Salário melhor e realização profissional e pessoal. Esses foram os fatores mais votados pelos publicitários nordestinos na pesquisa realizada pela REVISTA PRONEWS®. Enviada a mais de cem profissionais de agências do Nordeste, a enquete questionou o que era mais importante profissionalmente e o que os motivaria a concorrer a uma vaga em outra empresa. Todo esse debate serviu para elucidar um assunto bem polêmico, mas pouco comentado: o Turn Over, ou seja, a excessiva rotatividade de funcionários nas empresas de comunicação, principalmente agências de publicidade. Os fatores mais votados ficaram empatados em primeiro lugar com 36% cada um. Em segundo lugar, com 18%, ficou Ambiente de Trabalho Agradável e Amigável, seguido de Boas condições de trabalho, com 9%. A pesquisa incluiu ainda os seguintes itens: carteira de benefícios; possibilidade de crescimento; participação nos lucros; e abertura para desenvolver idéias.
O assunto veio à tona depois que percebemos que nosso mailing ficava desatualizado constantemente. Esse fenômeno, bem peculiar ao mercado publicitário, nos fez investigar o que leva os comunicadores a estar “pulando de galho em galho” com freqüência. A questão é: por que antes se passava mais de 20 anos numa empresa e hoje é tão difícil? A resposta é simples: para alguns, ficar no mesmo lugar muito tempo é sinal de estagnação, acomodação ou pouco valor profissional. Vale ressaltar que os cargos mais voláteis e “caros” são os de criação e atendimento, o que ocorre na maioria das vezes em decorrência do bom e velho “quem dá mais”.
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| Marcelo Pitanga, Rádio Recife |
Com 14 anos de casa, o diretor-comercial da Rádio Recife, Marcelo Pitanga, diz que não é preciso estar mudando de emprego para adquirir novas experiências. “Há vários outros caminhos para se amadurecer e adquirir experiência, tanto profissionalmente como pessoalmente. Certamente tem parcela de profissionais que coloca como prioridade apenas a questão salarial, mas uma boa política de benefícios deve ser levada em consideração”, aponta.
Quem viveu bem a época áurea da publicidade e lem-bra que há uns 20 anos tudo era bem diferente é o sócio-diretor da Talk Comunicação, Luciano Melo. Ele diz que quando começou a trabalhar em agência, ainda muito jovem, os profissionais de criação demoravam muito nos seus empregos. “Eles eram muito qualificados no que se refere ao talento. Não era qualquer um que conseguia ingressar no mercado publicitário. Ser diretor de arte era para quem realmente tinha talento para as artes. Era preciso saber desenhar, ilustrar com bom gosto, ter noção de forma e conteúdo para realizar as idéias desenvolvidas em grupo. Hoje é muito fácil aprender um programa gráfico e virar diretor de arte, copiar informações da internet, criar uma abertura e encerramento e colar um miolo para fazer um texto”, critica.
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| Luciano Melo, Talk Comunicação |
Para o gerente nacional de Vendas do Grupo Soma, empresa de RH, Ruy Baldaque, a rotatividade não favorece que o profissional absorva todo o conhecimento para seu crescimento, sem contar que o mercado não vê com bons olhos. Para diminuir esse problema, Ruy sugere investimento em pessoas, desenvolvimento, treinamento e bom processo seletivo - que atualmente se tornou estratégico em diversas empresas renomadas. Se nos basearmos pelo mercado de propaganda, apenas 50% têm carteira assinada. “O RH hoje é estratégico. Não existe profissional ruim, o que existe é perfil”, avalia. Ou seja, quanto melhor o processo seletivo, menor a rotatividade e vice-versa.
Há quase 12 anos atuando na Ampla Comunicação, o diretor de Mídia, Nilson Samico, diz que espera continuar por lá mais uns 12 anos, se deixarem ou se ele continuar a se sentir feliz. Com cerca de 38 anos de mercado publicitário na bagagem, Samico diz que nunca foi muito rotativo. “Não tenho na-da contra, afinal toda experiência é válida. Logicamente se souber aprender com os erros e acertos. Nesta profissão conheci alguns gênios bem rodados. Quando ia averiguar, nor-malmente eram problemas de convivência, temperamentos, vaidades bobas, radicalismos, etc. Mesmo com toda essa con-corrência e nomes bonitos que as pessoas inventam para trocar profissionais experientes, por novatos, obviamente, para pagar pouco. Como existe pouca oferta de emprego, as pessoas acabam se sujeitando”, lamenta.
