivemos, exige aporte considerável de recursos. Mas deve ser assim para que se ofereça o melhor serviço possível ao cliente”, destaca Denise França. |
Renato Filho: a concorrência desleal prejudica a imagem do fotógrafo |
E é contra isso que muitos têm lutado. Afinal, isso provoca um nivelamento por baixo da qualidade do produto e rebaixa a valorização da categoria. “A concorrência desleal de muitos que atuam na área prejudica a imagem do fotógrafo que mantém postura ética e profissional. Afinal, o valor do trabalho de um fotógrafo deve ser medido pelo seu olhar, pela sua capacidade de composição e pela sua assinatura”, ressalta Renato Filho. |
Mercado Publicitário - “O mercado publicitário dispõe de dois fortes instrumentos para criação das campanhas que são os bancos de imagem e os fotógrafos. Entretanto, nem sempre é viável trabalhar com os bancos porque a criação da agência acaba muitas vezes sendo obrigada a criar em função da imagem. Mas, quando se trabalha com um fotógrafo você cria exatamente dentro do conceito que se deseja, pois o profissional se adequa à necessidade da agência”, destaca a diretora de criação da Creatto Comunicação (PE), Samara Menezes. Em grande parte, um dos fatores que têm contribuído para essa concorrência acirrada e desleal é o desejo de abocanhar o rico mercado publicitário que é responsável por 70% do faturamento do mercado de fotografia.
Esse segmento detém a atenção total de 5% de todos os profissionais do setor no Nordeste, porque é na publicidade que é possível se conseguir maior remuneração pelos trabalhos realizados. “Apesar de termos à mão um leque grande de profissionais, optamos sempre por trabalhar com aqueles fotógrafos que já conhecemos por conta da qualidade do produto que queremos imprimir à campanha. Os orçamentos não são baratos, mas o resultado do trabalho é válido”, ressalta o diretor de arte da Art&C (RN), Modrack Freire.
Por conta disso, não há unidade no método de trabalho no cenário nordestino e cada profissional age de uma forma, seja mantendo o tradicionalismo ou apostando em novidades técnicas e de linguagem que vêm sendo desenvolvidas em mercados mais promissores, como São Paulo. Entretanto, os profissionais não conseguem correr atrás de tudo que se faz fora em virtude das diferenças dos mercados do Sudeste e Nordeste. Um exemplo é a ebulição de possibilidades que se encontra em São Paulo que não é visto aqui, como exposições maiores, contratos mais gordos, variedade de cursos de especialização na área e acesso a informações sobre o mercado internacional. “Estamos ainda muito atrasados, temos muito espaço para crescer e isso está acontecendo, aos poucos. Mas o problema é que, enquanto não chegarmos a um patamar mais seguro e estável para a categoria, teremos muitos prejuízos na expansão desta arte na região. Ainda assim, a qualidade da nossa imagem é muito boa e, de uma maneira geral, somos mais valorizados e reconhecidos no Sudeste do que no nosso próprio local de trabalho”, destaca Gilvan Barreto.
Ao Nordeste, deve-se o crédito de tentar realizar bons projetos e buscar suas próprias iniciativas, executadas de forma simples, mas que conseguem ser interessantes e adaptadas à realidade da região. “O Nordeste tem excelentes profissionais, mas ainda faltam oportunidades para todos se inserirem nesse nicho de mercado, porque a verba na região é pequena e a maior parte dos investimentos de publicidade fica concentrada no Sudeste”, aponta Henrique Pontual, responsável por trabalhos para clientes como a Vitarella Indústria Alimentícia e que se especializou em foto publicitária, sendo, inclusive, um dos três únicos fotógrafos de Pernambuco filiado à Abrafoto, entidade rígida que qualifica através de um certificado profissionais adequados a atuar no ramo da publicidade. |
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Bruno Ribeiro: a amplitude da mídia impressa tem despertado mai a atenção da categoria para o fotojornalismo
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FotoJornalismo - Mas, apesar da publicidade absorver muitos profissionais, outras duas áreas têm se mantido no foco dos fotógrafos nordestinos: o jornalismo e a foto-artística. “Hoje, existe um leque de opções de áreas de trabalho para os profissionais de fotografia, como artes, jornalismo, social e publicidade, setor na qual atuo. Mas acredito que aquela que tem despertado mais a atenção da categoria agora é mais o fotojornalismo, por causa da amplitude da mídia impressa, jornais e revistas”, argumenta o baiano Bruno Ribeiro. Entretanto, diferente da publicidade, o fotojornalista não está atrás de projeção ou de lucros altos, mas sim, satisfazer a paixão de captar tudo o que o emociona, retratando o cotidiano com ética, bom senso e amor. |
“Cada dia tem mais profissionais com qualidade a fim de mostrar seus trabalhos e isso é o que mantém viva a chama romântica do fotojornalismo, em qualquer estado do mundo. É só o mercado aproveitar, treinar e remunerar bem, nivelando por cima suas empresas de mídias impressas”, afirma o fotógrafo do jornal A Tarde (BA), Edmar Melo, que começou a carreira em 1987 fazendo quase tudo em fotojornalismo (polícia, esportes, geral e social). Esse é o mesmo sentimento que levou diversos fotógrafos vinculados a grandes redes de notícias não se intimidarem pelo medo da morte e cobrirem de perto o dia-a-dia das guerras dos últimos cinqüenta anos (como a II Guerra Mundial, Guerra da Coréia, Vietnã e Guerra do Golfo).
