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| Danielle Andrade Souza |
Dono de um dos mais acelerados processos de privatização do ensino superior do mundo, o Brasil tem sido terra fértil para o aparecimento de faculdades e universidades particulares. Estas, por sua vez, com níveis de qualidade díspares, pouco ou nenhum interesse pela pesquisa e corpo do-cente constituído por professores, em sua maioria, sem formação adequada para o magisério superior.
Além das dificuldades próprias ao mercado de trabalho, os formandos de instituições nas quais o Unibusiness é lei têm que enfrentar outro problema: a formação precária. Um exemplo típico são as provas da OAB, em que 90% dos jovens não conseguem autorização para exercer a carreira. O outro lado da história deve ser considerado. Somando 75% das matrículas em instituições de nível superior no País, as particulares têm exercido papel de democratização do ensino universitário no Brasil - enquanto o sistema público dispõe de 200 mil vagas, o privado oferece 2,2 milhões, em dados de dois anos atrás. E graças a al-ternativas como ProUni e FIES, jovens menos favorecidos têm conseguido realizar o sonho de ter diploma de nível superior e, com isso, disputar melhores colocações no mercado de trabalho.
Com posse dessas informações, resta ao vestibulando a dúvida de em qual instituição investir seu tempo e dinheiro. Qual delas vai garantir uma formação de qualidade e sua vaga no mercado de trabalho na área de interesse. No nosso caso, a publicidade. Para o coordenador do curso de Publicidade e Propaganda da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), Rodrigo Duguay, as faculdades têm o direito de abrir seus cursos, cabendo aos estudantes o discernimento de selecionar as melhores. Além disso, a variedade de opções é interessante para o mercado, que pode dispor de mão-de-obra qualificada e barata. “Curso superior não é garantia de emprego há muito. Mas a concorrência de menos também seria ruim. O caminho do meio sempre é o melhor”, diz.
“Curso superior é uma porta para outra dimensão. A possibilidade de melhoria de vida.
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| Loudinha Dantas |
A melhora concreta de auto-estima de milhões de brasileiros que veneram o diploma de nível supe-rior”, avalia o coordenador do curso de Publicidade e Propaganda da Faculdade Marista de Recife, Rômulo César Pinto, para quem há, sim, mercado para as instituições privadas. Pelo menos até o ponto em que o mercado se regule por si só, tendo a qualidade como referencial. Ele lembra que sempre há espaço para os bons profissionais, mas estudar em uma boa escola, com tradição pedagógica, bem equipada tecnologicamente e provida de ótimos recursos humanas sempre ajuda. Mesmo assim, estudar em uma faculdade mediana não é demérito para ninguém: “Se o aluno tiver disposição, seriedade e competência, chega aos seus objetivos, independentemente de onde tenha estudado”, defende.
Quem também vê como possível a coexistência entre as faculdades privadas é Danielle Andrade Souza, coordenadora do curso de Publicidade da Faculdade do Vale do Ipojuca (Favip), em Caruaru. No entanto, é preciso que elas ofereçam ensino cada vez melhor para se manterem no mercado. “Diante das exigências do mercado atual, as instituições de ensino precisam ter diferencial inclusive em sua comunicação. Elas devem fugir da lógica de oferta de 'vagas garantidas' (de emprego) e evoluir para uma comunicação que também conscientize e oriente, ou seja capaz de educar esse receptor”, diz. Para ela, a concorrência pelo preço deve ser olhada com desconfiança, uma vez que isso implica redução de custos e comprometimento da qualidade do ensino. Enquanto isso, da Paraíba, a coordenadora da graduação em Publicidade das Faculdades Asper, Lourdinha Dantas, acredita não ser possível assegurar que todos terão emprego certo, mesmo com o mercado de trabalho se mostrando receptivo aos novos publicitários. “O que se pode garantir é uma formação sólida que prepare o aluno para se inserir no mercado. Até porque, existem alunos que terminam o curso e seguem outros caminhos, seja ingressando em uma pós-graduação, seja buscando emprego público através de concurso”, diz.
