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   Ano VI | 15 junho - 15 julho de 2005 | nº 68 | Capa: Propeg (BA)
     
NOS EMBALOS DAS CIFRAS MUSICAIS
Ivelise Gomes

No universo da música, tudo que se cria é ouro. Que o digam os gangstars rappers, as Britneys Spears e os N'Sync do mundo. Nunca esse nicho de mercado foi tão lucrativo, em todos os sentidos, como nos dias de hoje. E esse movimento é bem superior aos ganhos do passado de estrelas como Frank Synatra, ou Elvis Presley, Beatles e Michael Jackson. Ele envolve amplo universo de possibilidades como vendas de discos, dvds, participações acionárias em royalties de músicas, ingressos de shows, patrocínio de eventos musicais e realização de projetos de música (festivais, programas de televisão, etc.). Para se ter idéia do poder desse setor atualmente, o mercado de música gera 30 bilhões de dólares no mundo, faturando, por exemplo, cerca de 258 milhões de Euros na Áustria e 40 milhões na França. Já o brasileiro, mesmo atuando de forma mais discreta e descentralizada, representa o 12º mercado fonográfico do mundo, com um montante de um bilhão de dólares.

 
  JesuínoAndre de Oliveira, diretor da Musiclands Record (PB)

O mercado brasileiro é considerado um dos mais dinâmicos do mundo, devido à alta qualidade da música dos nossos artistas. Entretanto, apesar de conseguirmos abrir espaços para a criação musical brasileira, muitas vezes não somos capazes de gerir os negócios de maneira competente e lucrativa. E é por causa dessa inexistência de "empresários" verdadeiramente profissionais que a Universidade Estácio de Sá, do Rio de Janeiro, criou o curso de pós-graduação em “Gestão de projetos musicais”, que vem preencher a lacuna de formação dos profissionais que trabalham nesse universo.

Pode parecer brincadeira, mas os bastidores dessa esfera são tão complexos que já viraram tema de filmes como “A Festa nunca termina” (“24h Party People”, Inglaterra: 2003), em que o produtor musical e apresentador inglês Tony Wilson (que empresariou os grupos Joy Division, New Order e Happy Mondays) mostra os meandros do mercado de música na Inglaterra, juntamente com suas dificuldades e estratégias de marketing, que muitas vezes são infrutíferas perante o poder de articulação da grande indústria. E isso porque, exceto os profissionais vinculados às grandes gravadoras e produtoras, muitos dos que atuam na área são produtores de batente que organizam festivais, shows, concertos, recitais, bailes, eventos, jingles, festas, trilhas sonoras, cds, material audiovisual e outros programas musicais, de acordo com o aprendizado informal do seu trabalho.


E é por isso que em todo o Brasil se realizam fóruns para discutir o mercado de música no País e pensar em estratégias para sobrevivência daqueles que estão à margem da indústria, como o movimento Nordeste Independente, que representa um conglomerado de produtores, bandas, jornalistas e diversos outros envolvidos com a música como atração, trabalhando inclusive com poucos recursos e limitando suas ações de acordo com o que pode explorar. “Os investimentos nessa área têm abrangência limitada. Nossas produções acontecem com o apoio das empresas privadas, porque há também o descaso do governo perante certas políticas culturais. Para ser mais exato, o governo e suas instituições públicas pouco fazem”, expõe Jesuíno.

MATURIDADE - Por isso, é necessário adotar estratégias diversas focadas, principalmente, na imagem dos artistas que precisam ter credibilidade junto ao público, seja ele renomado ou não. Isto porque hoje o público é mais informado, atento e exigente, seja para fazer um artista, disco ou evento um sucesso. “Quando se trabalha a produção de artistas e bandas, precisa-se articular uma série de estratégias para fazê-los um produto de interesse do público. Uma música é sucesso em 15 dias e em 30 dias ela já não é mais”, comenta o diretor da Selva Nua Produções (PE), Arlindo Cross, que representa as bandas Carta de Baralho, Silhueta e Espelho Meu. O produtor pernambucano tem que pensar em tudo que é possível para promover os artistas sem desgastar suas imagens e esse planejamento envolve até pequenos detalhes como a composição dos grupos, o perfil dos artistas, os figurinos, os cds e dvds promocionais de divulgação, a participação em programas de TV e rádio, em especial, das rádios comunitárias. Estas se tornaram um grande canal de divulgação das suas bandas, pois, em muitos casos, são elas que dão espaço para as bandas alternativas entrarem no mercado.


