|
Já disse Millôr Fernandes: “Essa pressa leviana demonstra o incompetente. Por que fazer o mundo em sete dias se tinha a eternidade pela frente”.
É pra ontem. É pra ontem. Continua falando o diretor de Criação. Ora, se é pra ontem por que não pediu na semana passada? Ah, claro. Já havia muito mais coisa para anteontem.
É, olhando por esse lado, parece até que um mundo em sete dias é um privilégio. Aliás, quem inventou o prazo deve ter inventado o ego. E nem adianta vir com esse papo furado de que foi Freud que inventou o ego. Ego é coisa de publicitário. Se fosse de idéia de psicanalista, o atendimento seria um SuperEgo e a dupla de criação, o ID talvez
Mas não. Deus, quando criou o mundo em sete dias, não tinha que aturar o atendimento, nem tinha que discordar do diretor de arte, ou do redator, nem muito menos tinha que convencer o cliente.
Esse coitado. Aceitou o mundo do jeito que veio. E claro, ainda fez questão de piorar. Bem-feito.
Vendo o lado positivo, até que o trabalho foi satisfatório. O mundo funciona e muito bem, obrigado.
O que não funciona bem são os homens.
Com a criação é um pouco parecido. Ela funciona, encanta, mas anda sendo trocada um pouco pelo ego. Pense num cara chato. E o pior, ele antes de convencer o cliente, tenta nos convencer de que além de ter feito um bom trabalho, ele fez o melhor trabalho. Tudo bem, é legal dar uma massageada nesse senhor de vez em quando, só que bem de leve.
Na verdade, um grande criativo precisa saber lidar com as reprovações, até porque suas idéias precisam ser aprovadas pelo público, antes de tudo. Por que nosso cartão de visita nas agências é um portfólio acima da média, se a maioria das peças com as quais nos deparamos nas ruas é tão fraca? Claro, é muito mais importante um elogio de um publicitário do que o aval do público. É incrível. Propaganda é feita para o público. Mas segundo, nós publicitários, eles não entendem de propaganda. O público é mais uma referência nossa até, a estética popular. Quem se delicia com uma Archive parece fazer parte de uma “elite intelectual” da sociedade.
No fundo, todo criativo deve ter o ego pequeno, até porque ele vai espalhar suas idéias pelo mundo. A não ser que publicitário seja um artista, que coloca na obra de arte sua expressão individual. Enquanto profissão, o máximo que faremos é uma obra-prima e não uma obra de arte.
E isso não é legal? Claro que sim. Vaidade faz parte de qualquer profissão. E sem desespero, pois algumas propagandas são tão memoráveis quanto uma obra de arte.
O que muitas vezes esquecemos, é que a criação está ligada de verdade é com o outro, se não fosse assim, personagens tão especiais (Bonita camisa, Fernandinho!) não seriam criados. Enquanto visa a resultados, é o ego do seu público que o publicitário deve inflar. Ah, mas também sem muitas ilusões, senão nossos clientes podem ficar iguais aos clientes lá daquele Criador do início do texto.
E pra finalizar, mais uma vez citando Millôr Fernandes, fica aquela perguntinha que parece estar sempre sondando as nossas salas de criação: “O que é melhor para o ego: construir um palácio ou bombardear um palácio?”.
(Se Millôr Fernandes tivesse o ego maior do que o de um escritor, até que ele daria um bom redator). |