E há quem acredite que o problema da rotatividade nos cargos de criação está no “ego” superestimado desses profissionais. O diretor da Talk Comunicação diz ainda que as pessoas estão muito preocupadas com pastas fantasmas e em mostrar trabalho que agrada apenas a si próprias. “O que existe hoje é muita vaidade. Muito ego e pouco resultado. As pessoas querem aparecer mais do que o trabalho”, admite.
O sócio-diretor da MV2 Comunicação, Elmo do Val diz que um profissional que chega na agência rodado demais é um sinal negativo. Ele não vê com bons olhos essa “experiên-cia”, que, na prática, muitas vezes é traduzida apenas em vícios. “Não me refiro a passar a vida em um local de trabalho que não dê base para o crescimento, mas vejo que a grande maioria dos profissionais está sendo conduzida de forma errada, voltada para o 'vá para quem lhe der mais'. Um dia desses entrevistei um redator com larga experiência que topava o salário oferecido, embora um pouco menor do que já tinha ganho em outro lugar. Quando perguntei sobre os diversos lugares que passou e o porquê das saídas de cada uma, sua resposta foi que tinha recebido proposta melhor em cada situação. Perguntei então quanto tempo ele achava que ficaria na agência. Depois concluí que não procurava um ocupante para vaga, mas um profissional que quisesse estar ali, buscasse entender os clientes da agência e crescesse, acima de tudo, como pessoa”, expõe Elmo.
O OUTRO LADO DA MOEDA - O sócio da Steer Recursos Humanos, Ivan Witt, esclarece que rotatividade por si só não representa nada. O importante é investigar o porquê da rotatividade, o que o profissional ganhou com ela. E o mais importante é detectar quais foram os resultados atingidos nas empresas pelas quais o profissional passou. A diretora de Recursos Humanos da Ampla Comunicação, Cristina Queiroz, diz que a rotatividade pode significar inadequação da pessoa ao cargo. Elmo do Val diz que o bom é que a saída para uma outra agência ou até uma nova categoria de trabalho sempre exista, pois faz parte em qualquer profissão. “Mas contratar alguém já antenado nessa hipótese está fora de cogitação”, antecipa. Já o sócio-diretor do Gruponove, Giovanni di Carlli, vê a rotatividade em propaganda como uma característica do mercado e não como falta de motivação nas agências. “O publicitário é inquieto por natureza, sempre busca experiên-cias novas como forma de motivação e reciclagem”, alega.
Para di Carlli, existem muitos paradigmas no mundo profissional que não se aplicam ao da propaganda. Pode-se estar há muito tempo na agência por escolha. Por outro lado, a acomodação é inerente ao tempo que se passa na empresa.
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| Elmo do Val, MV2 Comunicação |
Ele fala que conhece profissionais que praticamente passaram pelas principais agências do mercado e não conseguiram se firmar em nenhuma. “Não me importo quanto tempo ele vai passar na empresa. Esse tempo é conseqüência do que ele vai encontrar de motivação, seja internamente, seja na relação com os clientes. Estou há 17 anos dentro do Gruponove. Fui estagiário, mídia, atendimento, saí da agência, voltei e hoje sou diretor e sócio. Os desafios sempre me alimentaram. Tive muitos convites e preferi ficar. Valeu a pena!”, comemora di Carlli.
Samico confessa que algumas vezes não aceitou ganhar enormes salários por avaliar que não seria feliz, entretanto financeiramente seria perfeito. Mas emocionalmente, com certeza, iria enfartar cedo, mesmo com seu tem-peramento de colocar tudo para fora. Cristina Queiroz acredita que para diminuir a rotatividade é preciso analisar o que está acontecendo do lado da empresa, e do lado do profis-sional, identificar as fragilidades existentes e montar uma estratégia de ação que dê conta da superação das dificuldades encontradas para alcançar os objetivos. “Não há benefício que 'prenda' o funcionário à empresa se não houver identificação do seu projeto pessoal com o projeto da empresa, ou seja, sintonia entre as duas partes”, avalia.
