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Dois lances de escada em espiral, primeira porta à direita. Dentro da sala, além de bonecos em barro que logo trazem à mente as figuras do lendário Mestre Vitalino, de Caruaru, algumas imagens dele: Francisco de Assis. O santo, que fique claro. Junto a elas, os mais atentos podem notar a presença de um recipiente repleto de sal grosso cuja existência é logo justificada: “É para ajudar a espantar o mau-olhado, porque aqui só tem alto-astral”, afirma Francisco de Assis, o empresário do setor gráfico. Ou, como é mais conhecido por amigos e clientes, simplesmente Chico. “Chico da FacForm. Virou uma referência”, brinca ele, batizado em homenagem ao santo (por dez dias não nasceu na data consagrada a ele, 4 de outubro), o qual admite ser também um defensor dos animais, igual a seu homônimo. Ainda novo, aos 6 anos de idade, trocou a agreste Tacaimbó pela litorânea Recife. Para cá, trouxe o hábito de realizar pequenas negociações que lhe garantiam a independência financeira e reforçavam a renda familiar. Lá, vendia pirulitos, bolos e outras comidinhas para quem via a cidade passar pela janela dos dois únicos trens que cruzavam o município diariamente. Aqui, negociava revistas usadas e outras mercadorias: “Devo ter vendido muitos produtos. Até entrar no meu primeiro emprego, aos 16 anos. Foi quando eu parei”, rememora Chico.
Esse início se deu em uma empresa de gráfica rápida na qual ele permaneceu por 18 anos e de onde partiu para se tornar concorrente. Tempos depois, com os sócios do novo empreendimento, adquiriu prédio e equipamentos da gráfica que hoje lhe rende reconhecimento e prêmios - mas só depois de muito trabalho. “Eu tive de começar tudo de novo. Fiquei igual a cachorro que cai de caminhão de mudança. Foram quase três anos apenas tomando tempo para saber o que fazer”, relembra Chico, que tocaria o novo negócio sozinho, depois de sua saída da sociedade. “Nem equipamento para fazer um trabalho melhor nós tínhamos. A impressão era em apenas uma cor e a guilhotina era manual. Para fazer um produto melhor, era preciso ter equipamento. E para ter equipamento, era necessário ter dinheiro para poder comprá-lo”, diz. O cenário mudaria em 1996, após a aquisição da primeira Heidelberg, o que proporcionou avanço na qualidade dos trabalhos realizados. Em apenas 11 anos, iniciando praticamente do zero, Chico conseguiu fazer da FacForm uma gráfica de ponta e detentora de importantes prêmios (Fernando Pini, Theobaldo de Nigris, Premier Print Awards Benny e Sappi Printer of The Year, entre outros).
REVISTA PRONEWS - Ganhar prêmios é bom, Chico?
FRANCISCO DE ASSIS - É muito bom (risos)! Para ganhar um prêmio como o Benny é preciso ter arte, uma técnica muito boa. Não é simplesmente imprimir, é necessário dar acabamento muito bom ao produto. Você pode ter a melhor impressão do mundo, mas se não tiver bom acabamento, não adianta. E um dos pontos altos da FacForm é o acabamento. Nunca quisemos só imprimir, esse sempre foi o nosso pensamento. Em 2002, ganhamos nosso primeiro filho. Foi quando conquistamos o primeiro Fernando Pini. Em 2006, trouxemos o maior prêmio gráfico do mundo, que é o Benny. Esse aí (fala apontando para a estatueta dourada cujo perfil lembra em muito a imagem de Benjamin Franklin), só quatro gráficas no Brasil têm. Veja que conquistamos o maior prêmio da indústria gráfica do mundo em apenas quatro anos! Ninguém entende como funciona. E quando as pessoas vêm aqui, pensando que a FacForm é diferente de todas as outras gráficas, ficam assustadas com nossa estrutura.
RPN - Como foi sua experiência de passar de empregado a patrão?
