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pe360graus

   Ano VII | Setembro - 2006 | nº 82 | Capa: Usi + (PE)

     
CASAMENTO NA CRIAÇÃO
Leo Farache
 

A Publicidade é paixão. Criação é amor. Dupla é casamento. E no primeiro dia de trabalho disse o dono da agência:

- Redator, você promete amar o leiaute de seu dupla no varejo e no institucional, no aperto e nas verbas gordas, no all type e no anúncio de imagem, na página inteira e no selinho de classificados?

E o redator ali, coagido pelas circunstâncias dessa união, responde:

- Sim.

O dono da agência vira-se para o dupla dele e pergunta:

- Diretor de arte, você promete amar os títulos do seu redator no selinho de classificados e no anúncio da Veja, no panfleto da locadora da esquina e no outdoor triplo de uma montadora de carros, no título curto e direto e naquele outro que mais parece um roteiro?

Ele se contorce todo por dentro, e sussurra:

- Sim, aceito.

Aí começa o casamento. Aos poucos, os dois se acostumam com a vidinha de casado. Sempre respeitando um ao outro, se preocupando com os sentimentos do parceiro e querendo sempre dar o melhor de si.

Mas como todo casamento, os problemas começam a aparecer. Um título que fica menor no leiaute equivale a uma tampa de privada que foi deixada levantada. Acontece uma pequena discussão, os dois se entendem e o diretor de arte promete que não vai mais “deixar a tampa da privada levantada”.

Aí o redator faz um texto imenso que vai ocupar metade do leiaute, que nessa vida de casado equivale a uma toalha molhada deixada em cima da cama. Como já houve a discussão da tampa da privada, essa já toma proporções indevidas. Mas como o tempo de casado já é maior, eles passam por cima do episódio da toalha molhada e continuam a rotina de casados.

O tempo passa e eis que o diretor de arte resolve mexer no título maravilhoso que o redator fez para aquele anúncio que vai sair na Revista Caras sem avisar nada a seu parceiro. Por sorte, o redator vê antes de o anúncio ir para o cliente. Agora a confusão é bem maior. É como um bilhete com um convite para jantar do chefe que o marido acha dentro da bolsa da mulher. A briga toma proporções maiores dessa vez. Nem o tempo de casado parece resolver. Até o diretor de arte conseguir convencer que aquilo não passou de um mal-entendido e que ele nunca aceitaria o convite do chefe para jantar, ou melhor, que ele iria consultar sobre a mudança do título antes de enviar para o cliente.

Mas brigas e picuinhas são coisas de casamento. Ainda mais quando o casamento é à moda antiga, que você nem conhece a pessoa com quem vai dividir seu dia-a-dia, e se dá apenas por vontade exclusiva daquele que paga todas as suas contas (não estou falando do seu pai, e sim do seu chefe). No final das contas, todos nós acabamos adorando esse casamento diário entre Redação e Direção de Arte, onde a gente cada dia cria novos filhos. Alguns maravilhosos que crescem e aparecem para toda a sociedade e todo o mercado publicitário. Outros mais feinhos, que a gente não quer que ninguém saiba que são nossos filhos, mas na hora que alguém fala mal, a gente corre para defender.
Viva o trabalho em dupla.

     
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