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Nos anos 70, quando a propaganda regional engatinhava, o sonho de toda agência nordestina era ter uma grife. Explico: poder ostentar no seu portifólio uma legenda de rodapé ou algo similar que informasse aos respeitáveis clientes e os não tão respeitáveis, também, que a empresa mantinha acordo operacional com uma grande agência paulista, de preferência uma multinacional. Nada mais elegante do que ostentar a grife McCann-Erikson, J. W Thompson ou mesmo Standard. Chique. A agência regional empolgada com a grife investia alguns trocados na operação: duas, três viagens de seus executivos a São Paulo, com hospedagem em hotel cinco estrelas, Ford Landau alugado, almoço no Rubayat ou jantar no Maximo's regado a um bom vinho italiano, o importante era impressionar o “sócio”. Investia-se semanas após essas, digamos, preliminares, num coquetelzinho para os clientes e fornecedores; convidava-se o gerente-comercial do jornal para garantir um anúncio de graça informando a boa nova do acordo.
A essas alturas o dono da agência, ele mesmo, entusiasmado com o negócio, prontificava-se a ir aos correios, dirigindo o seu carro para despachar o malote com as solicitações do “sócio” paulista. Um favor aqui, outro acolá. Meses após, quando o dono constatava que o malote só tinha ida delegava a operação ao seu executivo de atendimento, que por sua vez, incumbia o boy, até o dia em que se dava ao trabalho de fazer umas contas e descobria que a tão badalada “sociedade” era o tipo de acordo que o povo chamava de Caracu (marca de uma cerveja preta, então, muito bem aceita no Nordeste).
Não sei o significado desse tal acordo Caracu, suponho que alguém entrava com a cara. Posso até imaginar o resto, ainda que não faça muita questão, pois esta é uma revista decente pelo que me consta. Nesse caso, melhor mudar de assunto. O fato é que trinta anos depois surge uma outra modalidade de “parceria” que, se formos examinar de perto, é “parceria” mesmo, no sentido devasso da palavra. Deixa para lá. Bom, como ia dizendo as agências regionais deixaram de atender às contas de operadoras de telefonia, concessionárias de energia e, no embalo da globalização, outros negócios.
As agências, então, perderam as contas para os seus futuros “sócios” que um dia firmaram novo acordo operacional, tão bonzinhos. Desta vez com malote de ida e volta, e-mail também em via dupla, MSN e tudo mais que o “caso” requer. Voltaram a atender à conta que era sua, agora na nobre condição de associadas das agências paulistas, com um terço ou um quarto da taxa de remuneração do passado, mas isso é besteira. Tenho a impressão de que o saudoso acordo Caracu deu lugar a uma modalidade mais moderna, fashion onde você entra com a bunda e eles entram com o chute. |