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“Vocês estão achando que eu sou maluco? Maluco é o cara que está aqui e não gosta de matemática.” Essa frase, dita pelo próprio professor em plena aula de Álgebra Linear, foi o que levou Manuel Cavalcanti a trancar o curso de Ciência da Computação e prestar novamente o vestibular. Desta vez, para o curso de Publicidade. “Entrei no ano de 97, e meu primeiro estágio foi na Contemporânea, do Rio de Janeiro, quando eu ainda estava no primeiro período”, lembra. Depois, Manuel iria para a pernambucana HSM, onde passaria quase três anos como redator, e para a Ampla. Mais dois anos. Em 2003 veio o convite para trabalhar na Bates (atual Y&R) de Brasília, quando cursou a pós-graduação em gestão de campanhas políticas pela George Washington University, em con-vênio com uma faculdade local, o Cenape. Da capital federal seguiu para a Duda Propaganda, onde surgiu o convite para voltar para a Ampla. Agora, como diretor de Criação. “Publicidade para mim sempre foi criação. Era isso que me encantava. Eu via um filme e pensava: Poxa, deve ser muito bom ganhar a vida fazendo isso. Eu nunca tive dúvida de que queria trabalhar com criação”, diz. Suas referências e inspirações para o corrido dia-a-dia surgem das idas ao cinema, leituras, conversas, da navegação na internet ou vendo televisão. Entre os hobbies, ler, fotografar, viajar com a esposa, que está espe-rando o primeiro filho do casal, e sair com os amigos. “Também faço tênis de manhã bem cedo e jogo bola uma vez por semana”, diz. De que forma conciliar vida pessoal e profis-sional? “Como diria o meu chefe, Seu Queiroz, o trabalho vem em primeiro lugar. A família, em segundo. Pois, sem trabalho, a família acaba se desestruturando. Sou uma pessoa que trabalha muito. Não tem outra fórmula. Mas procuro fazer isso de maneira saudável, dedicando muito do meu pouco tempo livre à família, aos amigos e às consultas médicas”, explica o pernambucano Manuel Cavalcanti.
REVISTA PRONEWS - Que importância você credita ao contínuo processo de aprendizado dos profissionais e à busca por novos pontos de vista para situações do dia-a-dia da profissão, seja na prática, seja nas carteiras escolares?
MANUEL CAVALCANTI - O mercado publicitário é um dos mais dinâmicos e competitivos. Novas tendências não param de surgir. E as novas tecnologias estão provocando verdadeira revolução na relação das marcas com os consumidores. Dessa forma, o profissional ou estudante que não se atualizar, que não for interessado, fatalmente estará condenado à obsolescência. Teoria e prática são fundamentais. E uma é tão importante quanto a outra. Eu, por exemplo, estudei em uma faculdade que me deu muita base no campo teórico. Mas a pratica aprendi mesmo estagiando em uma agência. Estagiar cedo foi muito importante para a minha carreira.
RPN - A propósito de sua recente participação no Festival Internacional de Publicidade do Rio de Janeiro, em que foi jurado na categoria Internet, como estão o cenário e a qualidade dos trabalhos feitos para essa área no país atualmente?
MANUEL - O Brasil despontou como a grande potência na internet anos atrás, quando faturou o maior número de leões no Festival de Cannes. Nosso desempenho continua muito bom, mas há dois anos perdemos a liderança para os Estados Unidos. O fato é que internet, televisão, celular estão convergindo cada vez mais. A linha que separa um do outro está sumindo. Acho que a categoria com esse nome “internet” não vai durar muito tempo.
RPN - Falando em prêmios, você foi reconhecido como Profissional de Propaganda do Ano pelo 32º Prêmio Colunistas Norte e Nordeste, tendo creditado-o ao trabalho em equipe. Como a afinidade dentro de uma agência é benéfica para as campanhas que são desenvolvidas lá?
