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pe360graus
   Ano VII | Abril - 2006 | nº 77 | Capa: Mago Publicidade
     

HOMEM INVISÍVEL NO VÍDEO
Endie Eloah

 

 
Geisa Agrício e o vídeo-documentário que traz uma visão humanizada da história de Marcos Mariano da Silva  

Nome de um livro de H. G. Wells, o título Homem Invisível pertence também ao projeto experimental da jornalista Geisa de Farias Agrício, recém-formada pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). O vídeo-documentário traz uma visão humanizada da história de Marcos Mariano da Silva, personagem que ficou conhecido por sua prisão injusta. “Eu estava estagiando na (Rede) Globo quando a repórter Sabrina Rocha chegou com umas matérias de jornal com a história dele (Marcos Mariano). Eu falei, assim por cima, 'nossa, que interessante. Deixa-me ver, Sabrina'. E na hora surtei: 'Eu quero fazer um vídeo sobre esse cara'. E nunca tinha feito vídeo antes, só trabalhava com impresso”, relata Geisa Agrício.

Sobre o processo de filmagem, Geisa garante que não foi fácil no começo, pois ela teve apenas dois meses para a realização do projeto e para se aproximar de Seu Marcos. “Fui aprendendo a quebrar a barreira. Mas foi algo bom, porque a gente gostou muito um do outro. E você tem que estar muito aberto ao que ele quer dizer. Se eu fosse com aquela visão de TV, não fluiriam essas coisas que foram surgindo com o tempo. E o fato de ele ser cego, querendo ou não, foi um ganho, porque ele não sentia a câmera. E aí também entra outro fator, o de respeitar o tempo do personagem, por falar devagar. Mas a proximidade da gente facilitou muito. E o advogado dele falou que a gente conseguiu o que ninguém tinha conseguido”, conta.

Nascido em Sirinhaém, interior de Pernambuco, Seu Marcos, como é mais conhecido, vivia na cidade do Cabo de Santo Agostinho, quando foi preso injustamente pela primeira vez, em 1976. Apenas em 1982 saiu seu primeiro alvará de soltura. Mas, novamente injustiçado, Seu Marcos voltou à prisão em 1985, acusado de infringir uma liberdade condicional que, segundo seu advogado, José Afonso Borges, nunca existiu. Foram mais 13 anos no presídio Aníbal Bruno, em Recife (PE). Entretanto, a segunda vez lhe causou seqüelas irreparáveis: a perda da visão dos dois olhos e o abandono da primeira mulher e suas dez filhas, que perderam a confiança nele.

Mesmo com as duas prisões do filho, a mãe de Marcos Mariano nunca deixou de acreditar na inocência dele, assim como seu pai. A única esperança que mais um integrante
sofrível da família Silva encontrou durante sua penitência injusta foi a segunda esposa, Dona Lúcia, que sempre confiou na palavra do marido. Em 1998, foi solto pela segunda vez da penitenciária, mas não da prisão causada pela escuridão da cegueira. A lição que Marcos Mariano tirou de tudo isso? “Toda prisão marginaliza, não socializa”, afirma no documentário. Aos 56 anos, não conheceu seus netos e bisnetos.

O caso de erro judicial do Seu Marcos foi o maior de Pernambuco, e um dos maiores do Brasil. No seu julgamento, muitos se emocionaram. O estado de Pernambuco foi obrigado a pagar indenização de dois milhões de reais a Marcos Mariano. Seria, finalmente, um novo rumo na direção do trabalhador Silva? Não. O estado recorreu, alegando que a quantia é alta demais. Sem dinheiro antes, nem depois da prisão, Seu Marcos ainda teve a casa invadida pelos vizinhos e a ameaça de seqüestro do filho Leonardo, tudo porque acreditavam que ele já havia recebido o dinheiro do estado. Colchões foram rasgados e móveis destroçados. Mas, apesar de todo o sofrimento, Marcos Mariano não quer dinheiro, pois não se apega a coisas materiais. Ele prefere acreditar, e muito, em Deus, a única riqueza que possui.

“O documentário é muito chocante, impactante”, segundo as palavras do professor Paulo Cunha, examinador do projeto experimental de Geisa, que considerou o vídeo-documentário perfeito, por não seguir um padrão jornalístico, mas sim, o estilo da própria autora. Segundo o professor, o trabalho mostra como o jornalismo é fraco e repetitivo, e como há espaço para a notícia diferenciada. O vídeo-documentário levou um dez da banca examinadora. Mas o protagonista e responsável pela pesquisa de Geisa? Continua unicamente com a fé em Deus, o único pertence que nunca poderão lhe tirar.

     
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