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Em um mundo onde a arte é banalizada pela miséria, notar o talento dos verdadeiros artistas de rua torna-se difícil. Pedintes e cheira-colas se misturam facilmente com cidadãos que sobrevivem mostrando seus dotes artísticos nas ruas das cidades. É preciso abrir os olhos para enxergar, prestar aten-ção para poder ver e ter bom senso para discernir.
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Karla Vidal |
Foi abrindo os olhos, prestando atenção e tendo bom senso que Karla Vidal viu além do que seus olhos estavam acostumados a enxergar. Em sua trajetória nos transportes públicos para a Faculdade Federal de Pernambuco, onde cursou Comunicação Social com Habilitação em Rádio e TV, ela notou que ali existia a fonte que procurava para elaborar seu projeto de conclusão de curso: os artistas que se apresen-tam nos ônibus. Os movimentos desses cidadãos a fizeram ter vontade de fotografá-los enquadrando as belas visões que os olhos dos passageiros não viam.
Em dúvida se sua idéia iria render um bom projeto, Karla decidiu perguntar a um acadêmico que conhece sobre sua idéia. “Depois de mencionar os artistas ele me questionou se eu achava interessante fotografar aqueles 'pedintes'. Foi quando percebi que havia uma distorção na forma como eles eram vistos”, lembra. E iniciou a produção do projeto “Anônimos, famosos e viajantes”.
De julho a setembro de 2005, Karla realizou as pesquisas junto aos artistas. Acompanhou o dia-a-dia de trabalho de cada um visando conhecê-los melhor. As saídas fotográficas ocorreram de outubro de 2005 até março deste ano. O mês de abril foi reservado para a montagem da exposição.
O método escolhido pela jornalista foi o de não intervir na cena, ou seja, Karla subia para o ônibus como mais uma passageira. No meio da viagem sacava a câmera e decidia fotografar. “Não tive nenhum tipo de problema com passa-geiros ou motoristas. No entanto, alguns passageiros chega-ram a me perguntar se era empresária ou produtora dos artis-tas, tamanho envolvimento que tinha com eles”.
As dificuldades surgiram. Entre elas, a jornalista destaca o momento de ampliar as fotos em um papel que veio da República Tcheca, completamente desconhecido por aqui. “Isso aconteceu por contas das dificuldades que a fotografia em preto-e-branco passa atualmente. Esse papel foi o único que consegui comprar, importado por uma loja de Curitiba. Para se ter idéia, nem Alcir Lacerda, grande nome da fotogra-fia preto-e-branco, conhecia o tal papel. Mas apesar das dificuldades, consegui ampliá-las”, conta.
Mas o resultado foi produtivo. Ou melhor, está sendo produtivo. Além de receber nota máxima da banca que analisou o projeto, Karla está se organizando para dar continuidade ao trabalho. “O meu objetivo agora é levar as fotos ao alcance dos olhares dos passageiros de ônibus da cidade. Penso nos terminais de passageiros, tanto de metrô quanto de ônibus. Mas esse é um processo difícil, já que pre-ciso de apoio para ampliar as fotos de forma adequada para a exposição nesses ambientes”, analisa. Até este apoio chegar, a população fica carente de incentivo como esse para aprender a ver o que os olhos só estão acostumados a enxergar.
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