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| Gionavi di Carli, Gruponove |
SATISFAÇÃO - Com 25 anos de idade e 14 agências no currículo, o diretor de Criação da Ponto D Comunicação Interativa (PB), Anderson Lima, mais conhecido como Caniço, já atuou como diretor de arte/ilustrador em Alagoas, Pernambuco e Paraíba, até ser convidado para dirigir a criação da Ponto D. “Na maioria das vezes procuro outra vaga por não sentir segurança no rumo da empresa. Não acho que fazer parte da mesma equipe por muito tempo seja sinal de estagnação. Ganhando respeito na equipe é possível ousar, opinar, planejar a vida pessoal, sabendo que em uma profissão cheia de altos e baixos, seu próprio trabalho acaba sendo uma segurança”, esclarece. Ele acredita que falta por parte das agências habilidade maior na gestão de pessoas, analisando o que torna a vida do publicitário mais difícil. Às vezes ações muito simples podem elevar o nível de satisfação da equipe. “Na maioria das agências que trabalhei, quando houve movimentação para organizar setores complexos como a criação, visava-se sempre o aumento da produtividade. Não visar à satisfação é um erro. Ninguém precisa de 'cabresto' para produzir mais, precisa vestir a camisa. E a gente só veste uma camisa quando torce para o time”, observa
O sócio da Steer Recursos Humanos, Ivan Witt, avalia que há muitas empresas que possuem pacote de compensação competitivo, mas esquecem que os empregados anseiam por qualidade de vida. Outras, que possuem ambiente harmonioso e oferecem boas condições de trabalho, e nem sempre são competitivas na remuneração. “Ter saúde, tempo disponível para coisas particulares, sair no horário para conviver com a família e amigos sem ser submetido a olhares dos chefes e colegas; trabalhar com segurança física e emocional; e, além disso, ter uma boa remuneração”, defende.
A demissão começa numa contratação errada: tanto o profissional quanto a agência devem saber com quem estão lidando. A transparência e sinceridade devem ser um bom primeiro passo. O diretor de Criação da Ponto D ressalta que tanto profissional quanto empresa costumam mentir para ajustar a contratação e isso só resulta em decepção, num futuro não muito distante.
ESTORVO - Mas se por um lado há profissionais que rodam demais, por outro, há empresas que vivem a renovar o quadro sob o pretexto de dar sangue novo à equipe. O diretor de Criação da Chama Publicidade (AL), Hermann Fernandes, assegura que a presença do pessoal de criação junto ao cliente, por exemplo, é bem mais constante que anterior-mente. “Isso cria laços, fortalece relacionamento e aponta para um questionamento: até que ponto é interessante para o cliente encontrar sempre 'caras' novas na sua agência?”, questiona. Para Hermann a rotatividade exagerada sob o pretexto da renovação necessária das idéias é um argumento fraco que tenta esconder a falta de integração e compromisso entre empresa e colaborador. Ou vice-versa. “Não dá pra imaginar uma construtora mudando constantemente os engenheiros. Uma fábrica mudando os trabalhadores. Um time de futebol mudando todo dia a equipe. Opa, isso dá. E o resultado a gente vê na falta de entrosamento, de união e compromisso com o futuro do time. Então por que seria diferente numa agência?”, compara.
De acordo com o sócio-diretor de Atendimento da Eclética Comunicação (PI), Vinícius Melo, a rotatividade de profissionais nas agências é uma situação que chega a causar estorvo. Uma das maiores preocupações na Eclética é com a questão ética. “Não desejamos que informações privilegiadas dos nossos clientes sejam expostas ao mercado pelo profissional que está nos deixando. Muito menos admitimos incursões, desta natureza, no profissional que está chegando à agência. Na verdade, a rotatividade aqui é muito pequena e muitos saíram para montar o próprio negócio, um reflexo de que o profissional fica tão caro que começa a ficar difícil sua contratação”, constata. Com relação à motivação, Vinícius diz que já foi começado um estudo para implantar, respeitando a legislação vigente, um programa de PL (Participação nos Lucros).
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| Anderson Lima, Ponto D Comunicação Interativa |
Na outra ponta, a sócia-diretora da Assessoria de Imprensa Oficina da Notícia (PE), Adriana Maia, acredita que as pessoas devem buscar oportunidades que possam ser interessantes ao crescimento profissional. “Não se deve ficar na mão de ninguém. As pessoas têm que ter liberdade de escolha e procurar trabalhar no que gostam. Sempre é importante reconhecer os acertos, dar oportunidade e ensinar e aprender com eles. Um ambiente legal, também faz a diferença”, informa.