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| Oscar Santiago Lima |
“A colocação no mercado de trabalho não depende apenas da instituição de ensino superior, mas do rendimento dos alunos e seu empenho em aprender e em disputar colocação no mercado de trabalho. Nenhuma instituição pode prometer que todos terão o empenho necessário”, afirma Oscar Santiago Lima, chefe do Departamento de Comunicação Social da Universidade Católica do Salvador (UCSal). Ele avalia que a inflação de cursos de Publicidade e Propaganda faz crescer a quantidade de graduações de má qualidade, que ge-ram profissionais sem qualificação adequada e poucas possi-bilidades de colocação no mercado. Sem falar na desvalorização dos salários dos recém-formados e no crescimento da oferta de estagiários a custo mínimo.
A cada semestre, cerca de 45 novos publicitários entram no mercado de trabalho via Unicap. Com seis anos de criação, o curso da universidade dispõe de laboratórios para produção gráfica, multimídia e fotografia, entre outros, e de agência experimental. No corpo docente, 80% dos profissionais são de mestrandos a doutorandos. No Enade, o conceito do curso foi 4. A instituição investe em pesquisa de forma expressiva, postura que a fez ser a única no Nordeste a ter alunos premiados no último Prêmio Estadão de Mídia. Já a Faculdade Marista oferece 50 vagas por ano em seu curso de Publicidade. Nem todas são preenchidas.
Com duas turmas já formadas, o curso permite que o estudante tenha visão geral da área. Recentemente, a grade curricular foi enriquecida com temas envolvendo advergames, mídia gerada pelo consumidor e TV digital. Os 13 professores são mestres com experiência tanto em docência como no mercado. Cravou o segundo lugar no Enade. Em Caruaru, a Favip forma cerca de 160 publicitários por ano. O curso dispõe de laboratórios de fotografia, rádio, TV e cinema e corpo docente com 60% de mestres e metade dos profissionais atuantes no mercado de trabalho.
Nota 3 no Enade.
Na Paraíba, as Faculdades Asper formam em torno de 50 publicitários por semestre. O curso tem 19 profissionais em seu corpo docente, de mestres a doutores, e laboratórios de informática, fotografia e rádio e TV. Na grade curricular, a disciplina Atividades Complementares incentiva os estudantes a freqüentar exposições e museus, a assistir concertos e peças de teatro e a desenvolver projetos humanísticos. Ficou com a nota 4 no Enade. Enquanto isso, na Bahia, a Universidade Católica do Salvador (UCSal) forma cerca de 110 publicitários por semestre. O curso permite que o aluno atue em setores como atendimento e web design ou em agências de comunicação, empresas de new mídia e como docentes, entre outras possibilidades. Um total de 65 profissionais formam o corpo docente da UCSal. Alguns com títulos de especialização a pós-doutorado. Outros, apenas com a graduação. No Enade, o curso de Publicidade obteve o primeiro lugar na Bahia e no Nordeste, além de ter apresentado a melhor média individual de aluno de todo o país. Todos os cursos citados têm duração de quatro anos.
O MERCADO FALA - “Acho importante a qualificação profissional, seja ela orientada por universidades, seja um bom programa de leitura”, afirma Alexandre Luiz Oliveira. Diretor-executivo da agência OeM (PE), ele exerce ainda a vice-presidência do Sindicato das Agências de Propaganda do Estado de Pernambuco (Sinapro/PE) e a vice-presidência Regional da Federação Nacional das Agências de Propaganda (Fenapro-NE). Ele acredita no esforço de faculdades e universidades para melhorar o nível de ensino oferecido, com a contratação de mais mestres e doutores em seu corpo docente e na implementação de laboratórios em diversas áreas da Publicidade. A oferta de vagas, no entanto, é vista como maior que a demanda do mercado.
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| Alexandre Oliveira |
Oliveira alerta para o fato de algumas faculdades usarem suas agências experimentais para atender suas contas publicitárias e de outras empresas do mercado. “Quantos empregos estas faculdades poderiam gerar para os alunos se entregassem suas contas para as boas agências que Pernambuco dispõe?”, afirma. Sua sugestão é que os estudantes se especializem na área em que desejam atuar e olhem com mais carinho para oportunidades longe das capitais.
Na Bahia, Américo Neto, diretor de Atendimento da Viamídia Publicidade, divide seu tempo na agência com o trabalho de docência em algumas faculdades do estado há seis anos. Para ele, a educação superior baiana encontra-se em nível “baixíssimo”. Principalmente no que diz respeito ao alunado. “Recebemos diversos candidatos a estágio ou primeiro emprego e percebemos a pouca formação cultural e técnica, além do mau uso da língua portuguesa”, revela. Outro problema, em sua opinião, é a absorção pelas instituições de maus profissionais como professores.
