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   Ano IX | 15 Dez 2007 - 15 Jan 2008 | nº 96 | Capa: Aliança Comunicação (PE)

EM NOME DA CULTURA
Anderson Lima
Lina Rosa em conversa sobre projetos, cultura e democratização de conteúdos inteligentes.
 

Lina Rosa é sócia e diretora de Criação da pernambucana Aliança Comunicação. Formada em comunicação social e especialista em cultura, tem nesta última o leitmotiv de seu dia-a-dia profissional. A motivação vem da produção de comunicação de qualidade, da democratização de conhecimento e das idéias criativas. Dedica seu tempo à publicidade, à produção de crônicas e à criação de roteiros e projetos culturais. Entre eles, o Sesi Bonecos do Brasil e do Mundo e o Cine Sesi Cultural. O primeiro atingiu cerca de 450 mil pessoas apenas nas duas primeiras edições. O segundo chegou a mais de um milhão de pessoas em mais de 140 municípios nordestinos. Com trabalhos premiados nacionalmente - no Profissionais do Ano da Rede Globo, no Festival Internacional de Publicidade de Gramado e no Central de Outdoor, entre outros -, ela, que planeja dar uma paradinha por seis meses para estudar, dá a dica aos novos profissionais: “Não criem inspirados na publicidade. Criem inspirados na vida. Não se entendam como criadores publicitários. Se entendam como criadores”.

REVISTA PRONEWS - Como as questões culturais envolvem as ações desenvolvidas pela Aliança Comunicação?
LINA ROSA - A gente entende que tem uma agência de comunicação e cultura, porque política, esporte ou a forma como uma pessoa consome determinado tipo de alimento ou como ela se veste, tudo isso é cultural. Quando se entende isso como cultura, tem um ganho na forma como comunica e na forma como o trabalho presta um serviço melhor do que apenas o compromisso com a venda ou com a divulgação de um produto ou serviço. A gente amplia esse universo e compreende que a comunicação integrada com a cultura, com o terceiro setor e com os direitos humanos é fundamental para que a boa propaganda aconteça. Sobretudo como desenvolvimento sustentável. A gente quer entender nosso negócio não só em um efeito imediato, mas no que ele pode contribuir a longo prazo. E o negócio da Aliança Comunicação é a democratização de informação inteligente. Esse é nosso objetivo.

REVISTA PRONEWS - De que forma projetos como o Sesi Bonecos do Mundo e do Brasil e o Cine Sesi chegam para quebrar a linha de pensamento de que arte é o que está exposto nos museus?
LINA -O Sesi Bonecos do Brasil e do Mundo começou da idéia de democratizar a informação inteligente que é a cultura do teatro de formas animadas. Criamos ele para Pernambuco, e ele acabou tomando dimensão tão grande que percorreu todos os estados do Brasil. Então temos um case muito interessante, tanto de projeto cultural, quanto de campanha publicitária. Nas 27 localidades por onde o projeto passou, atingimos mais de um milhão de espectadores e isso é um recall muito alto. A gente trabalha com desconstrução de alguns mitos, como o de que teatro de bonecos é coisa para criança, e mostra manifestações mais contemporâneas, como um robô em tamanho real, holandês, um mendigo que caminha no meio das pessoas com um realejo. Nisso, a gente vai para as sombras, luvas, varas, fios e para técnicas as mais apuradas. E ganha a imprensa de forma espontânea. Esse é um projeto animado, com alma. Tem sua voz. E isso é a comunicação que ensina a gente a fazer. Então, quando se cria um projeto cultural que tem voz própria, fica muito mais fácil ele atingir o sucesso de público esperado pelo patrocinador. E tem-se um case diferenciado não só para o Brasil. Ele já tem sido estudo de caso na Espanha, em Portugal e no Canadá. E pelo Brasil inteiro ele é considerado o único com suas características. O projeto de cinema pelo interior já percorreu cerca de dez estados brasileiros e ultrapassou os dois milhões de pessoas. A maioria delas nunca viu cinema na vida. O principal objetivo é chamar a atenção da iniciativa pública e privada para a reabertura das salas de projeção no interior. Porque, se mais de 95% das salas do interior estão fechadas, mais de 95% do cinema brasileiro é inspirado no interior. Então parece muito injusto que justamente toda fonte dessa inspiração não possa se ver. O que aconteceu com as salas de projeção nos mais de 300 municípios por onde a gente já passou é que e a maioria delas virou Igreja Universal do Reino de Deus, delegacia de polícia ou Banco do Brasil.

