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   Ano VIII | 15 Nov - 15 Dez - 2007 | nº 95 | Capa: Ultra (PB)

     

MAZURCA EM PRETO & BRANCO


Anderson Lima

Mazurca, manifestação cultural semelhante ao coco de roda cujos únicos instrumentos são o ganzá e a batida das sandálias dos participantes. Muito presente em cidades do agreste pernambucano, como Caruaru, Bezerros e Camocim de São Félix. Uma das representantes dessa tradição é a Mazurca Pé Quente, de Caruaru, retratada pela jornalista Raquel Santana em seu projeto de conclusão de curso na Universidade Federal de Pernambuco, em março deste ano. O meio utilizado por ela? Nada menos que uma paixão, a fotografia. “Eu já estava na universidade quando a fotografia entrou em minha vida. Vivi uma paixão arrebatadora. Ela roubou as minhas atenções, tornou-se minha amante”, revela.

O primeiro contato de Raquel com o folguedo se deu na cidade de Cupira, interior do estado. “Lá, um senhor muito antigo cantou músicas que nós (eu, minha família e uma amiga) já conhecíamos por meio de outros grupos que cantam coco. Aquilo comoveu a nós todas”, conta. Para realizar as imagens para o projeto, Raquel realizou três investidas. A primeira, sozinha, na véspera do Ano Novo. A segunda, já em 2007, acompanhada de Adriano Lima, do Coletivo Gambiarra Imagens, que captou a apresentação da mazurca em vídeo. “Minha última investida foi em fevereiro, quando fui avisada do aniversário de Seu Lauro, um dos mestres da mazurca. No dia seguinte à festa, fiz fotos dos mazurqueiros em suas casas, trabalhando”, explica.

Feitas as imagens, os negativos seguiram para revelação no laboratório Acê Filmes, do fotógrafo Alcir Lacerda, e digitalização na Art Foto Paulista. Depois, foi a vez da preparação do vídeo que seria utilizado na defesa da jornalista, editado pela radialista Natália Lopes, estagiária da TV Viva na época. As imagens foram exibidas no pátio externo do Centro de Artes e Comunicação da UFPE, antecedendo a primeira apresentação da Mazurca do Alto do Moura realizada fora de Caruaru. Raquel também redigiu um memorial, requisito obrigatório para projetos de conclusão na área de fotografia.

Nos cerca de dois meses investidos no projeto, o que mais chamou a atenção de Raquel foi a receptividade dos mazurqueiros. “É muito grande a relação de troca e confiança entre nós. Eu dou CDs a eles, que me emprestam fitas K-7, me ensinam mazurcas e até preparam pratos para mim. Toda vez que vou lá é uma alegria”, diz. Para ela, o trabalho teve como saldo angariar maior visibilidade para o folguedo e promover a maior integração entre os mazurqueiros, além de ter proporcionado a ela o prazer de documentar um folguedo tão belo, sem falar na chance de dançar e puxar mazurcas.

“Todo o trabalho e sua repercussão me fizeram enxergar o nosso poder de mudar as coisas para melhor, de mobilização e sensibilização de pessoas para a causa que você defende. E também que o povo não está interessado apenas nos produtos 'culturais' que a indústria cultural nos impõe”, afirma Raquel. Suas imagens também puderam ser vistas na exposição fotográfica “Mazurca do Alto do Moura”, de maio até o fim do São João, no Espaço Cultural Tancredo Neves, em Caruaru. Além das fotografias, foram exibidas roupas, acessórios e instrumentos (ganzá), entre outros materiais. A receptividade do público pôde ser atestada nas mais de três mil assinaturas no livro de visitas da exposição.

Com o trabalho, Raquel teve em mente a divulgação e perpetuação de uma cultura secular, bem como a valorização da auto-estima daqueles que fazem parte do folguedo. “Sempre cultivei o sonho de fazer algo pela cidade onde passei minha infância e boa parte da adolescência. Para os que são de lá e conhecem a riqueza das manifestações culturais da região (banda de pífanos, forrozeiros pé-de-serra, viola e repente, cordel, mazurca), é desanimador ver o município só dar visibilidade a artistas de qualidade duvidosa e que não têm nenhuma característica em comum com a história da cidade”, desabafa. Atualmente, Raquel toca na banda Casas Populares da BR-232 e dá aulas de fotografia a jovens da comunidade Alto do Sol Nascente, em Olinda.

     
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