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pe360graus
   Ano VII | Outubro - 2006 | nº 83 | Capa: duploa (PE)
     

VÍDEO E INTERNET? ISSO É YOUTUBE
Anderson Lima

 
 
  Guime Davidson, W/Brasil (SP)

Quando proferiu sua famosa frase dos 15 minutos de fama a que até o mais comum dos mortais teria direito no futuro, o artista plástico e cineasta americano Andy Warhol não fazia idéia de como a internet (em especial, por meio de alguns sites existentes nela) poderia potencializar sua pre-visão. Um deles, a mais recente febre mundial, atende pelo nome de YouTube (www.youtube.com). O que há nele? Ví-deos, muitos vídeos. Filmagens históricas, videoclipes, grava-ções caseiras, animações, coisas toscas, modelos pegas em flagrante em praias espanholas, comerciais novos e antigos e o que mais se imaginar que caiba em até 12 minutos de duração.

“Assim como a Amazon é sinônimo de livros, o YouTube é sinônimo de vídeos”, afirma o diretor de arte da W/Brasil (SP), Guime Davidson. Ou, como diz José Afonso Jr., professor adjunto do Departamento de Comunicação Social e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Univer-sidade Federal de Pernambuco: “O YouTube é mais que um cruzamento entre uma videoteca e a internet. É a possibili-dade de se ocupar um espaço de alta disseminação com varie-dade, diversificação de temas e interesses e, sobretudo, au-diência dirigida”.

“O YouTube materializou em uma idéia o desejo já latente dos internautas de 'fuçar' o alheio. Ele usou isso apre-sentando uma ferramenta simples, ágil e fácil de ser utilizada”, afirma Zilmara Aragão, atendimento da pernambucana AgênciaUm Comunicação. Para ela, o uso de ferramentas vir-tuais como blogs, fotologs e orkut gerou o desejo (ou deu vazão a ele) de as pessoas exporem suas vidas, seja por meio da divulgação de suas preferências pessoais, talentos, senti-mentos ou mesmo problemas. “Nossas vidas ficaram muito mais expostas e, agora, com nosso próprio consentimento”, conta.

Em comum, Zilmara e Guime guardam mais que o fato de trabalhar com publicidade. As agências de ambos, voluntariamente ou não, possuem trabalhos exibidos no YouTube. Não só elas. Por meio do site é possível conferir vídeos publicitários de diversas agências nacionais (incluindo nordestinas, sim, senhor) e estrangeiras. Alguns, apenas en-graçados. Outros, verdadeiros clássicos. Como o comercial de um minuto criado para o lançamento do computador pes-soal da Apple, o Macintosh, em 1984. Dirigido pelo cineasta Ridley Scott (Alien, Blade Runner), o filme custou 1,6 milhão de dólares e foi exibido apenas uma vez, no intervalo da final do campeonato de futebol norte-americano daquele ano, o Super Bowl.

 
  José Afonso Jr, UFPE

Na ocasião, apenas as pessoas presentes no estádio e as que acompanhavam a partida pela televisão puderam teste-munhar aquele que se tornaria um dos mais célebres lança-mentos da história da publicidade. Agora, com o YouTube, o filme pode ser visto a qualquer momento, em qualquer lugar e quantas vezes a pessoa bem entender. “O site faz sucesso porque é uma locadora de vídeo a custo quase zero, que funciona 24 horas por dia, sete dias por semana e que entrega na sua casa, ou onde você quiser. E você, ainda por cima, pode disponibilizar o que quiser. Quer marketing mais agressivo que esse?”, avalia Afonso Jr. “Penso que começamos a ver o começo da era da publicidade individualizada, setorizada. Se possível, dentro de uma lógica pessoal, de um para um mes-mo. A oferta é múltipla, a concorrência é mundial e o acesso é seletivo”, completa.

Mais que uma diversão sem maiores pretensões apa-rentes, o site pode se mostrar uma ferramenta importante pa-ra as agências. “Há sempre a possibilidade de usar o YouTube como canal de vídeos virais, para postar making-offs ou co-merciais mesmo. Mas, para haver interesse do público, eles devem ser realmente bons. Se o usuário não se interessar, não adianta nada”, afirma Davidson. “No momento em que pro-cura determinado vídeo, de certa forma, você 'desenha' seu perfil. Com isso, a propaganda pode ser mais bem direcionada aos internautas, adequando-se a mensagem ao perfil do pú-blico-alvo”, avalia Zilmara.