RPN - Nesta edição do Cine Sesi, está sendo exibido o longa-metragem Tapete Vermelho, que mostra o desejo de um pai de levar o filho ao cinema para assistir a um filme do Mazzaropi, mas se depara com muitas salas de projeção transformadas em igrejas ou lojas. Como os projetos fazem esse diálogo com o público?
LINA -Tudo é muito pensado. Se a gente fica responsável por cada segundo dos 30 segundos de um filme (publicitário), em um projeto como esse a gente também pensa em cada detalhe. No Cine Sesi Cultural, por exemplo, você tem um longa-metragem como o Tapete Vermelho, que é uma comédia que trata dessa realidade do cinema e é interessantíssimo ter mil pessoas até o fim assistindo a isso. Procuramos contemplar o maior número possível de estados e sempre procuramos ter um curta-metragem representando o lugar. Com relação ao Sesi Bonecos, a curadoria é feita a partir do maior número possível de técnicas, de possibilidades, além da importância de os espetáculos terem um conteúdo. Agora em 2008, nós vamos finalmente colher os frutos do Nordeste. Estamos voltando para cá depois de quatro anos. Claro que eu gostaria que esse prazo fosse a metade, mas foi muito importante ter feito esse carrossel cultural rodar o Brasil inteiro. A gente tem companhias de todo o Brasil passando por todo o Brasil. Foi uma vitória muito grande.

RPN - Depois de passar pelas cidades, o que os projetos costumam deixar de herança?
LINA -No caso do Cine Sesi, a semente de que esse estímulo vá reabrir as salas de projeção para que a cultura se dê de forma constante, diária, ou pelo menos semanal. No caso do projeto de bonecos, a gente tem oficinas muito profundas proporcionadas. Novos grupos já surgiram a partir do projeto e novos espetáculos já foram montados. Isso traz desenvolvimento sustentável, que é a causa de tudo: a continuidade com algo que não é perecível, é perene. Temos trabalhado muito com o terceiro setor. Isso tem dado retorno muito grande, pois é um trabalho que se parece muito com os objetivos nos quais acreditamos: dar acesso ao maior número de pessoas a coisas que seriam de direito delas. Temos ainda projetos de ecologia, meio ambiente, moda e ligados à democratização de informações do ponto de vista dos direitos humanos. Não existe preconceito quanto qual área trabalhar, desde que ela nos dê a oportunidade de democratizar uma informação inteligente, de comunicá-la com competência e criatividade, estimulando e respeitando a inteligência de quem está do outro lado. Porque todos têm sua inteligência. Agente só tem que se abrir para entender qual é a inteligência daquela pessoa e aprender a dialogar com ela. Não se pode subestimar ninguém. Essa é a grande lição que a gente recebe e é o legado que pretendemos deixar. Hoje, cerca de 80% dos trabalhos da Aliança Comunicação envolvem cultura e terceiro setor. E isso tem se ampliado muito. É muito interessante, pois criamos negócios para nossos clientes com muito mais eficiência e criatividade a partir da consciência dessa responsabilidade de democratizar conteúdos e deixar algo além da venda e do acontecimento do evento.

RPN – Quando você notou que a cultura exercia todo esse fascínio em você e percebeu que poderia fazer com que outras pessoas também sentissem a mesma coisa?
LINA – Foi muito natural. Fosse em anúncio de uma coluna por cinco centímetros, fosse em comercial de trinta segundos em cadeia nacional, sempre houve o compromisso muito grande de fazer um trabalho que estimulasse a criatividade de quem estava assistindo. Isso sempre foi uma coisa muito forte para mim. E a gente realmente acredita que a publicidade criativa pode criar resultados. Sete anos atrás, recebi convite para criar eventos culturais para um projeto que eu tinha conceituado, o Jardim Cultural, que é o festival de arte e cultura de Belo Jardim. Me pediram para ampliar a participação para além da comunicação, para projetos culturais. Foi ali que começou tudo. Criei três projetos naquele mesmo momento. Dali, imediatamente pré-inscrevi o projeto de cinema pelo interior, tentei a produção com o Sesi e comecei a dialogar com outras artes, como o teatro com formas animadas. Sabe aquela coisa de a gente entrar com dúvidas e sair com mais dúvidas ainda!? Em Harvard, não somos obrigados a dar respostas. Os melhores alunos de Harvard são aqueles que oferecem as melhores perguntas. E cada vez mais a gente vai tendo interrogantes. E desses interrogantes, a gente vai ampliando e trazendo alguma coisa. E vai potencializado. Quanto mais informação tivermos, mais perguntas teremos. E quanto mais perguntas, mais dúvidas surgirão a partir das respostas dessas perguntas. E isso não tem fim.


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