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   Ano VIII | 15 Fev 2008 - 15 Mar 2008 | n° 97 | Capa: Única Planejamento e Comunicação (BA)

O ESPORTE POR VOCAÇÃO
Anderson Lima
Luciano do Valle, de volta ao rádio pela Clube AM, fala sobre esportes, carreira e sua forte ligação com Pernambuco.
 

Porto de Galinhas. Sol forte, vento batendo no rosto e águas quentes de azul indescritível e leve marulho. Outro, porém, foi o motivo que o levou à paradisíaca praia pernambucana. Canceriano de Campinas, São Paulo, Luciano do Valle soma 46 anos dedicados ao rádio e à TV. Essencialmente consagrados aos esportes. A vida profissional foi iniciada ainda na cidade natal, na Rádio Brasil, de Campinas. “Cheguei lá com a cara-de-pau e pedi para trabalhar. Aí me deram oportunidade como auxiliar do redator de esporte amador. Ou seja, eu e o office-boy éramos a mesma coisa”, brinca. De lá, seguiu para outras emissoras até chegar à Rádio Nacional de São Paulo e, pouco depois, encontrar seu espaço na televisão. Primeiro, na Rede Globo de Televisão. Depois, na Rede Record e na Bandeirantes, que ajudou a consolidar como o “Canal dos Esportes”. Além de locutor esportivo e apresentador de televisão, Luciano do Valle também destaca-se como empresário, tendo contribuído sobremaneira para a valorização da seleção brasileira de vôlei, do futebol feminino e dos esportes amadores. Graças a essa dedicação, eventos como a Fórmula Indy e as partidas da NBA passaram a ser vistas em lares brasileiros. Atualmente, ele pode ser encontrado em suas caminhadas nas areias claras de Porto ou na tela da Bandeirantes, como locutor esportivo, e da TV Clube, no programa Tudo em Dia. Ainda pode ser ouvido junto à equipe esportiva da Rádio Clube AM. Casado, pai de três filhas, avô, Luciano guarda em casa alguns dos diversos reconhecimentos que recebeu ao longo da carreira. Entre eles, mais de uma dezena de troféus Imprensa. Nas próximas linhas, um bate-bola com este que há muito já se firmou como um dos grandes nomes da comunicação e dos esportes no Brasil.

REVISTA PRONEWS - Agora em janeiro você completa 46 anos de dedicação ao mundo esportivo. Que balanço faz dessa trajetória profissional?
LUCIANO DO VALLE - É uma trajetória longa e complicada. Difícil, mas de objetivos alcançados, que é o mais importante quando você começa uma carreira. O meu objetivo maior não era apenas trabalhar bem, mas trabalhar direito, servir às empresas. Era também colaborar com o esporte brasileiro, pois a monocultura do futebol era muito grande e eu sempre discordei disso. O esporte tem que ser visto como um todo, e o Brasil tem que ter o objetivo de ser um país olímpico. Esse é meu objetivo. Foram 46 anos de muita luta para botar na cabeça de determinadas pessoas que a gente tinha de olhar para as modalidades que compõem a olimpíada. Que a olimpíada é uma coisa importante, pois é o maior momento de reunião do mundo. Mais do que o futebol. E isso tudo foi complicado. Antigamente, e esse antigamente significa “há vinte anos”, falar em praticar voleibol era um escândalo. Falar em ginástica olímpica era outro escândalo. Levou tempo para a gente maturar e para que os profissionais entendessem que isso tinha que ser feito. O balanço disso tudo é que a gente está progredindo. Não será na minha geração que a gente terá um Brasil olímpico, mas, pelo menos, eu tenho certeza que ajudei a iniciar isso.

RPN - Ao longo de sua carreira, você já narrou nove copas do mundo e oito olimpíadas, atuou como treinador e, entre outras iniciativas, foi responsável direto pelo início das transmissões das corridas de Fórmula Indy e dos jogos da NBA no Brasil. De que forma os esportes fazem parte de sua vida?
LUCIANO - Está na veia, no sangue. Vem desde pequenininho. Tem gente que quer ser jornalista sem ter o sangue de jornalista. Tem gente que quer ser médico sem ter a perspectiva e ter aquilo dentro dele. Não adianta. É vocação. A minha vocação foi o esporte. Coisa de Deus, ninguém me botou na cabeça. Desde pequenininho eu já jogava futebol de botão e irradiava. Aos cinco anos de idade fazia isso. Ninguém me ensinou. O esporte é uma coisa tão importante que os soviéticos e os americanos só se falaram depois dos Goodwill Games (Moscou, 1986). Se não fosse o Ted Turner ter criado os Jogos da Amizade (como eles foram chamados no Brasil), eles estariam boicotando as olimpíadas até hoje. E quando um boicota o outro, você tem vários países que vão atrás. O esporte é o único meio de socialização que coloca em uma praia e de calção um empresário, um empregado e um office-boy, e faz ninguém saber que aquele é empresário e aquele outro é office-boy. O esporte dá chances para todo mundo, desde o mais humilde até o mais agraciado.

