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Candeias, Jaboatão dos Guararapes. Na avenida Abdo Cabuz, um muro alto, pintado de branco e com passagem bíblica escrita em tinta vermelha. Atrás de seus tijolos, algumas árvores e o alegre gorjeio de pássaros, entremeado pelo som dos carros e veículos pesados que transitam no asfalto imperfeito. Ali funciona a Igreja Cristã Missionária Betel da região. A construção é recente. Ao lado, ocupando o mesmo terreno, a residência e refúgio de Manoel Malta, 80 anos bem vividos, um dos pioneiros do rádio, da TV e da Publicidade pernambucana. O espaço é dividido com segunda esposa, com quem teve dois filhos. Estes se somam a outros três, nascidos de união anterior dele. O templo fica aos cuidados do casal. Ele cuida das questões administrativas. Ela, das doutrinárias. Nascido no ano de 1927, Malta foi pioneiro em muitos sentidos.
Com Luiz Geraldo e Fernando Ramos, ele estrelou o primeiro telejornal da TV pernambucana, na recém-inaugurada TV Jornal do Commercio. Também foi responsável pela primeira campanha do Bompreço - que usava o slogan “Um só servindo a cidade inteira” - e pelos primeiros contratos publicitários da Globo Nordeste e da Rádio Jornal do Commercio. No rádio, onde viveu dias de glória - e conheceu o amor e ódio das fãs -, lançou artistas como Jackson do Pandeiro e Genival Lacerda, como ele mesmo relembra: “Nos domingos, eu fazia um programa de auditório para crianças no qual eu lancei Reginaldo Rossi. Ele era pequenininho. Tinha que colocar um banquinho para poder cantar”. Além do rádio, da publicidade e, posteriormente, da televisão, Malta também dividia seu tempo com os estudos de Odontologia. Mais por insistência paterna que por vontade própria. “Naquele tempo, havia o conceito pelas pessoas do interior de que o pai deveria ter um filho doutor. Se não conseguisse, seria um homem irrealizado”, conta. Hoje, dedica-se integralmente à religião e desfruta do sossego que a idade permite. Como ele mesmo diz, “com 24 horas para o almoço”.
REVISTA PRONEWS - Em junho você completou oitenta anos bem vividos, dedicados à religião, à publicidade e à televisão. Um pouco à política e boa parte ao rádio. Quanto a este último, como ele entrou em sua vida?
MANOEL MALTA - Em 1943, eu estudava no Colégio Presbiteriano 15 de Novembro, em Garanhuns, fazendo o curso ginasial. Estudava e cantava. E tinha um primo, Hélio Peixoto, que trabalhava na Rádio Clube de Pernambuco como locutor e radioator. Como ele me conhecia, me levou para lá como cantor. Eu comecei no programa “A Hora Azul das Senhorinhas”, criado e apresentado pelo maestro Nelson Ferreira. Acontece que minha voz era muito semelhante à do próprio Hélio, e quando ele faltava às novelas, o diretor de radioteatro me chamava para substituí-lo. Em 1947, fiz teste para locutor, fui aprovado e fiquei como locutor, radioator e cantor da Rádio Clube. Comecei a comandar um programa de auditório nos domingos à noite, o Passatempos Maltamar, em sociedade com Jocemar Ribeiro, no qual eu apresentava artistas que passavam por aqui e fazia brincadeiras com distribuição de prêmios. Nessa época, através do doutor Francisco Pessoa de Queiroz, preparava-se o lançamento do Rádio Jornal do Commercio.
O doutor Pessoa fazia questão de chamar de “O” Rádio Jornal do Commercio. Ele dizia que era o único “homem” na radiofonia brasileira porque todas as outras rádios eram femininas: “A” Rádio Clube, “A” Rádio Tupi, “A” Rádio Nacional. O programa inaugural da rádio chamava-se Brasilíada. Escrito e produzido por Teófilo de Barros Filho, cantava as grandezas do Brasil citando célebres personagens. Existia uma fala de Ruy Barbosa no programa, o discurso na Conferência de Haia, e Teófilo começou a experimentar os radioatores para ver quem poderia fazer aquele discurso. E ele não se conformava, pois os radioatores eram amadores e não conseguiam. Aí ele mandou me chamar, me entregou o texto e disse: “Vê se você faz isso aí”. Eu tinha prática no radioteatro, então foi simples: “Senhores, envelheci na vida parlamentar...”. “Pronto! Pronto! Está bom! É esse que eu quero!”. A partir daí eu fui contratado pelo Rádio Jornal do Commercio como radioator e locutor auxiliar. Eu tinha 21 anos e trabalhava de summer, porque só se subia no palco a rigor. Inclusive os músicos. Era exigência do doutor Pessoa. Eu começava a trabalhar às cinco horas. Ia das cinco às sete e das oito as onze.
De domingo a domingo. Nesse tempo eu lancei o programa “A Felicidade Bate à Sua Porta”. Durante sete anos, fiz esse programa. No sábado, eu fazia um programa de auditório chamado “Feira de Novidades”, no qual lancei Jackson do Pandeiro, Genival Lacerda, Sivuca, Hermeto Pascoal e outros artistas. Fiquei no Rádio Jornal do Commercio até inaugurar a televisão. Quando inaugurou a televisão, eu passei para lá.