Após um ano atuando como funcionária, Adriana Maia foi convidada a ser sócia da Oficina da Notícia (PE), cuja matriz fica em Natal, com acordos operacionais em mais estados nordestinos. E o sócio-fundador da Oficina da Notícia, Rilder Meneses (RN), acredita que um dos diferenciais de sua empresa está na retenção dos talentos e na perspectiva que todos têm de crescer juntos. Ele diz que tenta motivar a equipe investindo bastante em treinamento, cursos e na participação de eventos. “Hoje temos aproveitamento muito grande dos estagiários, que acabam se formando e sendo aproveitados como profissionais”, confessa.
A Oficina da Notícia adota ainda política de remuneração que inclui o salário fixo mais renda variável, de acordo com alguns critérios de produtividade e lucro. A empresa chega a pagar integralmente a universidade para alguns funcionários. Em Natal, foi adotado como critério o número de clientes atendidos por cada assessor. Se ele já tem sua carteira cheia e pega novo cliente, recebe um percentual diretamente relacionado ao seu salário.
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| Ivan Witts, Steer Recursos Humanos |
Em dez anos de atuação, Rilder comemora o fato de a Oficina nunca ter perdido um funcionário para a concorrência. “O que acontece, às vezes, é alguém deixar a empresa para voltar para os veículos ou para excelente emprego no setor público ou privado”, relata. “Se a empresa não consegue reter talentos ela tem problemas”, aponta.
Conhecida pelas palestras de Motivação que ministra em diversas empresas, a diretora da Prossiga RH, Selmi Aquino, ressalta que uma das questões que passa despercebida é a seleção de pessoal. A seleção acertada vai determinar, em parte, o tempo de permanência do profissional na empresa. “É necessário descobrir, além das competências, os anseios e visão da pessoa para sua carreira. Se um indivíduo deseja ter ascensão profissional e a empresa não tem plano de carreira para cada categoria de cargos, dificilmente ele permanecerá na organização”, abaliza.
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| Milena Tapioca, Viamídia |
VALORIZAÇÃO PROFISSIONAL - E por falar em motivação, a baiana Viamídia tem ambiente de trabalho bem singular. De acordo com o sócio-diretor de Atendimento, Américo Neto, profissionais do mercado desejam trabalhar com eles. Sem falar que conseguem reter alguns talentos com políticas, digamos, bem agradáveis. Para começar, ele diz que não há “sala de diretor”. Cada um se senta junto com os outros da sua área, sem divisórias ou qualquer coisa deste tipo. Sem falar que ninguém é punido pelos erros. “Antes cobrávamos financeiramente de quem errava e dava prejuízo, hoje buscamos a melhoria pessoal e profissional”, expõe.
Entre os diferenciais praticados pela Viamídia, podem ser citados o Happy Hour para cada momento bom da empresa, seja uma conta nova ou meta atingida; o Cine Viamídia, com filmes exibidos na sede nos dias de quarta (não é fixo). Há ainda a Quinta do Vinho. “Tiramos alguns dias de quinta, ao longo do ano, para tomarmos vinhos na nossa área verde. Outra prática é a reunião geral toda segunda-feira de manhã, com os funcionários, de todos os departamentos, onde analisamos o que está ou não está funcionando e ouvimos a nossa equipe, seus desejos e suas reclamações. Há vista para o mar em todas as salas e os funcionários internos podem trabalhar de bermuda. Sem falar do Horário Especial de Verão, com uma tarde de sexta de folga para cada pessoa no verão”, orgulha-se Américo.
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| Adriana Maia, Oficina da Notícia |
E tudo na Viamídia é bem democrático e decidido em votação. Inclusive a marca atual, que foi definida ano passado para comemorar os dez anos da agência. “Uma curiosidade: a marca eleita não recebeu nenhum voto dos sócios”, brinca. E quem pode confirmar tudo isso é a executiva de Atendimento da Viamídia, Milena Tapioca. Ela diz que na empresa existe a preocupação com a satisfação pessoal de cada funcionário. “Pela minha trajetória nesses dois anos, pelo crescimento gradativo na empresa e pelas conquistas desde que entrei na Viamídia, posso afirmar que é uma relação que tem dado certo e promete render ainda bons frutos”, aposta.
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