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   Ano VII | Outubro - 2006 | nº 83 | Capa: duploa (PE)

     

A POLÊMICA DOS FUMÓDROMOS
Bruna Brandão

 
 
   
   
   
   

Depois da “fase de ouro” do cigarro nos anos 50 e 60, quando fumar era sinônimo de independência, modernidade e glamour, representados na publicidade por divas de Hollywood, surgiu a “geração saúde”. Com as atuais pesqui-sas e descobertas sobre os males que o fumo provoca à saúde, a sociedade começou a se conscientizar do perigo da droga e a propaganda tabagista foi proibida no Brasil em 2000, na tenta-tiva de livrar os jovens da ilusão do fantástico mundo sem limi-tes dos fumantes. Outra medida merecedora de atenção é a recente implantação da Lei Federal nº 9294, que proíbe fumar em recintos fechados como shoppings.

A lei reforça a preocupação geral dos não-fumantes (conseqüentes fumantes passivos) em se protegerem dos e-feitos nocivos que a fumaça propaga e melhorar a qualidade do ar do ambiente. Apesar do aspecto positivo, a iniciativa tem gerado algumas polêmicas, principalmente por parte dos fumantes que se sentiram discriminados em alguns locais por não terem onde exercer o vício.

  "A saúde é um bem que deve ser preservado por todos, fumantes e não-fumantes, por isso, é importante que tenhamos sempre ações que objetive a manutenção deste bem, seja através da informação, seja pela necessidade de mudança de hábito”
Deputada Carla Lapa
 
 

O publicitário cearense, da NazaCom Comunicação & Marketing, Emanuel Albuquerque, relata o seu caso: “Acho legal a proposta, desde que resguarde o direito do fumante tendo um espaço reservado para eles. Aqui em Fortaleza só lhes reservam as grosserias daqueles seguranças”. Preocupa-dos em não perderem a clientela fumante e, ao mesmo tempo, obedecerem à lei, os principais shoppings do Recife formaram parceria com a Prefeitura do Recife, Ministério Pú-blico do Trabalho e Delegacia Regional do Trabalho e encon-traram uma solução para o dilema: os fumódromos.

 
  Material gráfico, criado pela Italo Bianchi,
distribuído com intúito de conscientizar os freqüentadores dos shoppings
   

Para fazer a divulgação da criação dos novos espaços, foi lançada a campanha “Respeite as diferenças”, assinada pela agência Italo Bianchi. “Nosso foco é justamente sensibilizar os fumantes explicando as mudanças e oferecendo alternativas dentro das restrições possíveis”, explica Giuliano Bianchi, di-retor da Italo Bianchi, completando que a intenção da campanha não é excluir o fumante, mas sim criar um ambiente de boa convivência entre os que fumam e os que não fazem uso do cigarro. Os panfletos utilizados incentivam o fumante a “ser legal” e procurar o caminho dos fumódromos, devidamente sinalizado por todos os shoppings com adesivos, placas e setas.

Apesar desse grande avanço na luta em defesa dos direitos dos não-fumantes, existe uma lei estadual de Per-nambuco - a Lei 12.578 promulgada em 13 de maio de 2004 - que proíbe fumar em recintos públicos como elevadores, shoppings, escolas, garagens, interior de coletivos, boates, bares e restaurantes, mas não foi sancionada pelo governador até hoje. O projeto é de autoria da deputada Carla Lapa, que tem como lema defender a saúde pública: “O objetivo desta lei, além de tentar conscientizar o fumante ativo, é princi-palmente proteger e resguardar o direito do fumante passivo. A saúde é um bem que deve ser preservado por todos, fu-mantes e não-fumantes, por isso, é importante que tenhamos sempre ações que objetive a manutenção deste bem, seja através da informação, seja pela necessidade de mudança de hábito”, expõe Carla Lapa.

Carla luta até hoje para fazer a lei valer em Pernambuco e reconhece as dificuldades, mas mantém a esperança e trabalha para que o governo do estado se conscientize da importância da lei e a regula-mente. “A luta contra esse mal social não é algo fácil, pois ela está diretamente ligada ao desejo e à vontade de cada um. Meu papel é legislar, sensibilizar, orientar sobre os male-fícios e apelar para o bom senso. A saúde é muito valiosa para ser trocada por um simples cigarro. E, como cidadãos, temos a obrigação de viabilizar a promoção de um ambiente saudável e equilibrado para a promoção da vida humana e das gerações futuras”, reforça. Como fonte de pesquisa e estudos para a realização, ela buscou informações sobre legislações de outros estados e países, tais como Estados Unidos e Japão, além de várias instituições, como a reconhecida Organiza-ção Mundial de Saúde (OMS), outra questão que levantou polêmica.

 
  Mastroianne Sá, jornalista e diretor de Marketing da Gráfica Moura Ramos
   
 
  Giuliano Bianchi, diretor da Italo Bianchi
   

Nem todas as pessoas acreditam na credibilidade das pesquisas divulgadas pela OMS e o publicitário Benjamin Azevedo é uma delas. “Hoje, o teatrinho anti-tabagista se baseia em pesquisas da Organização Mundial de Saúde. Mas foi a própria OMS quem ins-tituiu o erro das estatísticas que fundamentam o discurso da campanha dos shoppings, ao autorizar a classe médica a incluir o cigarro en-tre as causas da morte de qualquer fumante que morra de doença do pulmão, indepen-dentemente de exames que comprovem a conexão entre uma coisa e outra”. Os crité-rios utilizados nos estudos são muito abran-gentes e, por isso, podem dar resultados er-rados. “Não há diagnóstico diferencial en-tre fumantes de regiões poluídas e limpas, nem entre fumantes ansiosos e calmos, o que seria de esperar de uma pesquisa mais séria”, complementa Benjamin.

Mesmo com todas as polêmicas e controvérsias, afinal, “onde há fumaça, há fogo”, os fumódromos já estão sendo insta-lados em diversos locais fechados e a lei federal, aplicada. Com uma visão mais oti-mista sobre o Brasil e o assunto, o jornalista e diretor de Marketing da Gráfica Moura Ramos, Mastroianne Sá acredita que a tendência é a sociedade se acostumar com a nova realidade e respeitar a idéia de que “o ar é para todos”. “Certamente, a nova lei não terá dificuldades de ser aplicada e res-peitada. E isso é democracia. Ter opinião, mas respeitar o pensamento e o direito de todos”, explica Mastroianne, que também é professor do Instituto de Educação Supe-rior da Paraíba. E, como dizia Chico Buar-que, “e a gente vai levando essa chama”.

     

 

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