RPN - É possível imaginar onde você estaria hoje sem essa paixão?
LUCIANO - Não tenho a menor idéia (risos).

RPN - Você iniciou a carreira no rádio ainda em Campinas, passou 39 anos longe do meio e voltou agora, em 2007, pela Rádio Clube AM. A que se deve esse hiato tão grande?
LUCIANO - É muito difícil fazer as duas coisas ao mesmo tempo, televisão e rádio. Primeiro, pelo calendário. Segundo, pelos estilos. O estilo de televisão é muito mais cadenciado do que o de rádio. Rádio, hoje, exige um preparo físico maior. Mas eu voltei para a Rádio Clube por uma razão muito sentimentalista. Ela se transformou em uma rádio conhecida no mundo todo e é uma rádio de tradição, que está no coração de todo pernambucano, todo artista, todo músico. E o esporte não podia ficar parado. Claro que é bem diferente de 39 anos atrás, mas a gente vai mexer um pouco com o mercado, com as pessoas e os profissionais locais. Estamos planejando um 2008 com muita vontade e alegria ao lado do Roberto Nascimento (que divide com Luciano o comando da equipe esportiva da rádio). Temos grandes repórteres, e patrocinadores que estão acreditando na volta da gente.

RPN - Em minhas pesquisas, encontrei uma declaração em um fórum que afirmava que você narraria tal qual um torcedor. O que tem a dizer sobre isso?
LUCIANO - Eu narro com a sensibilidade que o torcedor tem. Há uma diferença fundamental entre o torcedor e o narrar com sensibilidade. Se a jogada é bonita, se ela motiva, eu cresço. Independente de camisa, desse lado de torcedor. A única hora em que eu sou torcedor mesmo é quando o Brasil está em jogo. Aí eu não nego. Já disse a todo mundo. Eu não vou inventar, não vou mentir, porque na televisão não dá para mentir. É ridículo você dizer que o Brasil está jogando bem quando todo mundo está vendo que não está. Agora, eu procuro torcer para que o Brasil sempre esteja bem. Não só no futebol como em todas as outras modalidades. A vantagem que eu acho que tenho é que eu transmito como se estivesse jogando, como se estivesse lá dentro.

RPN - Você é natural de Campinas, São Paulo, mas possui forte ligação com Pernambuco, que é para onde você vem a fim de poder “recarregar as baterias”. Que relação você mantém aqui com o estado?
LUCIANO - É o contrário! Eu moro aqui e vou descarregar as baterias lá embaixo. Eu vim aqui pela primeira vez em 1973, para ver um jogo do Náutico e Palmeiras. E me encantei com o Recife, com o povo pernambucano. A partir de 1973 eu comecei a trabalhar para, um dia, vir morar aqui. O Nordeste é muito discriminado em nosso meio jornalístico radiofônico e televisivo. O eixo Rio/São Paulo não tem mais o que dar, a não ser a mesmice que está aí no ar. A criatividade está mais para o Nordeste, que é hoje a Califórnia para o Brasil. As pessoas têm que acreditar não só nessa beleza de sol e mar, que é fantástica, mas principalmente no potencial empresarial, artístico e cultural. O que tem de cultura aqui, de grandes artistas e de potencial de turismo de negócios... e vem aí o estaleiro! O Brasil está se mudando para cá. E isso eu enxerguei há mais ou menos 20 anos. Eu sempre dizia: um dia o Nordeste vai ser o eixo Rio/São Paulo.

RPN - O que falta ainda Luciano do Valle conquistar profissional e pessoalmente?
LUCIANO - Eu não peço mais nada. Eu só agradeço. Deus me deu tanta coisa boa: saúde, a minha profissão. A única coisa que eu gostaria que acontecesse, mas aí não é um problema do Luciano, é do Brasil, é que a gente tivesse realmente essa consciência da importância do esporte. E para isso acontecer, todo mundo precisa entender que é importante. Empresários, jornalistas, publicitários e dirigentes. Todo mundo tem que estar em um barco só.


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