Naturalmente, depois de anos de trabalho, os frutos são compensadores, pois a visibilidade, a credibilidade e as facilidades de fechar outros projetos se tornam maiores. Essa é a realidade hoje da Astronave Iniciativas Culturais, uma produtora de eventos (responsável pelo Abril Pro Rock, Porto Musical, Microfonia, etc.). Atuando há mais de 10 anos, a empresa mantém selo, editora e desenvolve a carreira nacional e internacional de bandas pernambucanas, organizando turnês. Além disso, a Astronave trabalha com o DJ Dolores e Aparelhagem e Cabruêra para o Brasil e exterior e com Siba e a Fuloresta e Nação Zumbi para o exterior. Entretanto, o trabalho de organização de eventos (que também consagrou a produtora) envolve diversas etapas na pré-produção, produção e pós-produção como definição de programação, captação de recursos, fornecedores, comunicação e marketing cultural. “A maior dificuldade sem dúvida é granjear patrocínios para os eventos, por conta da distância do coorporativo das empresas, que está no eixo. E assim ele não percebe a importância de um evento para sua região e até para o Brasil todo. Mas tentamos superar esta dificuldade trabalhando com empresas como a AmplaPromo, que faz marketing cultural e captação de recursos. A 'empresa-promo' tem sido fundamental nesta estratégia, na organização visual e na consolidação da imagem do evento”, destaca a diretora de marketing da Astronave Produções
(PE), Melinda Hickson.


Consolidação da imagem do evento e da produtora é uma luta de empresários do setor, que realmente tomaram a ajuda terceirizada como estratégia para somar na realização dos seus projetos. “Apesar de o mercado de produção cultural atualmente não contar com esta estrutura, precisamos envolver mais profissionais e prestadoras de serviço que falem a língua dos dois lados. Pessoas que entendam as necessidades das empresas em sua política de comunicação e também entendam a necessidade do fortalecimento da cultura dentro da sociedade. Quando encontramos profissionais com este perfil, tanto dentro das empresas patrocinadoras quanto envolvidos com as produções, o diálogo fica muito mais fácil e produtivo”, reforça o diretor da Gerador Music (CE), Thales Aragão, cuja principal atividade é a gestão da carreira de bandas, desde a gravação e distribuição dos fonogramas até a produção de turnês. A empresa tem conseguido apoio de órgãos e instituições alternativas como Governo do Estado do Ceará, Sesc-CE, Sebrae-CE e Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura para amenizar as dificuldades que têm prejudicado a realização dos seus trabalhos. “Existe sede de consumo, mas a oferta não cresce por falta de financiadores. Estes preferem, em sua maioria, financiar eventos que reúnem milhares de pessoas, mesmo estando dividindo espaço com dezenas de outras marcas e desembolsado cifras enormes. Vejo isso como uma estratégia, mesmo que eficaz para alguns produtos é um pouco amadora quanto aos seus reais resultados”, diz Thales.

 
Lúcia Melo, sócia-diretira da Ciranda Comunicativa (SE)  

VIABILIZAÇÃO - Investimentos de grandes marcas em eventos de repercussão são muito freqüentes como no caso do Palco Pernambuco, que chegou à sua terceira edição em abril passado, com a ousada proposta de realizar três itinerários distintos de shows com bandas locais e com artistas nacionais. Utilizando a mídia digital e a mídia espontânea, o evento conquistou notoriedade nacional ganhando filiais em São Paulo e no Rio de Janeiro. E, devido à projeção que recebeu, o Palco Pernambuco contou com o patrocínio de empresas fortes como a Infraero, a empresa de telefonia Oi, Baterias Moura, Nagem Informática, Vitarella e Tupan Materiais de Construção. “É o reconhecimento de um trabalho projetado totalmente por pernambucanos. Um projeto que só contaria com a participação desses artistas convidados”, afirma o produtor do projeto, Sílvio Pontual, um dos idealizadores do projeto. Outra novidade ficou por conta do formato do evento que, anteriormente, acontecia durante as férias de julho, sempre aos domingos. Mas, este ano, o Palco aconteceu em um único dia e em plena quinta-feira, no Directv Hall (SP), Ancoradouro (PE) e Circo Voador (RJ), respectivamente, nos dias 5, 19 e 26.