MANUEL - Há quem defenda que a competição interna é a melhor forma de estimular a produção da equipe. Eu prefiro recorrer a uma frase velha, mas que continua em voga porque é uma grande verdade: duas cabeças funcionam melhor que uma. Acho que a soma de talentos, se bem gerenciada, pode ser muito proveitosa. Na Ampla, somos realmente uma equipe e esse trabalho tem funcionado bem. Mas trabalhar em equipe não quer dizer que todos concordam entre si. Pelo contrário. Você vai ter que convencer a maioria de que sua idéia é a melhor, que ela funciona. E as divergências são comuns, e só enriquecem esse processo. Defender uma idéia não é fácil. A gente pratica isso todo dia.
RPN - Aproveitando, prêmios são bons para a publicidade?
MANUEL - Os prêmios são bons para a publicidade, desde que não sejam a meta, e sim a conseqüência. A criatividade continua sendo a melhor maneira de ser eficiente na comunicação. E os prêmios, via de regra, servem para valorizar a criatividade dos nossos profissionais. É preciso, porém, ser muito criterioso na hora de analisar a utilidade da peça que será premiada. Peça fantasma ou criada apenas para ganhar prêmio não contribui em nada para a nossa profissão.
RPN - Faça melhor ou faça diferente. Como essa máxima é posta em prática em seu dia-a-dia de trabalho?
MANUEL - A mesmice simplesmente não é atraente. Para chamar a atenção de um consumidor mergulhado em um mar de mensagens é preciso fazer algo que seja realmente bom e diferenciado. Do contrário, é dinheiro jogado fora.
RPN - Entrando um pouco na área de criação. Comumente o profissional desse setor é retratado como um enfant terrible, solitário e cheio de grandes sacadas. Essa é uma imagem que ainda perdura na mente das pessoas, principalmente na das que não possuem muito contato com o mundo publicitário?
MANUEL - Imagino que seja porque muita gente acha que ter boas idéias é privilégio dos gênios. E os gênios geralmente são pessoas excêntricas. Mas isso está virando coisa do passado. A concorrência na área é enorme. Tem muita gente boa no mercado. Num cenário assim, não há muito espaço para o enfant terrible. Não adianta ser gênio e não ser produtivo. Se for um cara de comportamento complicado vai ter que dar uma boa contra-partida para justificar o emprego.
RPN - Ela continua sendo a mais visada pelos jovens publicitários? O que provoca essa atração?
MANUEL - Todo mundo quer ser o pai da idéia. E na criação essa chance é maior.
RPN - Andy Warhol já demonstrou como uma mera lata de sopa pode se tornar obra de arte. Quando estendemos esse pensamento para a publicidade, podemos acreditar que algumas peças podem também ser elevadas a essa categoria?
MANUEL - Arte nunca foi um termo fácil de se definir. Aquela lata de Warhol é uma obra de arte? Há quem duvide. Se um publicitário quiser fazer arte, eu apoio integralmente, mas sugiro que faça fora do expediente. Sem dúvida, vai ser ótimo para a carreira dele poder usar os conhecimentos artísticos na propaganda e vice-versa. Na agência, porém, o que ele tem que fazer é arte aplicada. Encontrar soluções para os problemas de comunicação do cliente. Seja lançando mão de algo artístico ou não.
RPN - Invertendo os papéis, arte pode se tornar publicidade?
MANUEL - A publicidade nunca será tão ousada quanto a arte. Há na publicidade um compromisso com resultados que na arte, teoricamente, não existe. É por isso que a arte é sempre a vanguarda. Todo grande movimento artístico começou com uma ruptura estética. A publicidade se utiliza muito da arte, mas geralmente só depois que ela foi assimilada e aceita pelo público.
RPN - Tem-se a idéia da Publicidade como algo impessoal, no qual não é possível distinguir as características do profissional por trás das peças. Isso é verdadeiro?
MANUEL - Deveria ser. Afinal, estamos criando peças para construir uma marca ou vender um produto e não fazer o portfólio de alguém. A propaganda tem que ter a cara do cliente. E não do profissional.
RPN - O publicitário pode deixar sua marca, assinatura, na campanha que cria?
MANUEL - Acho que ele não deve ter essa preocupação. Deve sim fazer o melhor trabalho possível, sem se preocupar em deixar uma marca. No máximo, colocar ali, no canto direito do anúncio, o nome da agência em que trabalha.
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