Pior: muitos jovens têm entrado na área sem conhecer, ou desejar saber, como é a profissão. Bem diferente de sua época de universitário, quando se amava e respirava a publicidade. “Deixou de ser bonito ser publicitário, pois muitos deles estão sem emprego. Até a criatividade virou algo raro nas faculdades. Mas uma coisa é certa: os bons sempre terão seu lugar”, diz. Américo considera legítimo as instituições se voltarem para o mercado quando se considera o curso de Publicidade, afinal, publicidade é mercado.
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| Américo Neto |
“Existe um ditado popular que fala: Quem faz a faculdade é o aluno. Então, ele pode sair ganhando com a oferta sabendo trilhar seu caminho estudantil e profissional da forma mais adequada”, afirma o diretor de Planejamento da Carratu Publicidade (RN), Ubirajara Carratu. Para ele, o crescimento de cursos permite que o estudante escolha a faculdade que melhor atenda seu perfil, embora perceba que a demanda por vagas seja maior que a oferta do mercado. E enquanto algumas instituições despontam na qualidade do ensino, outras apenas correm atrás de faturamento. Ubirajara acredita que a melhora do ensino superior privado deve ocorrer via Ministério da Educação, por meio de avaliações periódicas do desempenho dos estudantes, do início ao fim do curso. Solução mais concreta, porém, tomaria como ponto de partida o ensino fundamental.
“A faculdade traz somente parte da formação dos profissionais. O restante é adquirido por conta própria, em uma busca pessoal por informações relevantes que acrescentem à carreira e à profissão. Para nós vale o lema dos punks: faça você mesmo (sua carreira, suas escolhas, seu destino)”, afirma a publicitária, jornalista, escritora e diretora da Mart Pet Comunicação (PE) Izabela Domingues, que também dedica seu tempo à docência. Para ela, é fundamental mesclar o conhecimento científico com a práxis mercadológica para se ter profissionais mais capacitados em termos técnicos e humanísticos, o que tem sido obtido com a abertura da academia para profissionais do mercado atuarem como docentes. “Um profissional de comunicação jamais será competente se não detiver vasto repertório de ciências humanas. Ele é liquidificador que deve bater uma bagagem cultural ampla para poder compreender o consumidor e devolver esse arsenal de informações em forma de soluções de negócios. Entretanto, ter profissional erudito completamente desconectado da realidade de mercado também não dá”, considera.
“As pessoas costumam dizer que as federais são melhores. O que tem de melhor são os alunos. Só vem aluno ruim para as privadas.” A afirmação é do presidente do Sindicato das Instituições Particulares de Ensino Superior do Estado de Pernambuco (Siespe), Janguiê Diniz. Os tais alunos ruins, segundo ele, são os estudantes oriundos do ensino público de primeiro e segundo grau, que não conseguem aprovação nas universidades gratuitas e migram para as particulares. “Se (o aluno) tivesse grande conhecimento teria passado no vestibular da Federal.
Isso vai mudar na medida em que as federais e estaduais estão sucateadas. Temos bons alunos que resolveram vir para cá”, afirma. Janguiê vê o mercado de educação como qualquer outro, no qual as empresas educacionais precisam se profissionalizar para não serem engolidas pela concorrência. Em cinco anos, ele prevê, devem permanecer apenas aquelas que prestam serviços de qualidade. Para ele, a maior oferta de cursos é interessante para a formação de mais profissionais, que seriam impulsionados a ser aprimorar, buscar novos horizontes, oportunidades e idéias. Um profissional formado em Direito, por exemplo, poderia prestar assessoria na área, dar cursos ou entrar para a docência. “Ruim é não ser formado em nada. Só vai obedecer ordem. Aí alguém diz: 'Mas tem advogado que é taxista'. É taxista porque é acomodado. Se tivesse garra não seria”, alega.