 
  Thales Aragão, diretor da Gerador Music (CE)

É por meio de apoios e muitos patrocínios que muitos eventos vão se desenvolvendo em todo o Nordeste, como o também recente 10º Circuito do Forró dos Sertanejos, cujos recursos foram obtidos com apoio da Empetur, Prefeitura do Recife, Chesf, Grupo Agemar, Pitu, Estação Sat e Bugaloo. Realizado no Clube Internacional do Recife em abril e maio passado, o projeto traz há 10 anos forró pé-de-serra em festas temáticas de diversas cidades do interior e do sertão pernambucano para a capital (como Afogados da Ingazeira, Salgueiro, Arcoverde e Serra Talhada). “O evento tem como objetivo promover, divulgar e apoiar a cultura musical e artística dos municípios do interior do Estado com shows que vão do forró pé-de-serra aos chamados forrós estilizados. E por isso o Circuito é uma grande vitrine, não só para os artistas locais como para as bandas de fora, que aproveitam essa temporada para divulgar seus cds, músicas de trabalho, além de garantir aumento nas suas agendas de shows”, diz o seu coordenador, Rubens Vaz. Para a realização do projeto, os coordenadores investiram mais de R$ 500 mil em infra-estrutura, contratação de bandas e divulgação. Como resultado, cerca de 100 mil pessoas curtiram a programação do projeto, durante os dois meses de festa.


O peso dos patrocinadores se tornou tão grande e tão importante que hoje eles podem criar suas próprias marcas culturais, reinventando uma nova imagem vinculada diretamente às suas ações estratégicas de marketing como faz a Claro. “A música é sem dúvida uma importante ferramenta de comunicação para a Claro e está presente em todas as ações da operadora junto ao público jovem”, coloca o diretor de marketing da empresa, Roberto Guenzburguer. Além de ter apoiado o Abril Pro Rock 2005 com o seu Claro que é Rock, a empresa de telefonia lançou no final de 2004 até o meio deste ano uma série de projetos relacionados à música que imprimem maior aproximação da marca com o público jovem: o Planet Pop Festival (realizado em São Paulo, em abril) e o Projeto Cidades, intercâmbio entre diferentes movimentos artísticos do Brasil.

NOVATOS DO PEDAÇO - Seguindo o exemplo das mais experientes, novas empresas vão investindo nesse segmento como a Publikimagem Comunicação e Empreendimentos Culturais, que vem atuando nas áreas de design, publicidade, assessoria de imprensa e empreendimentos culturais, em especial, promoção de eventos como o 5º e o 6º Festival Pinzón (em janeiro 2004 e 2005, respectivamente); a produção do Show de Fábio Jr., no Clube Português (em dezembro de 2004); e o Show do MPB4, no Teatro Guararapes (em novembro de 2004). Apesar das dificuldades de captação de recursos, a equipe tenta driblar o problema através da promoção de eventos abertos ao público, apoiados na Lei de Incentivo, ou através de empresas patrocinadoras. “Por um lado, é fácil trabalhar com música no Nordeste por conta da diversidade cultural e musical que temos. Por outro, há uma grande dificuldade para se conseguir patrocínios, pois existem poucos investimentos das grandes empresas para o Nordeste. Cerca de 90% desses recursos são dedicados ao eixo Sudeste-Sul”, destaca o sócio-diretor da Publikimagem, Pablo Magalhães.

Fundada em fevereiro deste ano, a Ciranda Comunicativa (SE) anda com a corda toda desenvolvendo produção de bandas e eventos musicais como shows e noites especiais com apresentação de Djs em boates de Aracaju. “Conseguir patrocinadores e locais para realização dos eventos são as maiores dificuldades. Mas, quando não conseguimos nenhum, pedimos dinheiro emprestado ou tiramos do bolso e contabilizamos isso como gasto de produção, fazer o quê? Além disso, estamos batalhando para licenciar um estúdio que tem uma área externa interessante para realização de eventos alternativos. E isso estamos quase conseguindo”, coloca a sócia-diretora da Ciranda Comunicativa (SE), Lícia Melo. Para atrair o público, a produtora direciona a propaganda dos eventos para veiculação das mídias de interesse do público-alvo dos projetos, que, nesse caso, são as mídias digitais e audiovisuais.