RPN - Dos anos dedicados ao rádio, o que dá mais saudade?
MALTA - O “Feira de Novidades”, que eu fiz ao longo de oito anos, de 1952 a 1960. Todos os artistas eram contratados para chegar no sábado e se apresentar durante toda a semana. O povo não podia acreditar que estivesse em palco daqui um Francisco Alves, um Orlando Silva. Então eles faziam um número ou dois no meu programa do sábado à tarde para provar que estavam na cidade. O Ibope me dava 75% de audiência. Os outros 25% ficavam com as demais emissoras. Hoje em dia, quando uma emissora faz 4% é uma coisa. Eu tinha 75%! É desse programa que eu realmente tenho saudades.
RPN - Tinha muito assédio das pessoas?
MALTA - Eu tinha fã clube! Organizado. Com secretária, tesoureira e tal. Era muito assediado. E engraçado é o seguinte, como não existia televisão, as mulheres ouviam reli-giosamente as novelas do rádio. E eu trabalhei em uma, escrita por Alberto Lopes, “Senhor de Engenho”. Eu fazia um papel terrível, de filho do dono do engenho, perverso, mau-caráter, maltratava as meninas. Eu era tão ruim que, diversas vezes, fui agredido em plena rua Nova (centro do Recife). As mulheres metiam a sombrinha em minha cabeça. Eu fui agredido várias vezes e achava aquilo uma beleza. Era sinal de que estava interpretando bem aquele papel, de mau, de perverso. Tão ruim que, na novela, eu matei meu pai de raiva.
RPN - Os artistas e profissionais do rádio eram mais valorizados nessa época?
MALTA - Muito. Até a chegada do Rádio Jornal do Commercio, radialista era a escória. A sociedade pernambucana não admitia. Depois dele, não. Era a fina flor. Só se entrava para assistir aos programas de paletó e gravata. E os artistas, músicos, locutores, todos a rigor. Então isso deu um status. Modificou.
RPN - Falta valorização aos profissionais que fizeram os primeiros anos do rádio e da televisão aqui no estado, ou mesmo no Nordeste?
MALTA - Não deu nem tempo de eles serem valorizados, pois já morreram. Amarílio Nicéias, que começou como radioator e discotecário - fomos muito amigos; Alberto Lopes; Geraldo Lopes, que era contra-regra da Rádio Clube; Osman Lins, famoso escritor, era produtor do Rádio Jornal do Commercio - a gente chamava ele de Batatinha; Leduar de Assis Rocha; Valdemar de Oliveira; Nelson Pinto; Jota Oliveira; e o maestro Vicente Fittipaldi; Nozinho, da Orquestra Paraguaí. Eles foram morrendo e foi ficando apenas eu. E hoje eu olho assim: “É muita gente que já foi”. César Brasil, Fernando Castelão. Não deu tempo nem de eles serem justiçados. Pelo que eu vejo, só estamos sobrando eu, Dolores Brandão e Wiliam Ataíde, que era locutor da faixa em espanhol da rádio. Porque o Rádio Jornal do Commercio se dava ao luxo de ter locutores falando em português, espanhol e em inglês. É por isso que o slogan era “Pernambuco Falando Para o Mundo”.
RPN - Locutor, apresentador, animador, ator, publici-tário, odontólogo, pastor. Tem mais?
MALTA - E político. Me formei em odontologia pela Faculdade de Medicina, Odontologia e Farmácia do Recife, em 1951. O Rádio Jornal do Commercio tinha três anos de vida. E continuei com a publicidade. Depois, fui chamado pelo prefeito de Jaboatão para assumir a Secretaria de Turismo. Foi o grande erro que eu cometi. Embelezado pela função de secretário de Turismo, fui me afastando da Publicidade. Eu tinha clientes de peso e fui muito respeitado na área. Minha primeira agência chamava-se Publimalta. Grandes grupos eram meus clientes e eu fui muito respeitado pelos veículos porque fui, naquele tempo, uma das únicas empresas de publicidade que nunca ficou devendo centavo nenhum. Antes da secretaria, passei uma temporada política na terra onde nasci.
Eu me lembro de Coronel Ludugero. Quando ele soube que eu me candidatara a prefeito de Águas Belas, disse: “Seu Mané, seu Mané, tá parecendo uma porca”. E eu disse: “Por que, Coronel?”. “Tem muito peito. Porca é que tem mais de oito peito”. E tinha que ter muito peito, porque Águas Belas era terra de pistoleiro. Eu não morri graças à intervenção de Miguel Arraes, que deu ordem para não me matarem. Por conta da fase pública, eu fui perdendo a força da publicidade. Da rádio também. Depois que deixei a Publicidade, me exilei aqui em Candeias, montei um frigorífico e, como sou de origem evangélica, minha família insistiu até eu terminar voltando para a igreja. Aí deixei a minha vida de boemia. Eu me considerava um dos principais boêmios do Recife, porque bebia dia sim, outro também. Passei 48 anos fora da igreja. Voltei para ela e parei de beber, de fumar, de fazer farra. E, graças a Deus, por isso que hoje estou com 80 anos. Hoje estou tranqüilo, com 24 horas para o almoço.
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