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   Ano VII | Março - 2006 | nº 76 | Capa: Agência UM

   
   
   
  UM OUTRO OLHAR
Anderson Lima
 
 

Para ela, o prazer pela cultura é algo inato, que vem “desde pequenininha”. Seu nome: Lina Rosa, e seu trabalho, reconhecido regional e nacionalmente com prêmios como o Profissionais do Ano da Rede Globo, três vezes vencedora, o Galo de Ouro no Festival Internacional de Publicidade de Gramado e dezenas de ouros no Colunistas e no Central de Outdoor Regio-nal. Sócia e diretora de Criação da pernambucana Aliança Comunicação, Lina Rosa divide seu tempo entre a publicidade, a produção de crônicas e a criação de roteiros e projetos culturais. Os mais conhecidos, o Festival Internacional de Bonecos e o Cine Sesi Cultural. Sua motivação? “Comunicação com qualidade para milhões. Democratizar conhecimento, novos concei-tos. Idéias criativas. Ideais éticos.” Nas próximas linhas, a profissional especializada em criação publicitária (ESPM - São Paulo) e Jornalismo Cultural (Unicap) fala sobre cultura, a participação feminina no mercado pu-blicitário regional e, acredite, Lampião. Teria sido ele o primeiro metrossexual nordestino?

REVISTA PRONEWS - Você tem desempenhado importante papel na divulgação da cultura popular em todo o Nordeste com o projeto Sesi Bonecos do Mundo e da sétima arte com o Cine Sesi. O que essas ações representam para as localidades beneficiadas e para a valorização da cultura local?
Lina Rosa - Gosto muito de uma frase de Drummond que diz assim: Quando eu morrer, morre comigo um certo modo de olhar. Acredito que usamos nossa capacidade particular de olhar para ver o teatro de bonecos de outro modo. Criamos um projeto cultural inusitado, considerado pelos maiores titeriteiros do País como um divisor de águas para essa arte. Conceitos estão sendo revistos, e quando isso acontece, processos criativos avançam. Em nossas duas primeiras edições, 2004 e 2005, atingimos cerca de 450 mil pessoas. Não se imaginava que 20 mil ou 30 mil pessoas se reuniriam, de uma só vez, em torno dos bonecos. Até então, o público máximo tinha sido de duas mil pessoas por espetáculo. O Sesi Bonecos, acima de tudo, é um projeto de valorização da identidade cultural. Ele mostra a força do mamulengo que, se vem de mão-molenga, provou que tem pulso firme e é capaz de segurar multidões. Quanto ao Cine Sesi Cultural, é preciso que se diga que o principal objetivo do projeto é que ele não mais precise existir. Alertamos as autoridades interioranas para o fato de que há público suficiente que justifique a reabertura das salas de projeção. Em quatro anos de projeto, o Cine Sesi levou cinema ao ar livre com alto padrão de qualidade para 138 municípios do interior de Pernambuco, Paraíba, Alagoas e Sergipe. Alcançou cerca de um milhão e duzentas mil pessoas. A grande maioria nunca tinha visto cinema na vida. Um ato inaugural. O cinema brasileiro sempre se inspirou nas temáticas, estéticas, criatividade e conceitos do interior. Vidas Secas, Central do Brasil, O Auto da Compadecida, Abril Despedaçado, Baile Perfumado, Árido Movie, Cinemas, Aspirinas e Urubus, etc. Uma longa metragem de exemplos, sem intenção de trocadilhos. O mínimo que podemos fazer é devolver a eles o que já era deles. É legítimo e justo.

PRONEWS - Como a publicidade pode contribuir no processo de valorização da cultura regional? Existem ações já realizadas nesse sentido?
Lina - Primeiro é preciso registrar que cultura regional não necessariamente deva passar pelo folclore e pelo sotaque. Tudo que não é criado pela natureza, se for incorporado ao hábito de um grupo significativo de pessoas, passa a ser cultura. Cultura de consumo, Cultura esportiva, Cultura das artes, Cultura de caráter educacional. É importante evitar purismos e posturas radicais e levar em consideração a nossa origem híbrida. Se a publicidade projeta o que está sendo criado e produzido em determinada região, sem ser preconceituosa, mas também sem nivelar por baixo, penso que está cumprindo o seu papel.

PRONEWS - Que contribuição a cultura pode dar à publicidade? E o que a publicidade pode dar em troca?
Lina -
Suspeito que uma não exista sem a outra. A cultura, no sentido das artes, dá à publicidade a capacidade de produzir trabalhos muito mais ricos, criativos e adequados a partir de referências estéticas, éticas e conceituais. A publicidade oferece a determinados movimentos culturais a possibilidade de chegar aonde eles precisam. De propagar em larga escala. De dialogar. Isso é muito valioso.

 

PRONEWS - Como se dá a inserção feminina no mercado publicitário?
Lina -
Conquistei meus espaços sem perder tempo com questões de gênero. Sempre me posicionei de modo profissional e se tentaram me colocar em alguma saia justa vesti minha velha calça jeans e me saí direitinho. Mas penso que ainda há muito a conquistar no sentido do coletivo. Vejo isso quando participo de reuniões importantes ou quando lidero grandes projetos. Quando sou convidada a ser jurada de alguma premiação representativa, para dar palestras ou mesmo quando ganho prêmios expressivos. De um modo geral, ainda há a predominância masculina. Fato que, logicamente, nada tem a ver com inteligência ou capacidade. Sinto que as mulheres, de um modo geral, são mais exigidas em suas tarefas familiares. Sobrecarregadas afetivamente. O que, por certo, reflete na condição de continuar a trajetória profissional. Tive sorte de ser sempre muito apoiada nesse sentido.

PRONEWS - Em muitas campanhas, as de cerveja em sua maioria, as mulheres são retratadas por meio de estereótipos. Como você analisa essa característica? O que pode ser feito para mudar essa situação?
Lina -
Essa pergunta também deveria ser feita aos meus colegas homens. Não vejo esse questionamento sendo feito a eles. Será que se eu não fosse mulher você estaria me perguntando sobre o assunto? De toda forma, gostaria de tomar como exemplo a 'pegadinha do Pagodinho'. Há dois anos, o mercado publicitário e não publicitário em massa discutiu a ausência de ética do cantor e compositor Zeca Pagodinho no episódio Nova Schin x Brahma. Fiquei muito irritada porque, na minha opinião, seria bem mais relevante discutir exatamente a falta de ética das campanhas de cerveja em relação ao tratamento dado à mulher. Ou mau tratamento. Aquilo que todo o mundo está cansado de ver: excesso de exposição do corpo, desvalorização do pensamento, preconceito estético. Enfim, a sexualidade tratada de modo imaturo. Recorrente em quase todas as marcas. Seria bom deixar a pasteurização restrita ao processo de industrialização da cerveja.

PRONEWS - Deve partir da propaganda a iniciativa de mudar essa exploração de estereótipos, ou da sociedade? Por quê?
Lina -
Também temos nosso papel transformador. Considero distorcido e cômodo o discurso de que publicidade é espelho. Se for o caso, podemos colocar esse espelho pra frente, como um retrovisor ao contrário, e dar visibilidade a novos caminhos. Onde o respeito à inteligência, ao pensamento de qualidade, seja a base para o que se quer construir.

PRONEWS - E o novo homem, o metrossexual? Como ele é retratado pela propaganda?
Lina -
Acho graça nessa história. A vida toda a humanidade se deparou com homens vaidosos. Então, Lampião era um metrossexual? Receio que ele não concordaria muito com isso.

     
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