| Em 1964, o golpe militar deu início a um longo e negro período ditatorial e truculento. Não tardou para que os golpistas percebessem a necessidade de estudar modos de se buscar uma espécie de legitimidade junto à população brasileira. Os instrumentos escolhidos contribuíram indiscutivelmente para arrefecer a fúria de parcela da opinião pública. Entre os meios utilizados, talvez o mais importante tenha sido a utilização de técnicas e profissionais de relações públicas pelo regime. Tal apropriação da profissão gerou a princípio um surto de desenvolvimento da atividade na terra do cruzeiro do sul. Com o fim da ditadura, na década de 1980, o que se viu, no entanto, foi um desgaste sem precedentes até então para a categoria.
Após a renúncia de Jânio Quadros (1961) e a curta passagem parlamentarista na história política brasileira (1961-1963), João Goulart finalmente assume em regime presidencialista. É a partir de então que surgiram instituições quase sinistras - que, por meio de práticas meticulosas de relações públicas e demais recursos da comunicação social, visaram transmitir mensagens doutrinárias. São o Ibad - Instituto Brasileiro de Ação Democrática e o Ipes - Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais. Ambos tiveram papel decisivo na pavimentação da queda de Jango em detrimento da ascensão do governo militar. Com a concretização do golpe, o Ipes pouco a pouco se extinguiria. Em contrapartida, as Relações Públicas entraram no palácio, como eufemismo de propaganda ideológica.
A princípio houve resistência do marechal Castelo Branco, porém a corrente defensora do uso da propaganda vence. Em 1968, o coronel Octavio Costa comanda a recém-criada Assessoria Especial de Relações Públicas, a poderosa Aerp, diretamente ligada à presidência da República.
Por meio de um turbilhão de slogans de efeito - Você constrói o Brasil, Ninguém segura este País, Brasil, conte comigo, e Ame-o ou deixe-o, entre outros - exibições de documentários para a televisão e cinema e matérias jornalísticas, transmitia-se sutilmente a ideologia do novo regime, que se estendeu oficialmente até 1985. As mensagens combinavam surpreendentemente bem imagens, sons e até mesmo frases populares. É praticamente consenso que aquele foi o auge da profissionalização das Relações Públicas no País até então. Curiosamente, à medida que o governo militar se enfraqueceu, a atuação e até mesmo o termo “relações públicas” foram sendo substituídos.
Tal passagem da história vem sendo passada a limpo por estudantes e professores de comunicação social. Espera-se para breve uma completa desmistificação da profissão, graças ao empenho e ao arejamento dos novos profissionais de relações públicas. Ironicamente, estes terão a missão de cuidar da imagem de seus clientes ao passo em que lutarão para recuperar o prestígio da própria profissão. |