Um desses possíveis 'alvos' é o microbiologista carioca André Luiz Grigorevski, (muito apropriadamente) entrevistado via YouTube. Foi sua paixão por automóveis que o fez disponibilizar vários comerciais antigos no site. “Comecei com dois ou três comerciais dos anos 60 e 70 e vi que o número de visitas e comentários foi relativamente bom em poucos dias, o que me motivou a hospedar mais comer-ciais”, conta. Mas se no início os vídeos eram apenas sobre carros, eles passaram a abordar também outros assuntos como o que mostra a geladeira Frigidaire, com uma jovem Regina Duarte contracenando com um boneco de neve animado; ou do 'nôvo!' aspirador portátil Arno, com um simpático cãozinho falante. “Muita gente acaba se recordando das campanhas e dos produtos. Outros nem eram nascidos na época e acabam conhecendo”, revela.

Publicidade propriamente dita no YouTube, no entan-to, ainda é um problema, uma vez que os internautas não têm interesse de ser alvo de mensagens do tipo no site. Para contornar a situação, na opinião de Zilmara, é preciso que se tracem novos caminhos para transmitir a mensagem ao consumidor, motivando a interação, conquistando a simpatia do internauta ou mostrando-a da forma menos explícita possível. O próprio site já deu os primeiros passos nesse sentido ao veicular página com conteúdo pago para o lançamento do CD da patricinha, atriz e cantora pop Paris Hilton.

 
  Zilmara Aragão,
AgênciaUM Comunicação

INTERATIVIDADE - Se parte do poder de fogo do YouTube vem dos avanços tecnológicos que permitem a uma pessoa munida de um simples celular com câmera produzir seus próprios vídeos, a outra metade da equação tem como elemento-chave a interatividade que ele proporciona. Os internautas têm toda (ou quase toda) liberdade para divulgar suas produções de modo fácil, rápido e intuitivo. Algo bem explícito no slogan do site: Broadcast yourself. “O YouTube rompe por não promover somente o acesso à informação, mas à produção da informação. Se pensarmos especifica-mente na tecnologia do vídeo, veremos que houve um impacto nas três esferas da circulação: ficou mais fácil (e mais barato) produzir e editar vídeo com os computadores. Ficou igualmente fácil disponibilizar o que se produz. E, por fim, criou-se uma esfera própria de acesso e audiência de vídeo pela internet”, conta Afonso Jr., da UFPE.

“Interação é importante na medida em que dá voz, ouve a opinião e usa a interferência do público para construir relacionamento entre a marca e o consumidor. Sem intera-ção, troca, opinião, não existe o YouTube”, avalia Guime Davidson, da W/Brasil. Para Zilmara, da AgênciaUm, os meios de comunicação de massa ainda não permitem uma interação tão eficaz quanto a que é feita na internet. “Na TV se permite um pouco mais, quando se coloca no ar, por exemplo, reality shows ou quadros em programas em que os telespectadores escolhem quem fica, ganha ou sofre algum tipo de pena. Dessa forma, eles acreditam estar participando ativamente daquilo que eles consomem, que têm o poder de mudar, de inter-ferir”, conta. Zilmara não vê a interação apenas como instru-mento de sucesso para inserção de publicidade no site, mas na internet como um todo. “O internauta quer usufruir a men-sagem, absorver algo, interagir, e não apenas receber mais uma informação e descartá-la”, afirma.

O YouTube surgiu em fevereiro de 2005, a partir da necessidade de dois amigos engenheiros do Vale do Silício, região californiana que concentra as empresas de informática dos Estados Unidos, de compartilhar vídeos de uma festa com os colegas sem o inconveniente de estourar as caixas de e-mails ou travar os computadores deles. Atualmente, ele é res-ponsável por 60% de todos os vídeos que são visualizados na internet. Diariamente, 35 mil novos vídeos são inseridos no acervo do site, e 100 milhões deles são assistidos por pessoas de todo o mundo. No Brasil, o endereço registra 2,6 milhões de visitantes mensais. Além de assistir e divulgar vídeos, as pessoas podem montar grupos, fazer amigos e comentar as produções alheias. Comprado pelo Google (ferramenta de busca mais popular da internet e responsável por serviços como Orkut, Gmail e Google Maps), o YouTube alcançou o valor de US$ 1,65 bilhão em ações.

     
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