CHICO - Oficialmente, eu comecei a trabalhar para uma copiadora. Saí 18 anos depois. Foi meu primeiro e único emprego formal, e quando saí, fui ser concorrente dela. Mas, para mim, a responsabilidade de tomar conta da empresa dos outros sempre foi muito grande. Tanto que, quando passei a ser dono, me senti mais aliviado. Antes, a responsabilidade era tão grande que era o mesmo que eu ser o próprio dono, só não tinha o salário dele. Vir para a gráfica foi algo totalmente diferente. Eu não queria fazer um negócio igual. Eu faço qualquer coisa, só não faço igual. Meu desafio sempre foi fazer alguma coisa diferente. Em nossas conversas com clientes, procuramos oferecer algo a mais, acrescentar alguma coisa. O pessoal da FacForm gosta de aceitar as provocações dos clientes. Eu quero é passar a minha marca.
RPN - A soma de diversos prêmios nacionais e estrangeiros pelos trabalhos realizados; a obtenção do reconheci-mento por profissionais do mercado gráfico ou não; e a conquista da posição de destaque entre as empresas do setor gráfico. O que mais você deseja para sua FacForm?
CHICO - Espero que a gente mantenha o nível em que estamos e que possamos ir crescendo aos poucos, sem aumentar muito o número de funcionários e sempre nos atualizando, para termos uma produção maior e de qualidade igual ou melhor. Em termos de premiação, já conquistamos um dos maiores prêmios gráficos que existem. Em termos técnicos, de treinamento de funcionários e de sistema de trabalho, isso sempre tem a desenvolver. Se hoje temos uma boa gráfica, nossa meta é manter o que já alcançamos e acrescentar. Na medida do possível, talvez crescer um pouquinho o espaço físico e adquirir equipamentos melhores.
RPN - Você se considera um profissional bem-sucedido, Chico?
CHICO - Se levarmos em consideração o período que nós estamos aqui, todas as matérias a nosso respeito (um número da Publisher, outro da Revista Abigraf e dois da Heidelberg News, arrumados em um canto da mesa) e em conseqüência de tudo o que as pessoas falam - que o que fazemos não se vê em parte nenhuma do mundo -, acredito que o nosso objetivo está sendo alcançado. E ele é: diferenciar. Recebi o diretor de uma faculdade gráfica de São Paulo e ele, acostumado com gráficas do mundo todo, falou de forma muito especial da gente. E não era para me agradar, mas porque ele achou que somos diferentes mesmo. A gente termina se convencendo de que atingimos o ponto máximo. Mas não é isso, não. Nosso cuidado é para que a gente não caia nem entre em uma rotina, e esteja sempre em busca do novo, diferente, que possa agre-gar valor. O importante é o resultado final. Tem que sair bom. 'Mais ou menos' não existe.
RPN - Na confecção de seus trabalhos, o que tem priori-dade para a FacForm, a linguagem regional ou uma comu-nicação sem 'sotaques'?
CHICO - O foco de nosso trabalho é exatamente o regional. Quando fizemos o primeiro calendário para a Heidelberg, eles pediram para eliminar as fotos que tínhamos proposto, com vaqueiros, o sertão. Eles gostaram do trabalho, mas o calendário seria distribuído nos países da América do Sul e, por isso, queriam imagens de pássaros, algo mais universal. Usamos os pássaros, mas usamos também palha de buriti no material. Aí, ele ficou uma coisa bem regional. A gente valoriza os produtos regionais e eles agregam valor para a gente. Já ganhamos prêmios com calendários que fizemos para clien-tes. Procuramos agregar valor ao material, dar atenção espe-cial a ele, pelo fato de o calendário trazer maior divulgação. Quando estava começando, fiz um modelo de calendário bem simples, em preto-e-branco mesmo, e coloquei o nome de algumas firmas em cada um. Preparei dez, coloquei em envelopes e mandei para os clientes. Dos dez que enviei, só não fechei negócio com uma empresa. Até aí, tudo bem. Mas onde eu iria rodar isso? Na época, eu só rodava nota fiscal. E estava com os pedidos todos fechados. O que eu fiz: fui a uma vendedora de máquinas usadas, vi uma que se encaixava no que eu precisava e comprei ela. Uma máquina velha, de uma cor só. E rodei todo o material. Com dificuldade, mas rodei. Foi assim que consegui o dinheiro para dar de entrada na minha primeira Heidelberg. |