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Certa vez li uma matéria que me chamou a atenção pela seguinte revelação: a Microsoft tem mais profissionais de suporte técnico que programadores. Na prática, isso quer dizer que a corporação do homem mais bem-sucedido do mundo investe mais no profissional de atendimento ao consumidor responsável basicamente por acalmar e sugerir soluções paliativas ao cliente insatisfeito que propriamente no que resolveria o problema de qualidade dos softwares produzidos pela multi-nacional.
Não precisa ser gênio para entender a razão pela qual a Microsoft ainda não in-verteu a proporção de colaboradores de aten-dimento e programação: é mais barato treinar uma pessoa com esco-laridade mediana a responder meia dúzia de questões que investir na inventividade de um profissional formado em Harvard.
Desde então comecei a colecionar casos que só vêm me confirmar uma suspeita: a incompe-tência hoje é a alma do negócio.
Há uma semana tentei me cadastrar em uma locadora de filmes que fica no mesmo edifício em que moro. Depois de visitar dois dias seguidos e ouvir que meu cadastro ainda não havia sido aprovado, perguntei ao atendente a razão da demora, e ele me veio com essa:
-Estamos analisando o comprovante de residência.
-Mas eu moro aqui, não quer que eu suba e atenda o interfone?
-Senhor, eu teria que ver isso com o dono.
Pasmem, precisei de mais dois dias para aprovar o tal cadastro. Alguém acha que eu indicaria essa locadora a alguém?
Processos enfadonhos tentam resolver com uma equipe e em dez etapas o que um funcionário competente resolveria em dois tempos. As empresas deixam de depender de talentos para se apoiar em soldados mal treinados e sem tesão pelo que fazem.
O que as faculdades e cursos oferecem deixou de ser conhecimento, que levaria a excelência na profissão, passou a ser uma mera etapa que leva a diplomas e currículos recheados de técnicas inúteis ou mal assimila-das. Mas não há proble-ma, afinal, o mercado não exige essa excelência.
Empresas oferecem produtos de qualidade mediana, e não há o que temer, afinal, o concor-rente também não se esmera tanto assim para oferecer um produto de primeira linha. E fica lógico concluir que para oferecer a um mercado em crise crescente pro-dutos medianos, a solu-ção é contratar profissio-nais medianos. Estes não se importam com o salário baixo, afinal, eles sabem, ou pelo menos desconfiam que sua atuação não tem lá sido das melhores. A incompetência vem se tornando padrão nas empresas, a ponto de você precisar ter cautela na hora de ser competente. Dando uma volta nos corredores da empresa, não se surpreenda se flagrar um colega de trabalho reclamando da sua eficiência. Sua pró-atividade chama a atenção para a ineficiência alheia. E cedo ou tarde você começa a colecionar alguns rivais, sempre dispostos a combater essa eficiência 'descabida' que você insiste em promover. Ouço falar de crise por toda parte, mas não imagino como relações de trabalho tão improdutivas podem resultar em coisa diferente. Com tudo na mesma, o jeito é comprar um Mac, alugar filmes na locadora da outra rua e assinar outro provedor. |