Outra experiência bastante centrada no seu público-alvo é da Coquetel Molotov (PE), que começou em 2001como um programa de rádio na Universitária AM. No ano seguinte, seus idealizadores criaram o site homônimo para colocar as entrevistas e matérias que não entravam no programa, além de iniciarem a produção de veículos impressos alternativos, festas e eventos como o "No Ar Coquetel Molotov" (que contou com a presença do Teenage Fanclub da Escócia e do Hell on Wheels da Suécia) e "Coquetel Molotov Independente". E, no final do ano passado, decidiram criar o selo Coquetel Molotov Discos que é lançado com o disco da banda Rádio de Outono, primeira a integrar o cast da produtora. “Eu acho que sofremos muito com o fato de sermos novos, pois todos envolvidos no Coquetel Molotov estão nos seus 20 e poucos anos. Então, é complicado ir para uma empresa de grande porte e passar credibilidade. Mas a forma que temos para superar isso é mostrando o que já foi realizado. Temos muita clipagem e isso ajuda bastante - matérias nos jornais locais, Folha de S.Paulo, Veja, sites e gravações da cobertura que a HBO Latina fez do festival No Ar, no ano passado. Isso ajuda bastante, mas não é o suficiente”, destaca uma das coordenadoras, Ana Garcia.

 
Pablo Magalhães, sócio-diretor da Plublikimagem  

MARCAS REGISTRADAS - Aproveitando o sucesso das conquistas alcançadas, as produtoras realmente estão deixando de lado o papel passivo e passaram a reagir para entrar na indústria fonográfica. É o caso das pernambucanas Candeeiro Records, Moondo Records e Fábrica Estúdios que se tornaram selos próprios e vêm conquistando visibilidade no mercado regional, pela variedade de parcerias com artistas e pela qualidade dos produtos editados e lançados. “Em nosso catálogo, temos três títulos 'Minha Lôa' de Naná Vasconcelos, 'Corega Check' do Suvaca diPrata e o 'Mauritstadt Dub' que é um cd duplo sendo o primeiro uma coletânea com artistas regionais (Lia de Itamaracá, Mestre Salustiano, Caju e Castanha, etc.) e o segundo com as versões remixadas destas músicas”, diz o sócio-diretor da Fábrica Estúdios, Joaquim Souza Leão, que cuida da produção e lançamento de cds, inclusive a elaboração do projeto do disco até a sua venda. Nesse processo, envolvem-se não só a definição do público-alvo e os meios em que o cd deve ser divulgado, como também o trabalho de imagem e comunicação do artista/banda (designer, fotógrafo, assessoria de marketing), divulgadores de rádios e uma boa assessoria de imprensa.Como o universo nordestino funciona de forma independente das regras rígidas da grande indústria fonográfica, o processo de trabalho entre os selos e os artistas varia de acordo com o histórico profissional e o perfil de cada job. “Estamos sempre recebendo material promocional de grupos novos e grupos já rodados, então, como não é possível lançar todos, fazemos uma seleção e editamos coletâneas em parceria, onde todos investem e ao mesmo tempo se divulgam”, comenta o diretor da Moondo Records, Edmundo Monte.

 
  Roberto Guenzburguer, diretor de marketing da Claro.

E quando este problema é solucionado surgem outros para tornar o processo de produção no Nordeste mais difícil, como a logística de distribuição. E, assim, os empresários do setor têm que criar e ousar para tornar possível a venda do produto final como estandes de discos em shows, parcerias com outras gravadoras (de médio e grande portes) e fechamento de contrato de comercialização em lojas e livrarias. “É notável que o mercado fonográfico não está fácil pra ninguém, mas os shows dos artistas ajudam e muito a vender seus respectivos cds e no Sudeste esse mercado é mais amplo e as possibilidades de divulgação/promoção também. Talvez por isso seja um pouco mais complicado desenvolver um selo no Nordeste, apesar de as músicas desenvolvidas no Nordeste não terem que ser divulgadas apenas na região. Tanto que nossa música tem tido uma aceitação muito boa no exterior. Nós temos dois discos do nosso catálogo distribuídos pela Sterns Music de Londres e várias compilações na Europa e América do Norte”, destaca o sócio-diretor da Candeeiro Records, Marcelo Soares, selo independente da Muzak Produções Sonoras que foi responsável pela trilha sonora do espetáculo A Máquina, de João Falcão, e o disco Contraditório do DJ Dolores e Orchestra Santa Massa.

     
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