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pe360graus
   Ano VI | 15 março - 15 abril de 2005 | nº 65 | Capa: Mv2
     
SOU SIM. E DAÍ?
Raoni Leão Artecetera (AL)
 

No início eu era uma criança como outra qualquer, meus pais tiveram orgulho de ter um bebê forte e saudável, eles não podiam imaginar que num futuro próximo eu iria decepcioná-los.

Eu comecei a andar cedo, levava queda, me sujava, chorava ao passar merthiolate como qualquer criança normal. Foi brincando com meus amiguinhos que apareceram os primeiros sinais, minha mãe até desconfiou, mas como toda mãe, fez vista grossa. Eu realmente era diferente, enxergava as coisas diferentemente dos outros. Na adolescência já era notável, minha família começou a comentar, todo o mundo dizia que eu era enrustido e isso passou a me incomodar. Eu passava horas pensando, tentando desesperadamente achar a resposta, afinal, eu era? Ou não era? Decidi procurar um psicólogo, foi muita terapia, remédios pra depressão e tempo gastos em vão. Certo dia segurando uma caneta, daquela de ponta grossa, comecei a manusear aquele troço, me subiu uma coisa, coisas vinham na minha cabeça e ia concentrando tudo naquela ponta grossa, quando dei por mim, estava lá, aquele líquido no papel, expelido por aquela caneta de ponta grossa que manuseei com tanto carinho, eu estava nas nuvens, era o meu primeiro êxtase.

Pronto. Acabaram as dúvidas, EU REALMENTE ERA, agora vinha o receio, a vergonha do preconceito, mas eu tinha que assumir, era mais forte que eu. Resolvi contar para os meus pais, passei noites sem dormir pensando naquela decisiva conversa que poderia mudar o rumo da minha vida, eu ia deixar de ser enrustido, era uma decisão muito difícil, mas criei coragem, ensaiei algumas vezes na frente do espelho, reuni meu pai, minha mãe e minhas irmãs na sala, fiz uns arrodeios, gaguejei, minha mãe já desconfiava e começou a chorar antes mesmo de eu dizer e acabou me deixando mais nervoso, meu pai como sempre autoritário ficou só esperando, ele sabia, me olhava com desgosto e desprezo, minhas irmãs me olhavam com superioridade, me desesperei, não tinha mais pra onde correr, numa revolta súbita eu desabafei:

- TA BOOMMMM, EU ASSUMO, EU SOU CRIATIVOOOOOOOO!!!!!!!

Silêncio total.

Eu peguei a folha do meu primeiro êxtase e mostrei a todos o meu primeiro texto criativo, a prova estava lá, na frente de todos, molhada com as lágrimas de mamãe borrando meu título perfeito, foi aí que saí pela porta da sala e me entreguei de vez à criatividade. Vivemos felizes para sempre.

     
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