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“Retratando Gangarras” é nome do ensaio fotográfico fruto do trabalho de conclusão de curso realizado pela jornalista Adriana Monteiro. Engana-se quem pensa que a jornalista recém-formada retrata em seu trabalho a vida das gangarras, ave amarela que faz um barulho estridente e é parecida com o papagaio. As gangarras fotografadas no trabalho se referem às pessoas que vivem na Vila do Bandeira, que fica no município de Brejo da Madre de Deus e perto da cidade de Santa Cruz do Capibaribe, no agreste do Estado de Pernambuco. “Gangarras é uma forma pejorativa que a população de Santa Cruz do Capibaribe usa para designar quem é de Bandeira. Mas já uma forma tão popularizada que eles não se sentem mais ofendidos com o apelido. É um nome forte, que de alguma forma descreve àquela população”, explica Adriana. A comunidade de Bandeira, é alvo de constante discriminação na região por causa de suas características físicas e econômicas. O estigma maior dessa população é o fato de a maioria deles possuir um fenótipo diferente da maioria dos moradores da região, em geral eles são louros, muitos com olhos claros, estatura baixa, pernas arqueadas. Segundo Adriana, alguns indivíduos de Bandeira chegam a pintar os cabelos de preto para fugir à discriminação, num nítido preconceito às avessas dentro do território nacional, onde esse tipo de atitude sempre foi despendida ao indivíduo negro.
Além do preconceito sofrido pelo biotipo que difere dos moradores das redondezas, os habitantes de Bandeira também vivem em precárias condições de vida. De acordo com Adriana, muitos vivem mendigando ou sobrevivem através da venda de produtos que fabricam na feira de Santa Cruz do Capibaribe. A maior parte da população vive em casa de taipa e não conta com serviços como saneamento básico, escolas, postos de saúde e telefone público, e a energia elétrica chegou na vila há apenas alguns anos. Mesmo com todas essas adversidades, a história da população de Bandeira ainda é um tema pouco explorado pela imprensa pernambucana. “Nenhuma das pessoas com que conversei na época conhecia ou tinha ouvido ou lido alguma coisa sobre essa comunidade”, relata Adriana.
O desejo de retratar a população de Bandeira através de imagens e estética surgiu quando Adriana trabalhou no documentário de Cátia Oliveira e Lulla Clemente, “Os Gangarras do Bandeira”. “Eu fiz parte da equipe de produção do Gangarras do Bandeira, fiz o still das filmagens. Conheci o tema, aliás, através de Cátia e Lulla, os diretores de Gangarras que de certa forma 'cederam' o tema para que eu realizasse o ensaio. Os dois são da opinião que quanto mais trabalhos referentes àquela população melhor, porque terá mais atenções voltadas a eles”, conta. Para realizar o ensaio
fotográfico, Adriana optou pelo formato retrato, pois assim poderia dar ênfase às características físicas dos habitantes. “A intenção era fazer um relato daquela população, tendo como pano de fundo suas casas humildes, a terra seca, o rio represado, etc.” afirma.
Para Adriana, a interação que ocorreu entre ela e a população da vila foi muito importante para conseguir obter o resultado desejado. “No princípio as pessoas de Santa Cruz me deixaram apreensiva sobre a possibilidade de eles não me receberem bem. Diziam que eu teria problemas em conseguir realizar meu trabalho. As pessoas de Bandeira são um pouco ariscas, acho até que bem explicado pela forma como eles são tratados na cidade. Isso tudo não se confirmou. Na primeira vez que estive em Bandeira sozinha, para começar meu trabalho (já tinha estado ali com a produção de Gangarras do Bandeira), fui muito bem recebida. Quando eles começaram a se acostumar com minha presença na comunidade faziam questão que eu entrasse em suas casas, que sentasse no sofá. Iam se arrumar parar sair nas minhas fotos e faziam até poses” relembra.
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