Como nem tudo são flores, esse segmento da fotografia também enfrenta dificuldades peculiares: os meios impressos sofrem mudanças radicais em função da globalização, dos avanços tecnológicos e da necessidade por informações instantâneas. Hoje, todos os veículos correm atrás do processo de digitalização para não ficar atrás da concorrência e, com isso, muitos dos jornais em atuação na região vão dispensando o uso de foto nos seus formatos eletrônicos para tornar as páginas mais leves e mais acessíveis aos internautas. “Toda e qualquer dificuldade poderia não afetar os fotojornalistas se os donos de jornais e os políticos de nossa tão maltratada região acreditassem e investissem nos jornais como um 'produto' concreto. É preciso excelência em qualidade, respeito à categoria e encantamento para com os clientes/leitores, para poder encarar a concorrência da velocidade das notícias na internet e das TVs em igualdade de condições”, destaca Edmar.
Possibilidades Alternativas
Entretanto, a nova sedução das lentes também revela um resgate do princípio da fotografia com a busca alternativa de alguns profissionais desse diversificado mercado pela beleza artística da imagem capturada pelas câmeras. Essa possibilidade de atuação ainda vem crescendo de forma tímida no Nordeste, inspirada por papas da fotografia (como Pierre Verger e o próprio Sebastião Salgado) que mostraram como imagens corriqueiras do dia-a-dia podem expressar um caráter imaterial e belo. “Comecei a me envolver pela imagem desde pequeno e passei um bom período de minha infância com o 'Mario Cravo Neto', que é um grande fotógrafo e, até hoje, meu grande mestre de foto arte”, revela o pernambucano Thomas Baccaro, que começou a levar a fotografia como carreira aos 17 anos.
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Tomas Baccaro |
A fotografia como manifestação artística é considerada um trabalho de caráter bastante pessoal, pois, na maior parte do tempo, não está sujeita à demanda de agências, jornais ou grandes empresas. “Fotografo o que quero (normalmente nu artístico), quem eu quero, como eu quero, com a finalidade que quero. Mas, normalmente, esse meu trabalho autoral é desenvolvido com o objetivo de expor, publicar em revistas e participar de concursos. A venda vem como conseqüência. É bom ser meu próprio chefe e cliente”, comenta a baiana Caroline Borba.
Contudo, quem se insere nesse segmento não está além das dificuldades, mas pode tentar transformá-las na força motriz ou nas principais características do trabalho. Afinal, assim como qualquer trabalho fotográfico, a foto-arte implica investimento em recursos como câmeras adequadas, equipamentos de luz, lentes, filtros, etc. “Comecei a fotografar nu artístico sem dinheiro para cobrir cachê de modelo ou recursos para ter os equipamentos de luz, a câmera que precisava e muito menos um estúdio profissional. Então, passei a lidar com esse tipo de limitação, revertendo-o ao meu favor. Experimentei todo tipo de luz que se pode imaginar e consegui efeitos inacreditáveis”, lembra Caroline que hoje desenvolve curadoria e promoção de exposições e eventos fotográficos de profissionais brasileiros nos quatro cantos do mundo, além de ocupar o cargo de diretora-representante do Itimuseum (Museu de Arte e Cultura Itinerante, sediado na Argentina). |
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