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| Izabela Domingues |
LINHA DO TEMPO - Foi preciso percorrer longo caminho na história do Brasil até que o país conseguisse ter sua primeira universidade. Desde o período Colonial, a idéia vigente era de que não poderíamos ter instituições do tipo simplesmente por carecer de cultura que permitisse a construção de uma sociedade emergente e moderna. Mesmo a presença da família real foi inútil nesse sentido. De D. João VI apenas se conseguiu a criação de poucas escolas superiores a partir de 1808. E mesmo D. Pedro II, um declarado amante das artes e do conhecimento, somente tornou pública a con-veniência de universidades nos últimos suspiros da Monarquia. Entre 1934 e 1935 surgem as primeiras tentativas de superação do modelo de organização existente, com a criação das universidades de São Paulo e do Distrito Federal. Com elas, nascia o compromisso com a educação superior pública e gratuita, a formação de profissionais a serviço da sociedade e a promoção do desenvolvimento da ciência e da cultura. Durante bom tempo, o ensino superior brasileiro foi eminentemente público. A partir da década de 70, começam a progredir as matrículas no setor privado, em ciclo de expansão que se repetiria de forma marcante nos anos 90. No Nordeste, de 1995 a 2002, o total de matrículas no setor privado entre instituições de ensino superior passou de 32% para 42%. Atualmente, o Brasil conta mais de duas mil instituições de ensino superior. As privadas representam 75% delas.
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| Mariana da Mata |
PASSOS FIRMES - A receita para não cair em qualquer arapuca é simples e pode ser seguida por qualquer pessoa. Antes de tudo, é preciso saber se a instituição é credenciada pelo Ministério da Educação e se o curso considerado é reconhecido ou pelo menos autorizado. A qualificação e titulação do corpo docente também devem ser relevadas, bem como o desempenho dos estudantes no Enade. Outro ponto diz respeito à mensalidade. A manutenção de bons professores e laboratórios custa dinheiro. Mensalidades abaixo da média de mercado indicam que algo pode estar sendo posto em segundo plano - geralmente, a qualidade do ensino.
Rômulo César Pinto, coordenador do curso de Publicidade da Faculdade Marista de Recife, diz que é preciso tomar cuidado com a propaganda das faculdades. “As informações publicitárias são sempre parciais e buscam convencer as pessoas, não necessariamente informar”, afirma. Partindo do ponto de que nenhuma instituição de ensino superior é perfeita, ele ensina que os estudantes podem visitar o site do MEC (www.mec.gov.br) e do Inep (www.inep.gov.br) para obter informações sobre elas.
Professores e alunos também podem ser questionados. Outra dica é analisar o histórico dos cursos e grade curricular, procurar informações no mercado e acompanhar o desempenho dos formandos no Enade.
Para Mariana da Mata, gerente de Negócios da Ampla Ponto (PE), é preciso analisar todas as faculdades para se ter a garantia da escolha do curso que oferecerá maiores oportunidades de trabalho no futuro e consistência de conhecimento. Ela revela certo cuidado das agências em relação a cursos mais recentes, mas conta que as instituições comprovadamente preocupadas com a qualidade do ensino conquistam a confiança do mercado. “As agências não têm nenhuma ressalva em contratar profissionais da faculdade A ou B. Independentemente do curso, o profissional será avaliado por sua qualificação na entrevista de emprego. Depois, na prática do dia-a-dia.
Se o curso for melhor, o profissional terá maiores condições de mostrar esse desempenho”, diz. O MEC continua sendo o validador oficial e, mesmo com limitações, o Enade pode ser considerado um passo à frente em relação ao extinto Provão salvo exceções, os melhores cursos costumam ter os melhores resultados. “O MEC tem papel fundamental, embora seja muito difícil trabalhar com ele”, afirma Rômulo. E continua: “São muitas normas, portarias e decretos que criam um emaranhado burocrático que emperra alguns processos. Mas as exigências são necessárias para garantir a qualidade na educação”.
Portanto, nem tudo são espinhos quando o assunto é educação superior privada, em que estão matriculados 72% dos universitários de todo o país. “A gente tem que valorizar o ensino superior privado porque ele é a solução. Custaria cinco vezes menos para o governo pagar a vaga para um aluno carente em instituição privada do que investir na faculdade pública”, afirma Janguiê Diniz, presidente do Siespe.
Faz tempo que as faculdades privadas deixaram de ser apenas a segunda opção para os que não fossem aprovados no vestibular das federais e estaduais. A diversidade de cursos oferecidos, muitos deles não encontrados em outras instituições, além da possibilidade de bolsas e créditos educativos, têm feito com que os estudantes olhem com mais carinho para as particulares. “Um excelente aluno pode estudar em qualquer instituição superior. E quem tem preconceito pode estar perdendo grandes oportunidades de captação de novos talentos”, encerra a discussão Alexandre Oliveira.
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